→ 21/03/2006 @3:02

Sumo Postífice

A Pecola tem a mania de me chamar Sumo-Pontífice. Que posso fazer? Deve achar que sou gajo anafado, cerimonioso e tenho mau gosto a vestir. Que acentuo e prolongo os “ésses” como faz aquela serpente do Robin dos Bosques.

Olha que há padres que sibilam orações. Parece-me! Se calhar é dos meus ouvidos, não sei. Ainda estão vermelhos por causa dos apertões que levaram na Escola Salesiana.

Com que então, sumo-pontífice? Raio da miúda! Quererá ela dizer que sou celibatário? Que rejeito a minha natureza todas as manhãs e finjo ter água benta nos tomates? Mau mau, maria. Isso é que não. Estou certo de que Miss Pec não diria uma coisa dessas, a intenção é outra. Talvez seja uma forma simpática e engraçada de assinalar mais de um ano a blogar no Bitaites. Deve ser isso.

Sumo-pontífice? Nesse caso muito agradecido. Da próxima vez, se fazes favor, trata-me por sumo-postífice. É mais adequado ao que faço, e sinto. Pontífice é demasiado agudo. Às vezes arrepia. Parece giz a arranhar um quadro numa manhã fria e quezilenta. O quadro da sala de aulas da Escola Salesiana.

Lembro-me do meu professor de Moral e Religião – sim, na década de 80 era uma disciplina obrigatória. Um caixa d’ óculos feio, carrancudo e beato. Acumulava o cargo de professor com o de padre salesiano.

Duplo emprego? Pá, isso rebenta os nervos a uma pessoa. Ensinava os mandamentos de Cristo durante o dia e planeava castigos bíblicos durante a noite. Foi ele quem inventou a galheta dupla: duas bofetadas dadas ao mesmo tempo, uma em cada face. Se o aluno usasse óculos, retirava-os muito devagar. Tipo cerimonioso, disso não tenho dúvidas. Retirava os óculos com a mesma suavidade granítica de um sacerdote levantando a óstia a meio da celebração dominical. E a galheta dupla era para ele se assegurar de que os alunos dariam sempre a outra face. Era um acto de fé.

Quando comecei a estudar Biologia mudei de opinião. Talvez, afinal, aquilo não fosse um acto de fé. Se calhar era um acto de crueldade. Ou então as duas coisas ao mesmo tempo. Tinha ouvido dizer que a fé e a crueldade se dão bem e que costumam formar associações prósperas e duradouras. Tipo multinacionais. Mas antes ser apanhado a fumar do que ser apanhado a dizer essas coisas!

E a Biologia? Pá, é aquela cena da fotossíntese. Giro à brava. As plantas consomem dióxido de carbono, que é venenoso, e libertam oxigénio, que nós respiramos. São muito porreiras, as plantas. São tipo livros: consomem o nosso olhar mas, em contrapartida, libertam as palavras. E, no caso das plantas, fazem qualquer coisa de útil com a Luz, não a usam para projectar sombras de culpa sobre blasfemos ou alunos mal comportados. É isso. Aquele professor consumia amor e libertava ódio, enchia o peito de compaixão e escarrava intolerância. Tuberculose moral, se calhar! Ou então outro tipo de fotossíntese. Acho que prefiro a fotossíntese das plantas. Ou dos livros.

Pontífice? Sorry, Pec. Lembra pontas. Pontas soltas. Pontas aguçadas. Lanças. Lanças da minha pré-história apontadas ao pensamento.

Um comentário

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    com Internet Explorer 6.0 Internet Explorer 6.0 em Windows XP Windows XP
    28 de Abril de 2007 - 21:43 | Link permamente

    No Ano-Santo de 1950 eu estava em Campo Grande, Mato Grosso, num colégio salesiano. Havia internato – eu era aluno externo – mas nunca soube ali de nenhum caso de castigos corporais… Seria em Portugal mais um ranço da ditadura e autoritarismo de Salazar? Afinal a Igreja adora ombrear-se com os métodos das ‘chefias’