→ 01/04/2008 @21:14

Homens egoístas

Quando as mulheres nos dizem «És mesmo egoísta», reagimos como se nos acabassem de espetar uma faca nas costas. Na maior parte dos casos nem sequer sabemos o que elas querem dizer: por mais que nos atirem à cara essa acusação, somos sempre apanhados de surpresa. Precisamos de exemplos concretos do nosso comportamento para perceber em que ocasião fomos egoístas, o que as enfurece ainda mais porque, afinal, já «deveríamos saber».

O problema do homem egoísta é não entender nada de egoísmo. É ensinado pela mamã a lavar as mãos antes das refeições, a pentear-se e a levar o casaco «porque está frio», a ser bem educado com os vizinhos e desconfiado com os estranhos, a não dizer palavrões à mesa ou levantar a tampa da sanita antes de fazer chichi, mas raramente ouve a mãe (e o pai muito menos) falar-lhe sobre egoísmo de uma forma menos pontual e mais profunda.

Pode dizer-lhe qualquer coisa como «não queiras ficar com os brinquedos todos do Joãozinho, olha que estás a ser egoísta», mas raramente se mostra ao filho egoísta como a mulher que nunca deixou de ser. Transforma-se em vítima desse egoísmo – uma peculiar mistura entre manha e comodismo – e abafa a semi-escravidão em que escolheu viver recorrendo à velha cantiga do instinto maternal mas que não é mais do que uma forma de machismo. A tarefa de «reeducar» um rapazola egoísta que entra na idade adulta é deixada então às presenças femininas que se seguem: namoradas, mulheres.

O homem egoísta também não pode ser visto apenas como um coitadinho vítima de uma educação machista. O mais inteligente percebe bem que a «culpa» também é atribuível à forma como menospreza questões de sensibilidade, classificando-as como coisas mais próprias das mulheres e dos paneleiros. O mais parvo usa essa mítica sensibilidade como arma e, se for preciso, verte umas lágrimas de crocodilo com o objectivo de mostrar como é tão sensível e ser desculpado pela «mamã».

Que patético. Mesmo que viva num mundo moderno e tenha consciência de que tudo isso é um disparate, e um disparate anacrónico, vê nessa ilusória sensibilidade feminina – alguns chamam-lhe virtude – apenas uma forma de transferir as suas responsabilidades para a companheira. Algumas mulheres poderão sentir-se «mais mulheres» por empunhar o ceptro dessa preciosa sensibilidade feminina, mas muitas vezes aceitam-no por vaidade.

A mulher também tem culpas no cartório quando diz que o homem «é egoísta por natureza». Este argumento serve sobretudo ao homem, pois assim sempre poderá dizer: «Se os homens são egoístas por natureza, então não há forma de mudar: afinal ninguém pode contrariar a sua própria natureza». As mulheres também usam este raciocínio como justificação para desculpar e não exigir mais.

Como em tantas coisas desta vida, tudo começa de facto na educação.

9 comentários

  • 1
    Susana
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    2 de Abril de 2008 - 00:11 | Link permamente

    Até te faço uma proposta indecente :wink:

  • 2
    com Minefield 3.0pre Minefield 3.0pre em Windows XP Windows XP
    2 de Abril de 2008 - 08:13 | Link permamente

    Sessões de strip-tease têm de ser marcadas com um mês de antecedência. Tenho uma agenda muito preenchida e sou mais solicitado que a Demi Moore.
    E digo já que se quiserem que eu tire as meias são mais 50 euros.

  • 3
    RaquelD
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    2 de Abril de 2008 - 12:33 | Link permamente

    Só uma pergunta de retórica… será egoísmo ou escapismo?!

    Sensíveis e reais saudações

  • 4
    com Firefox 2.0.0.13 Firefox 2.0.0.13 em Windows Vista Windows Vista
    2 de Abril de 2008 - 13:24 | Link permamente

    As Susanas são do melhor que pode haver hein??? E sim, sem meias é definitivamente mais caro. Bem mais caro…

  • 5
    Susana
    com Firefox 2.0.0.13 Firefox 2.0.0.13 em Windows XP Windows XP
    2 de Abril de 2008 - 13:37 | Link permamente

    Marco, a proposta nada tem a ver com strip-tease. Passa lá no tasco :P

  • 6
    com Internet Explorer 6.0 Internet Explorer 6.0 em Windows XP Windows XP
    3 de Abril de 2008 - 16:07 | Link permamente

    Só mesmo um discípulo do Dr. Phil poderia colocar os “paneleiros” na mesma categoria das mulheres. Porque antes de qualquer orientação sexual que eles possam ter, eles não são homens… nem são nada! Nem podem ser egoístas e egocêntricos como todos os outros. Não. São todos altruístas, sensíveis, emocionam-se com o “Música no Coração” e são fãs da Barbra Streisand e da Celine Dion. Eu sei disto porque (também) vejo o Oprah Show e também sei que esta apresentadora é um pouco mais caridosa perante as vítimas apáticas desta sociedade egoísta e machista e um pouco menos conservadora que o seu colega dr.“bigodaças”. Valha-nos deuses do estereotipo e da tradição que ainda é o que era.

  • 7
    com BonEcho 2.0.0.14pre BonEcho 2.0.0.14pre em Windows XP Windows XP
    3 de Abril de 2008 - 17:10 | Link permamente

    Estava apenas a tentar perceber por que razão os homens são tão frequentemente vistos como egoístas pelas mulheres. Muitas vezes se diz que é uma questão de natureza, eu acho que é uma questão de educação. Tentei explicar as minhas razões desmontando certos estereótipos machistas – aquele a que te referes é um deles. Nada de especial.
    De versões estereotipadas dos paneleiros está o mundo cheio. Tanto de versões maléficas destinadas a homofóbicos e nazis como de versões artificialmente polidas como as dos exemplos que apresentas. Mas digo-te já: Deus me livre de alguma vez na vida ter um desses vizinhos maricas que gostam de Celine Dion ou Barbra Streisand. Meus pobres ouvidos.
    Mas eu percebo onde queres chegar com essa história dos maricas sensíveis. Eu nunca vi o Dr. Phil nem a Oprah (mas tenho uma ideia de como aquilo funciona), mas vejo isso nos filmes mainstream americanos em que um paneleiro tem lugar de destaque na trama: para que o grande público o possa aceitar, ele tem de ser alguém perfeito, sensível, adorável, tão adorável que a malta até se dispõe a «perdoar»-lhe» o facto de gostar de pessoas do mesmo sexo porque, coitadinho, é mesmo um ser adorável só com um pequeno defeito de fabrico. E se tiver de haver um bicha irritante num filme, que funcione apenas como comic relief e não tenha qualquer consistência. A única vez em que vi personagens gay a serem tratados com seriedade foi na série Six Feet Under. Ali eram pessoas como quaisquer outras, com qualidades e defeitos. Acho que é assim que devem ser encarados. Como pessoas, não como ameaças. Não achas?

  • 8
    com Internet Explorer 6.0 Internet Explorer 6.0 em Windows XP Windows XP
    4 de Abril de 2008 - 10:45 | Link permamente

    Acho, apesar de também achar que esta gente só possa ser uma ameaça para quem não tenha certas defesas… Pois, diz-me lá Marco, se todos tivermos bem seguros da nossa sexualidade, para além do uso de t-shirts (de marca, realce-se) de cores que desobrigam o uso de colete retrorreflector em caso de acidente ou avaria do veículo e de possuir as discografias completas da Cher e da Celine Dion, um maricas pode ser uma ameaça em que sentido?
    No entanto falas em personagens de ficção e, deixa-me que te diga que, a nossa realidade é outra. A realidade é mais diversificada e por vezes até mais surpreendente. Até que ponto? A milhões de anos luz de distância do planeta bichanado (e muito colorido) habitado pelo Carlos Castro, Goucha, Lara Li, Paulo Portas & Ca. haverá vida gay? Não. Só para te dar um pequeno não-exemplo: os homens que se reúnem com outros homens para convívio e sexo “desportivo” em wc’s públicos, têm aliança de casamento, o que por si só não faz deles uns grandes rabetas, claro. Nem pensar. Pois, na verdade, um homem que vive, satisfeito, uma vida familiar heterossexual, mas que de vez em quando gosta de se divertir sexualmente com outros homens, não é paneleiro. Os outros é que são.

    PS – Por acaso, achava os personagens larilas do Six Feet Under os mais desinteressantes do lote. O pior é que agora um deles entra noutra série de que gosto e está a ser complicado vestir-lhe a pele de “straight serial killer” – isto também podia ser a nova alcunha do “Xéxé” Camarinha. Bom, também me ajudaria se o rapaz nascesse com outra vozinha e evitasse certos maneirismos.

  • 9
    com BonEcho 2.0.0.14pre BonEcho 2.0.0.14pre em Windows XP Windows XP
    4 de Abril de 2008 - 17:33 | Link permamente

    Pois, diz-me lá Marco, se todos tivermos bem seguros da nossa sexualidade, para além do uso de t-shirts (de marca, realce-se) de cores que desobrigam o uso de colete retrorreflector em caso de acidente ou avaria do veículo e de possuir as discografias completas da Cher e da Celine Dion, um maricas pode ser uma ameaça em que sentido?

    Acho que respondes à tua própria pergunta! Não deve ser encarado como ameaça.

    Quanto ao Dexter: é a única série que acompanho actualmente. Mas não concordo contigo em relação ao actor. O tipo é excelente e os maneirismos parecem-me prepositados. Já o vi a fazer de bófia num filme qualquer (não era um grande filme) e não tinha maneirismos nenhuns.
    Já viste que no fundo ele no Dexter está a fazer uma personagem muito parecida com a do Six Feet Under no sentido em que tanto uma como outra têm algo a esconder e precisam manter as aparências? Bem sei que no Six Feet Under ele acabou por se assumir, mas a base psicológica de uma personagem e de outra é parecida.
    Mas ao Dexter falta ainda qualquer coisa acontecer para o tornar realmente especial: um diálogo fabuloso, por exemplo, que eu espero que aconteça quando finalmente estiverem frente-a-frente os dois serial killers.