→ 18/10/2010 @17:28

Só pode matar a fome se pagar primeiro

Cartoon de David Fitzsimmons


A crise económica está em todos os telejornais, mas eu há uns dias vi-a. Descobri-a num corredor do supermercado onde se vendem pacotinhos de línguas de gato.

A velhota vestia um casaco de malha gasto e sujo. Devia ter uns sessenta anos, talvez mais, os pés e os tornozelos estavam  inchados, caminhava muito devagar e falava muito depressa. Tinha uma costeleta na mão, queria levá-la sem pagar e tentava explicar-se à gerente do supermercado. Deixei-me ficar, a cuscar a conversa.

A gerente da loja é uma mulher sofisticada e mesmo muito, muito boazona. Lembra vagamente uma daquelas velhas caricaturas da revista Gaiola Aberta, mas com melhores cores. A gerente da loja caminha de um lado para o outro como um sentinela de mini-saia. Estica esplendorosamente as pernas, de tal maneira que muitas vezes me pergunto se também não tem mamilos nas solas dos pés.

Naquela voz de bagaço notava-se uma mistura de impaciência e familiaridade: «Você é sempre a mesma coisa!», dizia para o casaco de malha gasto. «Sabe muito bem que não pode levar nada sem pagar!»

A velhota não se deixou intimidar, pois tem uma filosofia de vida que consiste em desafiar, com matreirice, as próprias fundações em que assenta a nossa sociedade. Ofendida e cheia de raiva, devolveu a costoleta à gerente e respondeu: «E você é sempre a mesma cabra! Qual é o problema de eu não ter dinheiro se tenho fome? Maldita sejas. Porca. Cabra.»

A gerente do supermercado suspirou e virou-lhe as costas, desejosa de pegar num telemóvel e contar a uma orelha todos os detalhes da horrorosa experiência. A crise económica de que tanto se fala nos telejornais também a afectará, pois já não poderá comprar aquela saia espectacular que viu na Pinkie.

A velhota seguiu caminho, mas não saiu do supermercado, dirigindo-se muito lentamente à zona do café.

O café – e todo o supermercado – tem cartazes onde se anuncia uma relação especial entre o supermercado e nós, pessoas clientes. «O nosso compromisso é consigo», anuncia-se com frequência. A velhota prepara-se para testar essa preciosa relação, aproximando-se do balcão e pedindo um croissant com queijo. Desconfiada dos modos esfarrapados da senhora, a empregada da loja anuncia o decreto do costume: «tem de pagar primeiro».

Nenhuma regra é capaz de fazer desabar a sua força de vontade. Qual teria sido o destino desta mulher se há muitos anos alguém tivesse notado a sua notável capacidade de se desenrascar, a coragem e ousadia, a óbvia inteligência?

Fazendo-se de muito surpreendida, a velhota explicou: «Mas, menina, a gerente é que me disse que eu podia vir aqui e aviar-me de graça!». Se esta tivesse pegado, a velha poderia ter saído dali como a heroína das aldrabonas.

A menção de uma figura da autoridade deixa a pobre empregada ligeiramente confusa, mas depressa recupera a compostura: «Não pode ser, minha senhora, não se pode levar nada sem pagar». «Mas a outra disse-me que podia!», insiste a velha.

O outro empregado resolveu socorrer a colega. «Nós não podemos aviá-la sem pagar, a senhora tem de ir ali à caixa número 1, está a ver ali, vai lá e pergunta primeiro se pode.» Não sei se o homem utilizou o estratagema para despachar a velha ou usou a velha para pregar uma partida ao colega da caixa número um: era um mero aprendiz de feiticeiro, claro, e a velhota não arredou pé.

«Mas eu tenho dinheiro!», disse.
«Então pague!», respondeu o empregado.
«Não posso!»
«Não pode porquê?»
«Porque tá no banco!»
«Então vá levantá-lo!»
«Não posso. É sexta-feira, já fechou!».
«Não fechou nada, só fecha às três horas.»

A velhota queria um pouco de crédito, não sobre o hipotético dinheiro que tinha no banco, mas sobre a sua própria condição de ser humano. Perante o dinheiro, o valor e o poder do dinheiro que dilui os nossos sentimentos numa pasta de indiferença, não passamos de escravos. Amamos o dinheiro. Temos medo do dinheiro. Somos escravos apaixonados e medrosos.

Ela não quis ou não soube explicar a natureza do seu crédito, e ninguém estava com muita vontade de perceber. Um dos clientes mostrou-se interessado, mas logo se percebeu que a intenção era meter uma bucha na conversa, especialidade tipicamente portuguesa: «Para comprar alguma coisa é preciso dinheiro, minha senhora!»

Falou em voz alta, sorrindo à procura de aprovação para a sua extraordinária capacidade em debitar verdades universais.

A velhota ignorou-o com sensatez e voltou a pedir o croissant à empregada. Pareceu já sem energias, prestes a desistir. A jovem rapariga, perturbada com a situação, voltou a dizer que não podia ser, «não pode levar nada sem pagar».

A mulher afastou-se, finalmente vencida, vociferando as mesmas conclusões «Porca, cabra, maldita», saiu do supermercado no passo doloroso e miserável de sempre, e pôs-se lá fora a estender a mão às sombras apressadas que passavam.

28 comentários

  • 1
    Pedro Rocha
    com Google Chrome 6.0.472.62 Google Chrome 6.0.472.62 em GNU/Linux GNU/Linux
    18 de Outubro de 2010 - 17:36 | Link permamente

    É bom ver textos outra vez por aqui. E desta vez não li no reader ;)

  • 2
    pedro
    com Opera 10.63 Opera 10.63 em Windows 7 Windows 7
    18 de Outubro de 2010 - 23:49 | Link permamente

    Bom ver o teu regresso.
    Pena que seja por um motivo destes. Vivemos numa sociedade que promete e convida ao luxo, mas que, cinicamente, oferece à maioria a rejeição. Tenho pena da velhota. Fazem-nos olhar o supermercado como a origem e a concretização de todos os sonhos, quando, na verdade, mais não são que reflexos opacos dos pesadelos de que o mundo se esconde…

  • 3
    com Google Chrome 6.0.472.63 Google Chrome 6.0.472.63 em Windows Vista Windows Vista
    19 de Outubro de 2010 - 00:35 | Link permamente

    é cruel descreveres assim a gerente e não escarrapachares sem demora o nome e localização concreta do estabelecimento, pá. Onde é que está esse espírito masculino de partilha visual ca malta, hum?

  • 4
    Luísa Barreiros
    com Firefox 3.6.10 Firefox 3.6.10 em Windows XP Windows XP
    19 de Outubro de 2010 - 00:55 | Link permamente

    É a primeira vez que comento algo lido na blogosfera dirigindo-me a quem me suscitou a reflexão. Já há muito tempo que tenho por hábito “espreitar” o seu blog roubando às minhas noites rapidamente dormidas mais uns cinco ou dez minutos. Foi com tristeza que li a justificação da sua ausência e foi com imensa felicidade que pude ler novos posts e saber que, com certeza, tudo irá resumir-se a um desvio de rota e, muito em breve, entrará de novo no trilho da sua felicidade e dos seus.
    Hoje comento porque o que escreveu me motivou a isso, porque também já vejo a fome à minha volta há muito tempo, tempo demais… Já me envergonhei por ter tanto, por gastar tanto, desperdiçar tanto e ver outros, muitos outros, a necessitarem do que não me fazia falta. Ver a fome, do corpo, da alma, dos velhos, dos novos, dos que nunca tiveram e dos que já tiveram muito não me permite sentir a felicidade que gostaria que alimentasse o meu espírito.
    Até…

  • 5
    com Firefox 3.6.10 Firefox 3.6.10 em Windows 7 Windows 7
    19 de Outubro de 2010 - 09:08 | Link permamente

    o mais me choca com esta estória, Marco, é a indiferença das pessoas pá… quantas pessoas estariam também a observar a cena? Quantas dessas pessoas poderiam ter tido o altruísmo e a humanidade de puxar da carteira e dar uma pancada na fome dessa senhora? Em vez disso preferiram ficar a gozar o prato com a cena… a gozar com a visão do futuro que nos espera… e são as mesmas pessoas que lá para Dezembro, quando o Banco Alimentar fizer o seu habitual peditório lá supermercado, enchem um saco com 2 quilos de arroz e um pacote de bolacha e sentem-se em paz consigo mesmos, com o sentido de dever cumprido… é mais fácil matar a fome aos outros quando não os vemos a definhar lentamente à nossa frente… :(

  • 6
    José Grilo
    com Safari 5.0.2 Safari 5.0.2 em Windows XP Windows XP
    19 de Outubro de 2010 - 09:58 | Link permamente

    E o que lhe impediu, Marco, de ajudar esta velhota, de lhe comprar a dita costoleta ou umas 3 ou 4 costoletas? Pergunto-me eu se você não foi igual a todas as outras pessoas que descreve tão rispidamente.

    • 7
      com Firefox 3.6.10 Firefox 3.6.10 em Windows 7 Windows 7
      19 de Outubro de 2010 - 11:39 | Link permamente

      José Grilo, o que é o que o faz pensar que eu me considero estar num plano moralmente superior ao das outras pessoas?

  • 8
    RD
    com Firefox 3.6.10 Firefox 3.6.10 em Windows XP Windows XP
    19 de Outubro de 2010 - 10:12 | Link permamente

    Gil, concordo com o teu comentário a 100%, não era o valor de um croissant que faria certamente diferença a quem lá estaria e desculpa dizer Marco, apesar da crise afectar muito gente e particularmente a ti, a verdade é que tb assististe sem intervir…
    Criticaram a Gerente, mas ela não ter chamado a Policia, já demonstrou compreensão para com a senhora, mesmo depois de ser insultada…
    Recordo um caso de uma senhora que foi a tribunal por causa de 1€ que era o valor do que tinha furtado numa loja lidl.
    Quando é para comer não censuro o furto (diferente do roubo), já que o agente actua ao abrigo de um estado de necessidade desculpante, ou seja furta para sobreviver.
    Infelizmente no nossa País é mais fácil ser esse condenado, do que o Administrador que pratica os chamados crimes de colarinho branco no valor de milhões.
    Na minha opinião, num País a caminhar para o abismo, situações destas vão repetir-se mais vezes…
    Pessoalmente contribuo para o Banco alimentar e raramente gosto de dar dinheiro a quem quer que seja que venha pedir, no entanto tenho orgulho de já me virem pedir dinheiro para comida e em vez de dinheiro dizer à pessoa para pedir o que que queria, aconteceu-me 2 ou 3 vezes, por vezes paguei uma sandes e uma sopa, nunca ninguém abusou e a satisfação de ver alguém ter uma refeição decente alegrou-me pelo menos nesse dia.
    Já tive o reverso da medalha ao fazer o mesma coisa a um miúdo, que pediu dinheiro para comer e lhe ofereci para escolher uma sandes ou um bolo, e ter escolhido um bolo, que depois de eu virar as costas, mas atento ao que ele fazia ainda o ver deitar o mesmo no lixo…
    Desejo que nunca nenhum de nós necessite de fazer o que a senhora idosa teve de fazer.

  • 9
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows 7 x64 Edition Windows 7 x64 Edition
    19 de Outubro de 2010 - 10:24 | Link permamente

    :) Marco, não era mais fácil teres pago a costeleta à velhota?

    • 10
      com Firefox 3.6.10 Firefox 3.6.10 em Windows 7 Windows 7
      19 de Outubro de 2010 - 11:40 | Link permamente

      bluewater, não percebi essa do mais fácil.

  • 11
    com Opera 10.63 Opera 10.63 em Windows 7 Windows 7
    19 de Outubro de 2010 - 11:57 | Link permamente

    Que bom, estás de volta :)
    Anyway, leio o post, um ‘ganda post’, e penso na actualidade do mesmo. Seja ele ficcionado ou não, a verdade é que nós não nos importamos. A verdade é que vivemos para nós e por nós (e os nossos…). Quantos de vocês, os que dizem “… e o que te impediu a ti de pagar?” já passaram seguramente por situações idênticas e a única vontade era que a fila avançasse? Não critico ninguém, apenas constato que são mais as vozes que se levantam do que as acções que se evidenciam. Vejo isso invariavelmente, e com demasiada frequência, no meu trabalho… A consciência pesa-nos, o olhar de vergonha desvia-se, contudo na nossa impotência nada fazemos, porque muito pouco há a fazer…
    Retenho a ideia, incrivelmente explícita da sociedade actual: «Amamos o dinheiro. Temos medo do dinheiro. Somos escravos apaixonados e medrosos.» Frase digna de um tratado sociológico.

  • 12
    José Grilo
    com Safari 5.0.2 Safari 5.0.2 em Windows XP Windows XP
    19 de Outubro de 2010 - 13:03 | Link permamente

    Você, ao julgar essas pessoas pelas suas acções, colocou-se num plano moralmente superior a elas. No decorrer do seu discurso, não vi nenhuma vez uma menção crítica nem arrependimento da sua não-participação nos eventos decorridos, de modo a nivelar a crítica moral. Daí, esse post é carregado de superioridade moral pela passividade demonstrada e não reconhecida.
    O que eu quero dizer com isto é que você também foi um actor nos acontecimentos, e teria de se colocar no mesmo plano moral que todos os outros que criticou, para eu não pensar que você se considera estar num plano moralmente superior ao das outras pessoas.

    • 13
      com Firefox 3.6.10 Firefox 3.6.10 em Windows 7 Windows 7
      19 de Outubro de 2010 - 13:29 | Link permamente

      Sim, José Grilo, desse ponto de vista tem razão. Não há de facto nada no texto que o possa desmentir.

  • 14
    com Safari 5.0.2 Safari 5.0.2 em Mac OS X 10.5.8 Mac OS X 10.5.8
    19 de Outubro de 2010 - 13:50 | Link permamente

    Infelizmente a crise que os nossos politicos nos relegaram (e que vem aí ainda muito pior), fará com que mais pessoas assim desfilem perante nós. Eu sinto até que poderei ser um deles. Com os encargos e compromissos financeiros que tenho, numa sociedade que me empurra a ficar sem dinheiro, poderei estar a cumprir com as obrigações e conduzir-me a não ter mais dinheiro para enfrentar o mês… e ter pouco ou nada para comprar no supermercado. Digo isto porque é o cenário a que a maioria de todos nós portugueses nos vamos deparar num futuro muito próximo.

  • 15
    com Firefox 3.6.8 Firefox 3.6.8 em Windows Vista Windows Vista
    19 de Outubro de 2010 - 14:02 | Link permamente

    O que esta senhora demonstrou é alguma resiliência, imaginação e capacidade de adaptação às circunstancias. Ok, a parte de insultar as pessoas quando percebe que não vai conseguir aquilo que pretende não ajuda (apenas serve para fazer com que as pessoas se sintam melhor por não a ter ajudado), mas vamos perdoar-lhe isso, com certeza saiu daquele local e foi tentar melhor sorte para outro sitio, e em principio não terá ido para a cama de barriga vazia. Aqueles que têm mentes mais curiosas deverão agora estar a perguntar-se porque será que esta senhora mostrou tanto empenhado e imaginação na sua missão, todos nós sabemos que “Só pode matar a fome se pagar primeiro”, e com certeza ela também sabe? Porque tinha de ser, porque tinha fome. Esta necessidade é o que muitas vezes nos faz falta a nós (os outros) para agirmos, para seguir-mos os nossos sonhos, era bom, mas não tem de ser.

  • 16
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows 7 x64 Edition Windows 7 x64 Edition
    19 de Outubro de 2010 - 14:20 | Link permamente

    Marco, o «mais fácil» pode não ter sido bem escolhido ou explícito para o que eu queria dizer. Mas dito de outra forma, em causa está o facto de poder ter existido logo uma oferta para pagar a costeleta à velhota e toda a restante história morria por ali.
    Eu sei que já fui enganado muitas vezes. Uma vez, tomava o pequeno-almoço no Galeto, quando um tipo veio ter comigo “Eh pá, tu não te lembras de mim? Eu sou o Beltrano, do IST … blá, blá”. A verdade é que não estava a ver quem era o tipo mas, como eu tinha andado no IST, até o poderia ter conhecido “Olha, eu fui para Angola trabalhar, voltei agora … blá, blá e queria voltar para o Porto e não tenho 1500 escudos para o comboio e táxi … blá, blá”. Sim eu sei, grande tanga. Mas dei-lhe o dinheiro. Também as ciganas me pedem uma moeda junto à padaria da praça. Eu apenas pergunto “Querem um pão?”. E como dizem que sim, compro-lhes um pão. Também faço a mesma oferta ao drogado que arruma carros e que insiste em pedir moeda ou um cigarro “Não dou moedas, já deixei de fumar, mas se quiseres um pão, eu compro”.
    Nesta situação que relatas, se a velhota não tivesse insultado a gerente, eu teria ido junto dela perguntar-lhe se não se importava que eu lhe comprasse a costeleta. E até custa a acreditar que, mesmo na zona do café, ninguém se tivesse disponibilizado para perguntar se ela queria comer algo.
    A verdade é que cada vez estamos mais desconfiados de tudo e de todos. A velhota talvez tenha sido vista como ‘maluca’, alguém que já perdeu a noção da realidade e paar a qual não vale a pena ligar (afinal, existem muitos ‘bons exemplos’ no tratamento que muitos dão à 3ª idade, aos seus ascendentes). Depois é o marmanjo que, quando pede, é para a droga. Afinal, com um arcaboiço daqueles e anda a pedir? Etc. Etc.
    A verdade é que são cada vez mais os que, cheios de vergonha, pedem comida longe dos olhares, com medo de serem reconhecidos. E os restantes, cada vez, se recusam a dar uma pequena ajuda.

  • 17
    RD
    com Firefox 3.6.10 Firefox 3.6.10 em Windows XP Windows XP
    19 de Outubro de 2010 - 17:23 | Link permamente

    Como já tinha dito revejo-me no comentário do GIl e tb neste ultimo do bluewater68.
    De positivo no texto vejo a qualidade da escrita a que o Marco nos habituou e o a admiração encoberta com que o Marco observou o comportamento da idosa ao não desarmar perante o seu objectivo.
    O negativo já o tinha referido, na verdade lamento que a senhora não tenha conseguido sair do estabelecimento com um croissant para enganar a fome, mas quem sou eu para dar lições a alguém?

  • 18
    com Firefox 3.6.10 Firefox 3.6.10 em Windows XP Windows XP
    19 de Outubro de 2010 - 18:32 | Link permamente

    estou sem palavras. uau. muito bonito e uma grande lição. obrigado Marco.

  • 19
    com Firefox 3.6.10 Firefox 3.6.10 em Windows 7 Windows 7
    20 de Outubro de 2010 - 09:52 | Link permamente

    A verdade é que, cada vez com mais intensidade, vivemos uma crise de valores… é sempre mais fácil abstrair-mo-nos das situações e emitir opiniões. Quantas vezes já fizeram este exercício que o Marco narra no seu texto? Quantas vezes já se colocaram “à margem” e se limitaram a observar, como se um estivessem a ver um filme… a realidade assusta! Essa é que é a verdade! Somos seres sociais, sociodependentes, mas fechá-mo-nos em redomas estanques que nos imunizam da realidade exterior e passamos ao lado das coisas, das situações, sem dar por elas… reagimos apenas quando nos tocam, mas no sentido literal, no sentido físico, o coração aperta mas é sempre mais fácil virar a cara para o lado e seguir em frente…

    Por questões de proximidade, muitas vezes observo as pessoas quando o Banco Alimentar faz os seus peditórios habituais… o mais me toca é o facto de que, na grande maioria das vezes, as pessoas que mais contribuem são as que, à partida, pensamos que não vão contribuir com nada! São aquelas pessoas que olhamos para elas e nem sequer as abordamos para lhes passar para a mão o saco para a contribuição… e são essas pessoas que vêm ter connosco e nos pedem os sacos e são essas pessoas que mais enchem os sacos, e mostram vontade e prazer em ajudar… como se estivessem a matar a fome a si mesmos…

  • 20
    carlos
    com Firefox 3.6.10 Firefox 3.6.10 em Windows XP Windows XP
    20 de Outubro de 2010 - 15:50 | Link permamente

    excelente texto ….. fiquei sem palavras.

    permita-me que faça um copy paste para enviar para uns amigos (sem esquecer de mencionar a fonte, claro)

  • 22
    com Firefox 3.6.10 Firefox 3.6.10 em Windows Vista Windows Vista
    20 de Outubro de 2010 - 21:48 | Link permamente

    Num olhar muito rápido pelos comentários, a parte que eu mais curto é aqui quase a maioria dizer algo do género “xi pá, como é possível… as pessoas não têm sentimentos pá; as pessoas são indiferentes à velhota pá, eh pá como é possível…” e depois, no jogo jogado, lá no terreno, a maioria delas é de facto indiferente e segue com a sua vida. Mas aqui, sentados, teclando, não custa nada apontar o dedo à indiferença. Na hora da verdade é que já custa mais não é?

    Eu cá digo, a maioria das vezes sou indiferente. Se não o fosse (e já agora, só assim por acaso, até estou a pagar para trabalhar, mas its a long story q não interessa agora), já eu estaria liso de tanto dar aos outros. Dou aos outros, porventura de outras formas. Desta forma, lamento, mas não dá.

    Desculpem lá alguma prepotência da minha parte ou qualquer coisinha… Um abraço

  • 23
    Alberto N.
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows XP Windows XP
    21 de Outubro de 2010 - 23:05 | Link permamente

    Com menos conversa eu teria pago o croissant à mulher.

    • 24
      com Firefox 3.6.11 Firefox 3.6.11 em Windows 7 Windows 7
      22 de Outubro de 2010 - 08:30 | Link permamente

      Oiçam, eu PAGUEI o croissant à senhora. Fiz mais do que isso. Mas no texto isso não transparece porque não tem nada de transparecer. Transparece o que foi criticado anteriormente e eu já reconheci: a mesma passividade dos outros. Porque no texto ewu sou o narrador passivo, não um personagem, digamos assim. Nunca fez parte do meu feitio contar o que faço na minha vida privada e não ia começar aqui por quebrar esse principio só porque fiz uma boa acção. Não gosto de me armar em bom escuteiro, até porque não sou. Paguei-lhe o croissant não por compaixão cristã, mas por admirar a sua inteligência e sagacidade. A minha acção foi posterior ao que relatei, discreta e sem ninguém ver, não tem importância nenhuma nem faz parte do post, o que faz parte do post é aquilo que eu observei. Porra, está o assunto da minha suposta hipocrisia encerrado ou vão continuar com as lições de moral?

  • 25
    DUX XXI
    com Firefox 3.6.10 Firefox 3.6.10 em Windows 7 Windows 7
    21 de Outubro de 2010 - 23:17 | Link permamente

    E depois fazias este post?

  • 26
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows 7 x64 Edition Windows 7 x64 Edition
    22 de Outubro de 2010 - 10:47 | Link permamente

    Marco, não dou lições de moral a ninguém, nem era esse o objectivo do meu comentário, caso assim o tivesse sido entendido. Muito menos daria a ti por todo o respeito e admiração que tenho por ti. A verdade é que este tema não pode ficar apenas limitado à questão de se pagar ou não algo para a velhota comer ou à passividade de quem ia assistindo sem nada fazer. Este tema é mais abrangente e também se relacionará com a triste condição em que vive muita da nossa 3ª idade. Sozinhos e abandonados, a viver numa casa ou num Lar. Será que essa velhota é mais um exemplo de quem possa viver sozinho e abandonado? O facto de insistir em levar a comida sem querer pagar pode ser apnas visto como uma condição de miséria ou também como um estado de senilidade?

  • 27
    Alberto N.
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows XP Windows XP
    22 de Outubro de 2010 - 21:55 | Link permamente

    Não, DUX, depois não fazia este post, primeiro porque não iria badalar o que fiz, alíás como o Marco, e não faria o post porque sem dizer o que fiz iria originar esta suposta indiferença ao infortúnio da senhora como todos pensaram que se passou.

  • 28
    Anarca
    com Google Chrome 7.0.517.41 Google Chrome 7.0.517.41 em Windows 7 Windows 7
    29 de Outubro de 2010 - 18:18 | Link permamente

    “Só pode matar a fome se pagar primeiro”
    E não poderia ser de outra forma.