7/Agosto/2006

Sou o Jack Bauer dos caixotes

Mudar de casa fez de mim o Jack Bauer dos caixotes e das mobílias. Uma corrida contra o tempo. Quero resolver tudo antes de acabarem as mini-férias.

Hora zero: descobres a casa para onde te queres mudar.

Começa a acção!

Telefonar à senhoria e convencê-la de que és um tipo sério e honesto, não vais acender uma fogueira no meio da sala e tens condições para pagar a renda: 45 minutos, mais de 15 euros de telemóvel. Tempo necessário para convenceres a tua mãezinha de que és um tipo sério e honesto, tens condições para pagar a renda mas mesmo assim precisas que ela seja a tua fiadora porque a senhoria é desconfiada: cinco segundos. Tempo de espera até poderes ver a casa e tomares a decisão final: oito horas. Tempo de espera até marcares a assinatura do contrato de arrendamento já depois de teres reunido toda a papelada necessária: mais dois dias. Tempo necessário para que a senhoria – uma velhota rica de 70 anos, beata e suavemente reaccionária – leia o contrato todo de uma ponta à outra como se estivesse a recitar um capítulo da Bíblia: mais de 45 minutos. As vezes em que eu desejei fumar um cigarro e não podia: incontáveis.

Próxima missão: levar o precioso contrato para ser carimbado nas Finanças. Tempo de espera pelo carimbo: quase três horas. Tempo de espera para abrir uma conta de electricidade: uma hora. Abrir a água: dez minutos.

Próximo passo: telefonar à Netcabo para fazer a transferência do serviço para a nova morada. Tempo ao telefone: cinco minutos. Enviar fax com declaração por escrito e cópia do contrato de arrendamento: mais dez minutos. Fica combinado que uma equipa da Netcabo irá sábado de manhã à nova casa estabelecer o sinal e reactivar a conta. Infelizmente – estava tudo a correr tão bem, não é? – cortaram-me o sinal da casa antiga umas horas depois de receberem o fax e três dias antes de chegar a equipa, o que significa que fiquei sem net ou televisão antes de o processo de transferência sequer começar. Netcabo, pois. Agora tenho net numa casa ainda inabitável.

Inabitável? Pois é. Uma inspecção mais cuidada revela-me que o sistema de canalização está todo tramado. Não dá para tomar banho, beber água ou cagar no assunto. Impossível viver assim. É preciso substituir torneiras, chuveiros e autoclismos se quiser mandar avançar os homens das mudanças. Orçamento: 970 euros.

A senhoria quase tem uma síncope cardíaca quando sabe que tem de gastar esse dinheiro todo. Tempo a aturá-la ao telefone: cerca de uma hora. Fica combinado que tentarei encontrar um canalizador que não esteja de férias e que não se aproveite da minha situação para meter a mão ao bolso dos outros. Depois de muitos telefonemas e tempo perdido, acabo por encontrar um canalizador que trabalhou na casa da prima do primo de um amigo que é sobrinho de um tio que é irmão de um amigo de um vizinho que conhece bem um amigo de um amigo meu, estão a ver como é. Novo orçamento: 600 euros, incluindo o material todo a substituir. Força, digo eu, já farto desta merda toda. Tempo perdido neste processo: mais dois dias. Fica combinado que hoje – segunda-feira – o gajo vai lá trabalhar.

Ontem telefona-me a dizer que afinal não pode. Tem uma consulta urgente marcada há quatro meses e é impossível desmarcar, esteve em lista de espera, sabe como é, sou muito distraído, a minha mulher é que me avisou e quando ela me disse até caí de quatro, peço imensa desculpa, sei que está cheio de urgência, pode ficar para terça-feira de manhã? Pronto, foda-se, penso eu, está bem, és distraído, desde que não montes o chuveiro na pia e o autoclismo na banheira por mim está tudo bem, quero é esta merda resolvida.

Tempo necessário para transportar caixotes cheios de livros, CDs, material informático, roupas e pequenas mobílias: ainda não acabei… Quantidade de litros de suor devido ao transporte sob o calor de Agosto: dá para encher baldes. Efeito visível na minha barriguinha: nenhum. Raios partam as mudanças.

Entretanto, terminaram as minhas férias. Estou contente porque em breve irei para a minha nova casa, mas com uma neura das antigas porque estou de volta ao trabalho sem vontade de fazer nada.

O blogue continuará em banho-maria até me instalar definitivamente, o que me deixa ainda mais lixado. A todos, boas férias!

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