→ 02/05/2005 @2:22

Make Love, Not War

Quando vejo um tipo fardado na televisão lembro-me dos meus vinte anos, desperdiçados num sombrio quartel na Ajuda, em Belém, Lisboa, vivendo os dias entre camaratas cinzentas, suor, espingardas e merda de cavalo.

Sim, ainda sou do tempo em que o serviço militar era obrigatório. Por isso, vocês, os putos da geração SMS, nem sabem a sorte que têm.

Estive nos operacionais da Polícia do Exército (PE) – cuja principal missão era fiscalizar soldados (os feijões verdes) que se atrevessem a andar na rua sem licença de saída, desfraldados, com a barba por fazer ou, de uma forma geral, pouco polidos.

Patrulhávamos estações de comboio (Santa Apolónia, principalmente) com as mãos atrás das costas, caminhando devagar, devagarinho, cheios de cagança, armados de bastão e pistola, calcando o asfalto com as botas, que eram pretas, reluzentes e de atacadores brancos, os rostos escondidos sob enormes e desconfortáveis capacetes cor de giz, sempre à cata de vítimas – normalmente pobres desgraçados que suportavam oito, dez, doze horas de viagem em comboios velhos e sobre-lotados para dar um beijo à família e voltar logo a seguir para novo castigo de comboio e tropa.

Eu detestava aquela merda.

Se o chefe de patrulha fosse um nazi estávamos bem fodidos: tínhamos de patrulhar as ruas e fazer de bófia da soldadesca. Mas quando o chefe da patrulha era um bacano, não queria lixar ninguém e se estava a cagar para aquela merda, as nossas missões fiscalizadoras começavam e acabavam na minha casa, a beber uns copos, fumar uns charros, ouvir música, ver filmes – porque eu vivo no Estoril, perto do quartel, e dava para fazer isso.

Essa coisa do haxixe tem muito que se lhe diga. Aquele quartel era um paraíso para quem alinhava nas ganzas. O fumo nunca era provocado pela pólvora, era só pelos charros. Espingardas? Foda-se! Só se nos obrigassem. Não vigorava a máxima Make Love, Not War porque aquela merda era só gajos. E isso é que nos lixava. Mulheres, ali, só mesmo algumas cozinheiras – e todas com mais de 100 quilos em cada perna. Mas, acreditem, depois de quinze dias seguidos a viver rodeado de gajos mais peludos do que eu, cada cozinheira era uma Marisa Cruz em potência. Depois de 360 horas em completa reclusão sexual, até as maçanetas das portas nos faziam lembrar as maminhas da namorada. Claro que nunca vi ninguém ajoelhado aos beijinhos e apalpões às maçanetas – mas, se tivesse visto, não teria achado assim tão estranho: se calhar olhava para o lado, embaraçado por perturbar um momento tão íntimo.

Estou a gozar, claro, mas ali a malta charrava ou enlouquecia. Pior: podia até ficar a gostar daquela merda.

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Um comentário

  • 1
    Paulo Barata
    com Firefox 2.0.0.4 Firefox 2.0.0.4 em Windows XP Windows XP
    2 de Julho de 2007 - 09:03 | Link permamente

    Epá Marco,

    dei por mero acaso, com este teu artigo e fiquei de boca aberta, então não é que aqui o GEEK, tambem esteve no RLL de Jan88 a Março89.

    Corri os esquadrões todos… da-se, comecei no 1ª e só parei quando Tenente Leal, resolveu criar o 3ª.

    Tal como tu, tambem não gostava muito daquela merda, mas um gajo era obrigado a fazer papel de mau, ainda por cima eu era comandante de patrulha, o que safava aquilo era os pasteis de belem ás tantas da madrugada e a incursões nocturnas no ponta pé na cona ali ao Bairro alto.

    Abraço,

    Paulo Barata

    “Morte ou Glória” – DA-SE!