Por uma questão de continuidade conceptual do Planet Geek, ficou determinado que mensalmente todos os seus membros escreveriam sobre um assunto específico. O tema de estreia é Que Futuro para as Democracias? Segue-se a minha contribuição.

Never underestimate the dark power of the force...
O meu antigo professor da Escola Salesiana tinha um método infalível para nos fazer interessar pela matéria: cada erro que o aluno desse no teste era marcado à carolada.
Este professor não se distinguia pelos métodos de ensino da Língua Portuguesa, mas fez um excelente trabalho a ensinar-nos o significado da palavra Medo. Antes do 25 de Abril, o ensino do Medo era uma disciplina tão obrigatória como Moral e Religião.
Naquele seu exercício de justiça democrática ninguém era poupado. Aquele professor chegava-se às carteiras como um anjo papudo, pegava na folha de teste e começava a distribuir as notas: à primeira calinada que detectasse, punha imediatamente em acção a sua bigorna pedagógica. As mãos eram enormes, sempre suadas e gordurosas, provavelmente por passar as horas livres a mexer nas cuecas, julgando-as o avental da mulher que nunca teve. Só de me lembrar desse tipo me dá vontade de ouvir outra vez o The Wall dos Pink Floyd.
As caroladas tinham vários graus de intensidade, pois aqueles que eram maus alunos normalmente levavam com as marretadas mais implacáveis. Ainda hoje estou para saber se aquela era uma forma peculiar de querer meter-lhes a matéria toda na cabeça ou se era apenas uma manifestação de tristeza pelo facto de a sua colecção de bonequinhos de feira não atingir os objectivos pedagógicos.
Para os alunos bons a Português, os seus preferidos, os carolos eram mais condescendentes. Às vezes mais pareciam festinhas na cabeça dadas com o nó dos dedos do que propriamente castigos ou repreensões. Quanto aos outros «canalhas», não interessava se fossem excelentes a Matemática ou a Ciências – se não prestavam para a gramática, não prestavam para mais nada.
Hoje em dia são inúmeros os casos em que alunos batem nos professores e de professores arrasados e que vivem no medo – a prova de que não estamos a ter grande sucesso em transmitir às novas gerações as lições do passado. O futuro das Democracias depende então da forma como seremos capazes de fazer equilibrismo enquanto caminhamos na corda bamba.
Apesar de gostar de ficção científica, fazem-me impressão exercícios futuristas. O futuro do futuro, digamos assim, o futuro de qualquer coisa, é determinado pelo conjunto das nossas memórias, por mais pessoais que sejam: por exemplo, desejamos não repetir com os nossos filhos os erros dos nossos pais.
O futuro também é determinado pela memória daqueles que morreram ou sofreram em nome da Liberdade e da Democracia. Hoje em dia estas são apenas palavras para a maior parte das pessoas, mas mesmo aqueles que não se interessam pelas coisas do passado têm a noção de que estas duas palavras não podem viver uma sem a outra.
As pessoas do passado de que vos falo não morreram por motivos políticos – morreram por Amor. Morreram e sofreram para que o romance entre Democracia e Liberdade tivesse um final feliz ou, pelo menos, uma relação estável.
Para quem nasceu depois do 25 de Abril, Liberdade e Democracia são tão naturais como o ar que se respira. Mas tenham em conta um facto muito simples transmitido de geração em geração pelos valentes que levantaram as cabeças contra as grandes e pequenas tiranias da vida: nenhum ser humano pode viver sem respirar mas há sempre alguém que vos quer tapar a boca. Não o permitam porque é assim que as tiranias começam: ao princípio não vos querem impedir de respirar, apenas tapar-vos a boca; depois, se protestarem, sufocam-vos. E sempre para vosso bem.
Tudo isto são banalidades – por isso é que nos esquecemos.






























6 comentários
huffa que está serie de blog’s com este tema já me estava deixar deprimido, democracia é o que fazemos dela, em ultima análise somos nós que decidimos, por favor cuidemos da nossa democracia. Tudo o resto é bem pior….
Que depende quase sempre de restritos clubes de iluminados que sabem sempre o que é melhor para ti. E normalmente é não tentares ser iluminado como eles….
Estás a ficar um verdadeiro George Orwell.
Quanto á democracia… digamos que a própria democracia é relativa, opiniões. Hoje não me contento mais com a chamada “democracia” em que vivemos, mas não vale a pena alongar-me muito mais, até porque a minha opinião gera controvérsia.
ahhaha
A
Resta-me, mais uma vez, debruçar-me numa respeitosa vénia.
Mesmo que o conteúdo não fosse de excepção, a forma está sublime.
Tu eras com toda a certeza dos que nunca levavam caroladas (ou então fizeram-te bem à brava) e mesmo o sebento do prof iria esquecer o seu contorno no retrato e aplaudir esta prosa cinco estrelas do seu escorreito pupilo.
Gosto desta blogosfera. Palavra.
E muitos carolos ficaram por dar-lhe nessa cabeçinha tonta
Queixam-se muito do sistema, mas a verdade é que nessa altura havia respeito nas salas de aula e nem que fosse à base da porrada ele era obtido…Hoje em dia é uma vergonha, os putos fazem o que querem e os professores têm de aguentar-se à bronca.
Eu sou professor e sou apologista de uma educação “à antiga”
Já que os putos não recebem a educação em casa ao menos que nos seja dada autonomia suficiente para lhes incutir essa educação.
Você queixa-se do seu ex-professor mas a verdade talvez passe pelo Marco ter sido um puto indigente e mal-educado ao qual só fizeram bem umas caroladas para ver se endireitava as ideias.
A democracia está podre e cheira muito mal meus senhores e senhoras…É altura de deixarmos o antigo regime voltar para distribuir umas boas caroladas por todo o lado.
Manuel S., se é professor então devia aprender a ler. E ‘cabeçinha’, já agora, não leva cedilha.
Note que eu escrevi:
O que significa que os oprimidos do passado deviam ensinar as novas gerações a não se transformarem nos opressores do futuro.
Engana-se. Sempre fui um excelente aluno em Português. E sempre fui bem-educado mesmo em situações em que a minha vontade é mandar um professor à merda.
E, por favor, tenha calma. Não faça comentários sinistros como este
O que está podre e cheira mal é a sua mentalidade reaccionária.
Se alguma vez se der a lamentável coincidência de você ser professor dos meus filhos, estarei de olho em si. Pois é, a democracia é uma chatice, não é?
Concordo contigo, a liberdade está de tal forma banalizada, que as pessoas nem lhe dão o devido valor.
Gostei da ideia de vários blogs abordarem em único tema, permiti-nos obter uma série de pontos de vista.
Continua o bom trabalho, um abraço