Pachecosfera, Pachachosfera, Mulheres, Homens, Bitaites, Fricções, Jornalismo, Futebol, Cromos, Humor.

→ 20/05/2012 @16:43

Ó Relvas ó relvas, nova oportunidade à vista

Cartoon de Henrique Monteiro

Já toda a gente sabe do caso Relvas. Um resumo: o Conselho de Redação do Público denunciou «pressões» do ministro dos Assuntos Parlamentares. Umas horas depois, a direção do jornal reagiu e considerou-as «inaceitáveis».

Miguel Relvas telefonara à editora de Política do jornal depois de ter recebido da jornalista Maria José Oliveira um «conjunto de perguntas relativa a contradições nas declarações que prestara, no dia anterior, na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias» a propósito de outro caso, o das Secretas.

No telefonema, denuncia a direção do Público em editorial, ameaçara fazer um «blackout» noticioso ao jornal e «revelar detalhes da vida privada da jornalista».

O ministro devia saber que revelar detalhes da vida privada de alguém costuma ser um exclusivo dos paparazzi, não dos políticos. Os fotojornalistas da imprensa cor-de-rosa souberam transformar essa prerrogativa em notícia de capa, políticos com tiques de rufia aprenderam a transformá-la em ameaça.

No que toca às ações dos políticos deste Governo, contudo, é preciso ter cuidado. Terá Relvas feito uma ameaça ou apenas uma promessa?

É preciso ter em conta se ele disse qualquer coisa como «prometo que faço assim ou assado e tal». Mesmo que dúzias de perdigotos lhe tenham saltado para a secretária como mergulhadores bêbados no salto à prancha, deveremos considerar o teor do telefonema com o mesmo ceticismo com que encarámos a promessa de que não seriam aumentados mais impostos.

Se foi realmente uma ameaça e tivesse sido concretizada, Miguel Relvas teria passado à História de Portugal como o primeiro político a acumular o cargo de ministro com o de paparazzi. A novidade aqui não teria estado na acumulação de cargos e regalias, mas na junção improvável de duas atividades tão díspares.

Dizem então que Miguel Relvas devia ser demitido. Eu cá apontava um bocadinho mais alto, mas pronto, cada um sabe o que fazer ao dedo: vamos supor, nem que seja como hipótese meramente académica, que o caso não morrerá nas próximas 72 horas e Relvas será mesmo forçado a sair.

Eu não penso que este desfecho seja assim tão mau. Do ponto de vista do seu chefe de Governo, a demissão do ministro dos Assuntos Parlamentares – ou de qualquer outro político – não significa cair no desemprego mas ter «uma nova oportunidade». Só é pena que a benevolente visão social do primeiro-ministro se aplique apenas à única classe que conhece bem.

→ 19/05/2012 @3:46

Qual é coisa, qual é ela

Deixa lá, Álvaro. Também me costuma acontecer, referir-me a algo sobre o qual tenho uma ideia mas não encontro a palavra certa para a definir.

Eu costumo usar essa palavra quando procuro uma chave na caixa de ferramentas: «Onde é que eu deixei aquela coisa que eu uso para abrir a caixa do computador

Tu és ministro da Economia, tens obviamente problemas mais complexos e por isso é fácil imaginar-te a perguntar a um colega de Governo «Como é que se chama aquela coisa que a gente tem de resolver? Ah! O desemprego, pois é… »

O que me faz espécie é o teu timing. A tua cadência. Porque estás nitidamente num ponto alto do teu discurso, ora vê:

«O desemprego tem de ser uma preocupação de todos nós» – dizes tu e muito bem.

«Todos nós temos de trabalhar em conjunto» – prossegues tu e muito bem.

Repara, Álvaro, que os teus colegas de coligação nas bancadas já toparam que estás a chegar ao climax do discurso. À medida que te aproximas da ribombante frase final e a entoação se vai tornando mais determinada, vão correspondendo com um aumento na intensidade das palmas. Isto é profundamente político, Álvaro. É assim que a gente percebe que o que dizes faz sentido.

Se ouvires com atenção, há um que até grita «Muito bem!» quando te ouve dizer «Todos nós temos de trabalhar em conjunto». Porque foi isso precisamente que aconteceu, um trabalho conjunto: tu discursaste, a malta da tua bancada aplaudiu, foste até capaz de sacar uma excelente banalidade para os telejornais e alguém te incentivou com um sonoro «muito bem».

Trabalho parlamentar de alto nível. Parte-me o coração que tenhas estragado tudo, Álvaro.

«Todos nós temos de trabalhar em conjunto», dizias tu não é

e depois exemplificas: «sindicatos, patrões e partidos».

Muito bem, outra vez. Tiveste o cuidado de inverter a ordem com que os apresentaste: os que te chateiam primeiro, os bacanos a seguir e os tipos que te aplaudem no fim – excelente exemplo de pluralismo democrático.

Chega agora o momento em que terminarás a frase em alta e colherás os aplausos da bancada e um minuto e meio a fazer boa figura nos telejornais –  que dizes tu?

«para conseguirmos ultrapassar este… coiso».

E terminas assim de fugida, como quem enxota uma melga.

Ó Álvaro, isso é lá forma de tratar os teus colegas de bancada que estavam a fazer tão bem o seu papel e até largaram o Twitter para te ouvir melhor? Sabes o que custa aplaudir banalidades como se estivessem na presença de um novo Barack Obama? Podes imaginar como terão ficado desapontados quando esse lamentável «coiso» te saiu pela boca?

E o compromisso com os eleitores? A malta não escolhe deputados para andarem a aplaudir uma palavra qualquer. A política funciona como um mercado, precisa de boas palavras para vender e de gente disposta a comprá-las. Um bom político está sempre empenhado nessa transação. Experimenta meter no boletim de voto «Votem no meu coiso para ultrapassarmos esta coisa» e vais ver como perdes as eleições.

Custava teres rematado a frase com o mais sofisticado «este flagelo social» ou, se tivesses preferido um estilo mais vintage, «este grande desafio»?

→ 17/05/2012 @0:43

Já cá faltava a merda

Um cartoon de John Trever resumiu um dia as diferenças entre dois métodos, o científico e o criacionista, com humor e sabedoria. Os métodos eram exemplificados da seguinte forma:

Método científico – «Aqui estão os factos. Que conclusões podemos retirar deles?»

Método criacionista – «Aqui está a conclusão. Que factos podemos encontrar que a suporte?»

Partindo do duvidoso princípio de que é aceitável vasculhar a intimidade de um músico já falecido (ou de qualquer outra figura pública) por razões comerciais, o jornalismo poderia ao menos considerar o método científico e formular corretamente o problema: «Aqui estão os factos. Que título e que peça poderemos retirar deles?»

O jornalismo criacionista da VIP (e outras publicações do género) usa o outro método: «Aqui está o título e a peça. Que factos podemos encontrar que os suporte?».

Na ausência de factos além dos que foram noticiados – Bernardo Sassetti escorregou de uma falésia enquanto fotografava – o jornalista criacionista não esmorece e socorre-se do cliché do «génio atormentado». E conta com a concordância de muitos dos seus leitores, para quem um «génio» só o poderá ser se estiver «atormentado».

Pobre artista que se atreva a gostar de viver, já não terá hipóteses de ser genial.

Até a diretora da VIP, «uma das últimas pessoas» a vê-lo com vida, descreve o encontro na bomba de gasolina das Amoreiras nos seguintes termos: «Homem magro, vestido com um blazer cinzento e com barba severa. Bernardo Sassetti, músico, pensei eu, estranhando a magreza».

Pois, estranhou porque era um músico. Pior, artista. Quando o jornalista criacionista escreve um artigo sobre saúde e bem estar, a magreza é aspirar à elegância; quando escreve um artigo sobre um artista genial, a magreza é um sinal de depressão.

Depois, para compor a peça, arranja-se um «amigo» que fale anonimamente a uma revista destas – eufemismo para coscuvilheiro – e suporte esta visão dúbia e preconceituosa, ignorando-se com matreirice o depoimento de todos os outros que deram a cara pela sua alegria de viver, entusiasmo contagiante e enorme ambição artística.

→ 10/05/2012 @9:37

A quinta foto

Observem com atenção esta foto e tentem descobrir o elemento que identifica o local do acontecimento, o acontecimento e a data em que ocorreu.

O autor, o repórter fotográfico Terril Jones, ficou ainda mais um mês no país até finalmente regressar a Tóquio. Foi só então que notou que também ele capturara um momento da história, mas de um ângulo completamente diferente.

As fotos icónicas tiradas pelos jornalistas a partir da varanda de um hotel já tinham sido publicadas e corriam o mundo, pelo que Jones decidiu manter a sua imagem guardada ‘na gaveta’ por considerar que era já tarde de mais para a usar.

Manteve-a na sua coleção durante vinte anos, até que um artigo no New York Times com depoimentos dos quatro fotógrafos o levou a divulgá-la ao mundo: a quinta foto dos protestos da Praça da Paz Celestial mostra-nos um homem esperando a chegada dos tanques, uma atitude de resistência e rebeldia premeditada desde o início. Toda esta história, que eu desconhecia, pode ser lida aqui.

→ 03/05/2012 @13:37

Antropologia homeopática

Principal queixa que tenho lido nas redes sociais: a Rita Pereira não mostrou as maminhas na Playboy. O que nos vai valendo é esta capacidade inesgotável de nos chatearmos com as pequenas coisas, sempre se vão misturando com as importantes até transformar a nossa consciência social numa enorme papinha muito diluída e nada espessa.

Para que conste: também eu me sinto indignado com a pudica sessão fotográfica publicada na revista. Bastou lançar uma versão portuguesa para que a velhinha e fiável Playboy deixasse de cumprir o que promete. Pobre lusitano, desejava coelhinha à moda de Hugh Hefner e só lhe é servido, todos os dias, Coelho à moda de Pedro Passos.

→ 03/05/2012 @0:38

Entretanto, a 2 de maio

EPA/Luis Tejido

É sempre reconfortante constatar que toda esta confusão à volta de um tuga nada tem a ver com promoções do Pingo Doce.

→ 02/05/2012 @22:37

Isto é, tipo, muito bom

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