→ 22/11/2010 @11:21

O círculo completa-se

Darth Vader lendo Harry Potter

«The Circle Is Complete», parte de uma série chamada «Darth Vader in the Real Life», de Esteban Diacono

Nós tivemos o Luke Skywalker, eles têm o Harry Potter. Nós tivemos o Darth Vader, eles têm o Voldemort. No que me diz respeito, o círculo está agora mesmo completo.

Sexta levei os miúdos a jantar fora e ver o último do Harry Potter. Passámos umas horas divertidas. Tendo em conta que a mãe continua numa cama de hospital, o melhor que podíamos fazer era desanuviar. Eles saíram satisfeitos do cinema, é o que importa.

Depois de nos últimos anos ter visto todos os filmes do Harry Potter com o zelo paterno que os putos me exigem, percebo agora por que razão a autora dos livros criou aquele mundo de magia. Os fãs da série e dos livros devem saber que a J. K. Rowling foi casada com um português, viveu durante alguns anos no Porto até se divorciar e foi provavelmente numa esplanada da Ribeira que começou a escrever o primeiro livro.

Não sei se a J. K. Rowling já era mãe nessa altura, mas compreendo perfeitamente a sua necessidade de ter uma varinha mágica a funcionar. Eu tenho aqui uma igualzinha à do Harry Potter, comprada há muito, muito tempo, e não consigo dar-lhe uso.

Por exemplo, na lista de feitiços do Harry Potter publicada na Wikipédia existe um que me daria imenso jeito: silencio. Parece que o Dumbledore a usou para calar uma multidão de alunos barulhentos e eu não me importava nada de lançar esse feitiço contra a minha vizinha de baixo, que arranjou um novo namorado.

Um feitiço bem bom seria o Wingardium Leviosa, pois faz levitar pequenos objectos e coloca-os onde desejamos. Dava-me cá um jeitão para arrumar a casa! E sempre que eu deixasse cair um copo não seria necessário ficar de rabo para o ar a apanhar os cacos, bastaria apontar a varinha com um ar muito digno e dizer Reparo.

Claro que para isto funcionar só eu poderia ter a varinha. Imagino o meu filho a transformar os livros de estudo em ratos com um feitiço chamado Snnufliforssó para poder jogar mais um bocadinho de Kingdom Hearts, pai.

E a minha filha não negligenciaria usar o feitiço Travalíngua, só para me colar a língua no céu da boca sempre que eu a mandasse desligar o portátil e arrumar a guitarra porque amanhã há escola, tens de te levantar cedo.

De manhã, em vez de usar múltiplas tácticas diplomáticas dignas de um Obama remeloso só para os colocar fora da cama sem grandes discussões, bastaria lançar-lhes um Mobilicorpus para os fazer levitar e aterrar no sofá.

Não tive paciência para consultar mais feitiços na lista da Wikipédia, mas aposto que deve haver um feitiço qualquer para fazer o pequeno-almoço, preparar os lanches, ir ao supermercado, escolher roupas, lavar roupas, estender roupas, limpar o pó e fazer-me lembrar cerca de um milhão de pormenores por dia – o número de pormenores que uma mãe, em média, consegue memorizar. E o envelope-gritador que aparece num dos primeiros filmes também não seria de desprezar, em duas ou três ocasiões.

Chego à conclusão que este mundo mágico do Harry Potter é, em grande parte, um mundo de facilidades, fruto dos desvarios de uma dona de casa desesperada e com imensa imaginação. Claro que também existem os feitiços para andar à porrada e que o Harry Potter enfrenta problemas muito graves, mas no fundo a gente sabe que tudo acabará em bem, o Voldemort vai finalmente rebentar pelas costuras e, quando a história finalmente chegar ao fim, as varinhas só voltarão a ser utilizadas para trabalhos domésticos e outras miudezas do género.

J. K. Rowling tem toda a minha admiração por ter conseguido libertar-se de uma vida monótona e, de certa forma, transformar a caneta numa varinha mágica. No nosso mundo dos muggles, as varinhas mágicas da Rowling têm outro nome – cartões de crédito – e também só funcionam com alguns.

8 comentários

  • 1
    com Firefox 3.6.12 Firefox 3.6.12 em Windows 7 Windows 7
    22 de Novembro de 2010 - 11:32 | Link permamente

    And may the Force be with you…

    Convenhamos, um lightsaber tem muito mais pinta que uma varinha. Até nos vilões, um tipo todo vestido de preto com uma máscara e a voz do James Earl Jones é muito mais fascinante e cool do que um fulano sem nariz…

    Não obstante, tenho ido ver toda a saga HP ao cinema, e este não vai ser diferente (no próximo fim-de-semana).

  • 2
    com Safari 5.0.3 Safari 5.0.3 em Mac OS X 10.5.8 Mac OS X 10.5.8
    22 de Novembro de 2010 - 13:25 | Link permamente

    Tem de ser Marco Santos, enfrentar as agruras da via com um sorriso nos lábios. Como se nada fosse…
    Que a força esteja do teu (vosso) lado e que traga resultados (clínicos) reais.

    Já agora, gostei dessa analogia das varinhas mágicas serem como os cartões de créditos. É que depois um “Valdemor” vem perseguir com efeitos nefastos e só mesmo muita magia (no mundo real, a engenharia financeira) o podem derrotar a cada batalha.
    Muita força e saúde!

  • 3
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    22 de Novembro de 2010 - 22:56 | Link permamente

    Olá ,

    Tenho um pouco a mesma análise. Pouco importa que a autora tivesse ou não vivido com um Português. A obra queda sempre independente. E talvez por essa razão Pessoa tivesse criado os heterónimos.

    Isto dito, não deixa de ser curioso que, efectivamente, a autora tivesse denominado a opressão ou a negação da vida como qualquercoisasalazar.

    Entre Star Wars e Harry Potter existe continuidade aparente, quanto a mim.

    Para falar de cíclos são precisos milénios ! Lol !

    Em Star Wars a problemática da luta de classes não existe de modo explícito. Em H Potter sim !

    Tal como nos Pink Floyd ela existe explicitamente e não em David Bowie ( de forma difusa ).

    É ! É um conceito que está de volta por aqui após tanta greve !|

    Indo mais longe : A ficção ( quando será possível escrever sem dois c ? É o que o esforço não é natural, a prova é que cansa ) nunca cola ou chapa com a realidade.

    Indo mais longe : H Pootter desenha bem o debate que há entre criacionistas e cientistas.

    O Sangue puro não existe, da mesma maneira que sapiens-sapiens ( é assim ? não conheço a terminologia pt ) se cruzou com neerdental .

    Nuno

  • 4
    com Firefox 3.6.12 Firefox 3.6.12 em Mac OS X 10.5 Mac OS X 10.5
    22 de Novembro de 2010 - 22:58 | Link permamente

    Belo post. May The Force be with you. Mesmo.

  • 5
    Nuno Vale
    com Firefox 3.6.12 Firefox 3.6.12 em Windows XP Windows XP
    23 de Novembro de 2010 - 15:30 | Link permamente

    Sou um fã incondicional das duas sagas e, de facto, existem algumas semelhanças como também há as diferenças. Não sei em que bases a J.K Rowling se inspirou para escrever estes livros mas de facto é quase impossível qualquer autor não reflectir a sua escrita, por muito pouco que seja, na sociedade e na Era em que vive.

    Considero os filmes do Harry Potter como a parte flutuante de um iceberg em que o realizador tem de ser sucinto, espontâneo e directo devido às limitações de argumento e cénicas. Já os livros são a parte massiva e submersa desse iceberg onde tudo se apresenta mais aprofundado, intrigante, viciante, triste, divertido, trágico, enfim tudo escrito tim-tim por tim-tim.

    Espero um dia ler a saga do Star Wars pois os filmes são algo de intemporal e épico que marcou de facto o universo da ficção científica!

    Que a força esteja contigo nesses feitiços caseiros, Marco. :wink:

  • 6
    Eph
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    24 de Novembro de 2010 - 01:39 | Link permamente

    Acho muito simplicista essa tua visão. O livro era, a priori, para crianças e adolescentes, e nada melhor que magia para lhes fazer voar a imaginação. E se há magia, tem de haver uma simples magia que lave o raio da loiça, ou qual seria a credibilidade de uma magia que nem isso conseguisse fazer?

    Depois, não acho que a história seja um conto de fadas. Afinal, começa com um órfão que tem uma vida horrível porque os pais foram assassinados, e ele nem sabe. Embora tenha acabado relativamente bem (não quero spoilar quem ainda está à espera do próximo filme), esteve longe de ter um final perfeito. Para não falar de todas as pessoas que ele já teve mais próximas, incluindo quando finalmente descobriu o padrinho (isto não é spoiler, já está em filmes que sairam ha muito), e que acabou por perder, de novo.

    E va lá va lá, eu penso que se a série não tem tido um sucesso à escala mundial, e ela não tem tido uma responsabilidade quase pedagógica de manter o moço vivo, tinha lhe tratado da saúde da saga (ok, já calculavam isto, não? Se o moço morresse, a manifestação de hoje não era nada comparada à dos fãs xD)

    Já agora, no IMDB há muita gente a dizer para não levar as crianças a ver este novo filme. Que dizes?

  • 7
    com Namoroka 3.6.13pre Namoroka 3.6.13pre em Ubuntu 10.10 x64 Ubuntu 10.10 x64
    24 de Novembro de 2010 - 08:43 | Link permamente

    Eph, claro que é simplista. E redutora. O foco do post é a minha vida actual, o Harry é só um pretexto.

    Já agora, no IMDB há muita gente a dizer para não levar as crianças a ver este novo filme. Que dizes?

    Se são crianças, devem começar pelo primeiro. Se já os viram a todos, não vejo qual é a diferença de ver este. Se têm mais de dez anos, não vejo qualquer problema.
    Os filmes vão “escurecendo” à medida que a própria personagem vai crescendo. No meu caso acompanhou o crescimento dos meus filhos, por isso até tenho um especial carinho pelos filmes. Quanto aos livros, são chatos como o raio. Peço desculpa aos fãs.

    Ah, é verdade, a presença dessa foto do Darth Vader simboliza o encontro de coisas importantes no meu imaginário de puto com o imaginário dos meus filhos, não tem qualquer intenção de fazer comparações entre uma saga e outra.

  • 8
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows XP Windows XP
    11 de Dezembro de 2010 - 20:45 | Link permamente

    Eu tenho gravado o AVATAR e acredita que não arranjo tempo nem disposição para assisti-lo?
    Eu que dele cuzquei aquele olho lindo azul para capa do meu blogue…
    Aliás, desde que te addedei no blog peço-te retribution, yeah?
    Saúde para TODOS. :roll: :roll: