À medida que o tempo vai passando, a malta começa a levar-me mais a sério e a convencer-se de que deixei mesmo de fumar. Um tipo do trabalho que até costuma ser de poucas falas meteu conversa comigo para me contar que largou o vício há cinco anos e que essa decisão continuava no seu «Top 5 das mais difíceis que tomou na vida. E provavelmente irá continuar em primeiro lugar durante muito tempo».
Depois disse-me que, nos três meses que se seguiram à sua decisão de deixar de fumar, não foi capaz de pensar noutra coisa a não ser no cigarro. Atenção: estamos a falar de uma pessoa que deu as primeiras passas aos dez anos e que só parou aos 40. «Lembro-me que estava numa reunião de trabalho» – recorda ele – «quando alguém entrou de rompante a dizer que o Papa tinha morrido.»
Ele é um católico praticante, mas a única coisa que pensou foi «Pá que se lixe a merda do papa, o que me apetecia era fumar um cigarro». Optei por esconder-lhe o meu ateísmo, não fosse o homem recomeçar a fumar ali à minha frente.
O tipo encarou o acto de deixar de fumar como uma missão de sacrifício só possível de levar a bom termo pela força de vontade. Admiro-lhe a força, mas não o método. Deixar de fumar assim é demasiado violento. É um milagre que nestes últimos cinco anos não tenha tido uma recaída. Como ainda o oiço a falar dos cigarros com um sentimento de perda, não me surpreendo se um dia destes o encontrar a fumar outra vez. Há muita gente que deixa de fumar durante cinco, seis anos, mas volta a cair no vício porque, ao invés de se concentrar em tudo aquilo que ganhou, ainda pensa no cigarro com «saudade». Depois basta fumar «só um cigarrinho» para voltar a fumar vinte ou trinta por dia.
Bem vindos então à terceira parte desta série de posts cujo conteúdo é composto por transcrições do livro de Allan Carr – o homem que ensina, com surpreendente sucesso, um Método Fácil de deixar de fumar. Esse método resultou comigo, que fumei mais de 20 anos convencido de que seria incapaz de escrever uma linha sem um cigarro na boca. Entretanto, já escrevi muitas – incluindo este post – e não parei uma única vez a lamentar a falta do «fiel companheiro».
Se vocês consideram que estou a abusar deste tema e a aborrecer-vos, paciência. Fumem mais um cigarrinho que isso passa. Aos outros – os que fumam e gostariam de largar o tabaco – espero que continuem a ler estes textos do Allan Carr. Que vos sejam tão úteis como o foram para mim.
A ARMADILHA SINISTRA
O vício de fumar é a mais sinistra e enganadora armadilha da natureza. O homem não podia ter concebido nada mais engenhoso. Antes de mais, o que é que nos impele a cair nela? O facto de milhares de adultos também fazerem o mesmo. Quando somos crianças, eles até nos avisam de que é um hábito repugnante e nojento, mas nós não conseguimos acreditar que não o apreciem.Um dos aspectos mais patéticos do hábito de fumar é verificar como temos de lutar arduamente connosco mesmos para ficarmos presos a ele. É a única ratoeira que não está munida de isco, de um pedaço de queijo. Aquilo que faz saltar a armadilha não é o sabor delicioso dos cigarros mas, antes, o eles terem um sabor tão desagradável. Precisamente porque aquele primeiro cigarro nos soube tão bem, isso deveria fazer soar um alarme, algures dentro de nós e, como seres humanos dotados de inteligência, poderíamos então compreender aquilo que faz com que metade da população adulta esteja a pagar bem caro por se andar sistematicamente a envenenar. Mas, porque esse primeiro cigarro sabe tão mal, as nossas jovens mentes, destituídas ainda de preconceitos, ficam tranquilizadas e levam-nos a crer que nunca será possível ficarmos agarrados a uma coisa que nos desagrada e julgamos que, como não estamos a gostar, poderemos parar sempre que quisermos.
A armadilha está montada de forma a só tentarmos deixar de fumar quando nos encontramos em pleno stress, seja por causa da saúde, da falta de dinheiro ou simplesmente porque nos estão a fazer sentir como se fossemos leprosos.
Assim que paramos, ainda sentimos o stress com mais intensidade (os temíveis efeitos de privação da nicotina) e, agora, somos obrigados a prescindir daquilo em que costumamos apoiar-nos para o aliviar (a nossa velha «muleta», o cigarro).
Depois de alguns dias de tortura, decidimos que escolhemos a altura errada para o fazer. Temos que esperar por um período sem stress e, assim que ele surge, a razão para abandonar o cigarro desaparece. Claro, esse período nunca chegará porque, em primeiro lugar, pensamos que as nossas vidas têm tendência a apresentar-se cada vez mais sobrecarregadas pelas tensões. Quando deixamos a protecção dos nossos pais, a ordem natural das coisas é montarmos nós uma casa, surgirem as hipotecas, os bebés, trabalhos de maior responsabilidade, etc. É também um logro em que caímos, quando nos servimos destes pretextos para não deixar de fumar por causa deles. A verdade é que, para qualquer indivíduo, os períodos de maior tensão são os da primeira infância e da adolescência.
Temos tendência a confundir responsabilidade com stress. As vidas dos fumadores tornam-se automaticamente mais tensas porque o tabaco não relaxa ou alivia o stress, tal cmo a sociedade lhes tenta fazer crer. É precisamente o oposto: na realidade, faz com que se fique mais nervoso e se sinta mais infeliz.
Até mesmo os fumadores que dão um pontapé no vício (a maior parte fá-lo, uma ou mais vezes, ao longo da vida) podem viver completamente felizes e, no entanto, são de novo agarrados por ele.
Toda esta história do vício de fumar é como vaguear num labirinto gigantesco. Assim que estamos dentro dele, as nossas mentes ficam como que enevoadas e obscurecidas e passamos o resto da vida a tentar fugir. Muitos de nós, por fim, conseguem-no, apenas para ir descobrir, uns tempos mais tarde, que ficámos de novo enjaulados!
Passei trinta e três anos tentando fugir daquele labirinto. Tal como todos os fumadores, não conseguia compreender por que é que me metera naquilo. Contudo, devido a um conjunto de circunstâncias incomuns, e sem que qualquer delas reflectisse mérito da minha arte, quis saber por que razão me era tão terrivelmente difícil abandonar o cigarro. E, quando finalmente o consegui, revelou-se uma empresa não só fácil, como até agradável.
Desde que deixei de fumar, o meu hobby e, posteriormente, a minha profissão têm tido como objectivo tentar resolver os muitos enigmas associados ao hábito de fumar. Posso compará-lo a um complexo e fascinante puzzle e, tal como o cubo de Rubik, quase impossível de solucionar. Contudo, e à semelhança de todos os puzzles, por mais complicados que sejam, se o conseguir resolver passa a ser tão fácil! Eu encontrei a solução para se conseguir deixar de fumar com facilidade. Conduzi-lo-ei para for a do labirinto e farei com que você nunca mais se sinta perdido e tenha de vaguear por ele. Tudo o que tem a fazer é seguir as instruções.Se virar pelo caminho errado, todas as outras indicações que lhe possa fornecer revelar-se-ão inúteis.
Deixe-me salientar que ninguém pode achar que deixar de fumar é uma tarefa fácil, mas primeiro temos de apresentar os factos tal como eles são. Não pense que me refiro a factos alarmantes e assustadores. Sei que já está consciente de que existem. Já há informação que chegue sobre os perigos que este vício acarreta. Se eles tivesse, o condão de o fazer deixar o cigarro, você a esta horas já não seria um fumador. Portanto, volto a perguntar: Por que motivo é que achamos que é tão difícil abandonar o vício? A fim de estarmos aptos a responder a esta questão, precisamos de saber qual a verdadeira razão de ainda estarmos apegados a ele.






























6 comentários
Marco,
Antes de mais, os meus parabéns por teres conseguido deixar de fumar, eu já fiz uma tentativa, estou a pensar em fazer uma novamente.
Mas, assaltou-me agora uma questão inquietante, sobre o método que usaste: e se o fumador não gostar de ler?
Abraço
Viva Marco.
Queria apenas avisar quem segue estes artigos, que o livro “O Método Simples Para Deixar de Fumar” da Dom Quixote (na 3ª Edição), deverá efectivamente ser o mesmo que aqui vais abordando. Comprei-o ontem e iniciei a leitura de forma quase frenética tão boa tinha sido a tua “evangelização”. O livro de que falo está dividido em 44 capítulos sendo o último o “Conselho aos não-fumadores”.
Confirma-me por favor, se este capítulo da “Armadilha sinistra” surge após a sequência “O pior viciado em nicotina jamais visto”, “O método simples” e “Porque é difícil para?”.
Aquele abraço,
Rui
Rui, confirmo que se trata do mesmo livro embora provavelmente com uma tradução diferente.
E então, já leste? Que tal?
Olá Marco, parabens por ter deixado de fumar e ter escolhido o método Allen Carr´s Easyway. Augusto, para quem não gosta de ler há o curso (ver site http://www.comodeixardefumar.com) e o DVD (FNAC, WORTEN, Corte Inglês). O livro “Parar de fumar” foi editado em 1999 pela editora Paz que faliu. Em 2005 foi reeditado pela editora Dom Quixote com o titulo “O método simples para deixar de fumar”. Sou Ria Slof e monitora dos cursos “Allen Carr´s Easyway – Simplesmente, não fumar mais” em Portugal. O centro de atendimento é em Leça da Palmeira (Grande Porto). Aconselho a todos tomar a decisão…. é maravilhoso ser livre do fumo!
ola boa tarde,o meu nome e helder e gosta va de preguntar como posso comseguir o vossio livro em porugues ,ja que me emcontro na alemanha e gostava de o ter em portugues para tentar ou talvez deixar de fumar.muito obrigado pela vossa atencao, muito respeitossamenta…………..helder
Bom dia Marco.
Ontem dei de caras com o seu blog, ja deixei de fumar várias vezes, sempre recomeçando passado algum tempo. Sempre convencida que deixo quando quero por isso sem problema …
Mas…
A verdade e que isso era passado… já não o faço com essa facilidade toda… mudei enquanto ser humano ? terá havido alteração nos quimicos que o tabaco levam para levar a dependencia ? bem não sei..
Mas ainda assim ontem tomei a decisão, vou deixar de fumar !!!
Andei de blog em blog, li voltei a ler , e vamos a isso que se faz tarde
Obrigada, e pode ser que deixe para sempre, pode ser só um dia, mas mesmo que seja só um dia sem fumar… já valeu a pena