O desempregado que beneficia da beatífica generosidade do Estado tem uma solene obrigação: apresentar-se quinzenalmente na Junta de Freguesia da respectiva área de residência.
Tomei conhecimento desta obrigação quando me inscrevi no Centro de Desemprego. A simpática funcionária que me atendeu arregalou muito os olhos quando me avisou: «Olhe que podem tirar-lhe o subsídio se faltar!»
O meu silêncio de chaleira caiu-lhe mal; a senhora considerou que seria suficientemente estúpido para ter um ataque de rebeldia adolescente e faltar à chamada, pelo que me forneceu mais pormenores: «Tem de chegar lá e estar preparado para demonstrar que anda à procura de emprego, porque eles podem perguntar-lhe».
«E como se demonstra que andei à procura de emprego?» – Consegui perguntar.
«Inscreve-se no site do NetEmprego, faz uma busca, imprime os resultados e mostra-lhes o que procurou» – disse-o com tanta solenidade e comiseração que me fez lembrar discursos presidenciais sobre pobres e oprimidos. Desgraçados os que não têm impressora, pensei eu, pois não chegarão ao Reino das Novas Oportunidades.
«O problema disso, sabe» – comecei, finalmente – «é eu ser jornalista e, por lei, só me poderem sugerir um emprego na área em que me especializei. Eu já fui ao site, pesquisei e existem zero ofertas. O que faço?»
A senhora foi apanhada de surpresa e resolveu improvisar: «Mostre-lhes uma pesquisa qualquer noutra área. O que interessa é mostrar alguma coisa!»
Ao Estado só interessam os resultados, por isso não há problema em ser trafulha.
Encolhi os ombros e perguntei-lhe se podia sair dali sem pulseira electrónica. Sorri para suavizar a pergunta, afinal a senhora era solícita e simpática.
«Eu sei que é um bocadinho humilhante… - respondeu, compreensiva. «Por causa de uns, pagam todos!»
Frase feita na ocasião certa é suficiente para me derrotar. Agradeci a ajuda e o conselho, peguei no papelinho que deveria apresentar na Junta de Freguesia, e pirei-me dali. Só prestei atenção à data da apresentação e não li mais nada – um erro, como haveria de perceber alguns dias depois.
À saída do centro, reparei na tabuleta que devia dizer recepção, mas não dizia.
A tabuleta estava bem pregada à parede, mas alguém deixara cair o c de cedilha e a palavra que se lia era recepcão.
Aproveito o prego na ortografia para conjurar uma conspiração: devemos abanar o cu ao Estado e levar-lhe os chinelos à cama para que este nos dê a comida a que temos direito. Sei que poderá haver gente que se aproveita da situação para viver à sombra da bananeira e este sistema de apresentações se destina também a provocar desconforto no cidadão preguiçosamente desempregado. É como dizer: neste momento vives da caridade do Estado mas o Estado está de olho em ti, nunca te esqueças disto.
Compreendo a proficiência desta medida, mas o subsídio de desemprego que recebo também veio dos meus bolsos e dos impostos que paguei ao longo dos últimos vinte anos. Portanto vão-se foder que eu não apresento folhinha de pesquisa nenhuma. Para todos os efeitos, declararei que quero trabalhar e ver-me livre do vosso dinheiro o mais depressa possível.
A simpática senhora que me atendeu vive na pança do monstro estatal e sabe como ele pode ser voraz e impiedoso – daí o tom alarmista. Quando os problemas que a seguir passarei a relatar se resolveram, as apresentações resumiram-se ao acto de carimbar a presença no papel e marcar nova data para a cerimónia do olá, carimbo, adeus.
Só precisei de dizer Boa Tarde. Certa ocasião, já de saída, experimentei despedir-me com um «Boa tarde, bom trabalho» a ver se alguém me respondia «Igualmente!» Não responderam.
Bem, o Estado também pode ser monstruosamente estúpido, como descobri quando quinze dias depois me apresentei na Junta de Freguesia do Estoril e a senhora da recepção verificou que o meu papel dizia que eu deveria apresentar-me na Junta de Freguesia de Paço de Arcos.
«Mas isso é um absurdo», disse eu. «Então mandam-me para uma freguesia onde não tenho residência?»
A senhora encolheu os ombros e passou generosamente os olhos pelo papel. Parecia um banhista da Costa da Caparica lendo um folheto sobre aquecedores a óleo no pico do Verão. Sentou o estafado rabo na cadeira.
«Pois…», disse, resumindo a sua visão do problema.
«Mas eu neste momento estou em falta. Já não chego a tempo a Paço de Arcos. Não é possível pelo menos registar aí no computador que cumpri a minha obrigação e a minha falta se deveu a um erro burocrático?»
«Não, porque você não está no nosso sistema, está no de Paço de Arcos. E nós aqui só temos acesso ao nosso. Tem de ir ao Centro de Emprego outra vez e contar o que se passou.». E devolveu-me o papel, dando o assunto por devidamente sacudido.
No dia seguinte voltei ao Centro para nova sessão de espera e leitura. A maravilhosamente acolhedora veterana que me atendeu resolveu-me o problema em cinco minutos. Novo papelinho, nova data, local corrigido. Desta vez não fui burro e verifiquei tudo, palavrinha por palavrinha.
«Então quer dizer que não corro o risco de ficar com uma falta aí no registo?»
«Não!» – respondeu ela, toda jovial e sorridente, como se eu tivesse acabado de dizer um grande disparate. «Agora é como começar tudo outra vez: você nunca foi convocado para se apresentar em Paço de Arcos, portanto nunca faltou.»
Ando a viver o meu próprio episódio do Twilight Zone.






























16 comentários
Afinal os desempregados sempre têm que fazer…
Boas Marco.
Olha eu ja estive na tua situação 9 meses, mas felizmente consegui arranjar emprego em algo que me faz dizer que não trabalho, mas que faço aquilo que gosto.
Quanto á questão da pesquisa, convém mesmo que a faças. Serve para mais tarde, aquando proximo do termino do prazo do subsidio de desemprego, como prova em como estavas interessado em arranjares emprego (no meu tempo tinhamos também uma folha cedida pelo centro de emprego, com uns 10 campos em branco para serem carimbados com os carimbos das empresas, como comprovativos de presença, ás quais tinhamos de perguntar como que por misericordia se nao precisavam de um empregado). Sim porque se não arranjares emprego eles vão saber que ainda estas a chupar o tutano ao estado e eles não o querem. Não. Chamar-te-ão para verificar se estiveste em procura activa, como quem diz, estavas para teu proprio interesse á procura de um emprego e não a chupar o osso da perna, agora e cada vez mais, mais magra. É um conselho que te deixo. As medidas estão mais apertadas e pelo que tenho ouvido dizer eles cortam o subsidio a quem não apresenta essas mesmas pesquisas e esta literalmente á sombra da bananeira. Sei que é uma merda mas eles têm neste momento a faca e o queijo na mão.
Espero que sais desse buraco, sinceramente, mas nestes tempos e os que se avizinham não vão ser faceis.
Bota o botão prá cima Marco. O gajo do Wikipédia pedia em todas as páginas no header. Era impossível não ver e conseguiu juntar 12 milhões de Euros!
Se for por uma boa causa (não pelo desemprego mas pela qualidade daquilo que nos oferece) mete o botão sem timidez lá no topo da página que haverá o dia em que as pessoas se habituarão em pagar voluntariamente por aquilo que é bom e elas gostam.
Gastamos dinheiro com tanta porcaria, por que não pagar pelo que é bom?
Fiquei desempregado há pouco tempo. Em relação à palhaçada das apresentações quinzenais, a senhora da junta já me garantiu que não preciso de lhe mostrar nada lá, apenas o papelinho com a data de apresentação. Os comprovativos de procura activa de emprego só interessam se houver uma fiscalização, tal e qual as despesas que metemos no IRS. Além disso, da primeira vez que lá fui, a mesma senhora perguntou-me, a propósito de nada, se que queria que ela assinasse e carimbasse uma folha como prova que lá tinha estado a fazer procura de emprego. Ingenuamente perguntei se ali havia anúncios. Indicaram-me uma capa com ofertas de emprego mas garantiram que “não precisa de ver, a gente assina isso, dê cá”. E qualquer email ou carta para um possível empregador conta. Resumindo, tenho procurado, mas não é pela ameaça das apresentações.
Obrigado pela força, Edgard. Acho que sim, tens razão, estou a ser parvo.
Toma cuidado com esses posts, sujeitas-te a receber uma acção judicial do Centro de Emprego e das duas Juntas de Freguesia por escreveres textos a difamar os coitados dos funcionários públicos e os procedimentos que tanto trabalho deram a quem os “ideotizou”, hã? idealizou. E ainda que aquilo que afirmas seja mesmo verdade (poderá sempre aparecer alguém que não acredite), nota que a “carneirada” não pode fazer manifestações virtuais contra esses serviços, por falta de presença no Fakebook e no Tuiter, e com esse botãozinho ainda te acusam de seres um pedinte e por conseguinte um “parasita” da sociedade.
Faço votos para que te vejas livre dessa gripe o mais rápido possível.
Marco, sou da mesma opinião do Tomás… ainda corres o risco do teu post ser um caso enshitel nº 2 …. big brother is watching you… eles até podem alegar: mas se está desempregado, em vez de andar a surfar na internet, não devia procurar emprego ?
Hoje também fui ao Centro de Desemprego onde “ganhei” uma capa plástica com o pomposo título “Em Acção para o Emprego – Dossiê de Apoio”. Também me explicaram, com ar grave, as consequências de não me apresentar quinzenalmente na junta de freguesia. Curiosamente, também, não resido na dita freguesia, e até desconhecia a existência da própria freguesia. Do mal, o menos, sempre vou conhecer mais qualquer coisa.
Confesso que a injustificada vergonha que senti na entrada aumentou na saída. Não sabia onde esconder a maldita capa de riscas verdes.
Este post, e os conselhos dum “amigo”, vieram na hora.
Ao Marco desejo que continue com o Bom Trabalho.
Vítor Moreira
Como é que continuas desempregado, é algo que me transcende… Oh, malta dos jornais, televisões, rádios e portais verticais (cof, cof), abri os olhos e botai a vista neste senhor…
Já agora, explica lá: só podes ser contratado para jornalista? Se agora te desse uma fúria de, sei lá, virares serralheiro mecânico, não podias concorrer?
mister, as “meninas” da junta de freguesia são “pros” nas apresentações… basta levar o b.i. & já está. durante mais de 2 anos fui lá quinzenalmente, já quase que éramos amigos.
Não fazia ideia, Pedro. Ainda bem que isso já passou para ti.
Marco, foram 2 anos muy bem passados. tinha tempo para fazer aquilo que mais prazer me dava, sem o constrangimento de ter de aturar colegas de trabalho atrasados mentais. infelizmente… acabou-se.
Obrigado pelas dicas Marco. A partir do dia 18 vou começar este filme, e é sempre bom aprender com as experiências dos outros para não cometer os mesmos erros. Vou já comprar tinteiros para a impressora para poder imprimir os anúncios do IT Jobs e do Net Emprego
Podemos sempre criar o clube dos desempregados.
Não te apetece ir levar os chinelos à cama de um outro Estado?! Às vezes apetece-me muito! Força nisso!
“Cada cabeça, sua sentença” é que o que diz o povo, eu digo “Cada Junta de Freguesia sua mania” … estive desempregada ano e meio, apresentei-me quinzenalmente na junta de freguesia, nem por uma vez, uma única vez me pediram o BI, só assim para confirmar que eu era eu, e não era um prima afastada que ia lá apresentar-se enquanto eu tinha um emprego clandestino. As funcionárias eram umas queridas. Ahhh também nunca me chamaram ao Centro de Emprego para elaborar o meu plano de carreira, nem para saberem como ia a minha procura de emprego, durante um ano e meio recebi religiosamente o meu subsidio, quando terminou o meu prazo mandaram-me um postal, a informar que lamentavam imenso mas que não tinham tido nenhuma oferta para mim, se queria manter-me inscrita no centro de emprego, para isso bastava devolver o postal, caso contrário não daria noticias e iria à minha vidinha, como felizmente já tinha um emprego em vista tudo correu sem problemas.
Tendo em conta que o meu desemprego se deveu a um insolvência, fui acompanhando as aventuras de outras colegas. E houve de tudo, as que tinham de ir quase todas as semanas ao CE para discutir o seu plano de carreira, as que tinham de apresentar 15 comprovativos, outras 7, outras o que quisessem, houve quem recebesse notificações para entrevistas, umas tinham o dossier do desempregado outras não, outras tinham fotocopias do mesmo …. houve de tudo, a mim calhou-me na rifa a “viagem” mais suave. Nalguma coisa tinha de ter sorte.
Já que és um rapaz com algum jeito para a escrita e tal (ao contrário de mim que só percebo de matemática e física; na escrita sou um 0), tens aqui mesmo no blogue o teu melhor currículo (não desprezando o resto). Quantos blogueiros andam por aí e lançam livros de “best of do blogue”? Pode não ser grande carreira, mas o que interessa é sacar umas massas… sempre é melhor que nada (e se puseres muitos palavrões e umas mamas de vez em quando é sucesso garantido)
Abraço, boa tarde, bom trabalho e boa sorte.