Gamito
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Raios te partam, Gamito. Silêncio branco. Não consigo escrever este post. Experimentei várias fontes no processador, aumentei e diminui o tamanho dos caracteres, justifiquei o texto, alinhei-o à direita, à esquerda, fiz zoom na página, tirei o zoom na página, apaguei, recomecei, cheguei ao fim do parágrafo e continuo bastante lixado contigo.
Depois de tantas discussões no Gildot e nos blogues e nas mailing lists, conseguiste finalmente criar uma mensagem impossível de contradizer. Deixar-nos sem palavras.
Sabes tu muito bem como o suicídio é terrível; quem já escreveu sobre o maldito assunto da tua morte foge da palavra por respeito à tua memória, hesita, dá a notícia de forma velada, RIP, morreu, decidiu deixar-nos, até sempre, essas coisas. O que mais me lixa, meu grande palerma, é saber o quanto terias adorado espreitar todos estes posts que andam agora a escrever sobre ti.
Por mim peço-te desculpa pelas duas ou três vezes em que não respondi aos teus emails. Peço desculpa pelas vezes em que fingi interesse no que escrevias no Messenger quando na verdade estavas a aborrecer-me. E agradeço-te as ocasiões em que me ajudaste com o mesmo espírito generoso que te levou a criar o Startux para os novatos do Linux. Sempre tiveste imenso valor, eras um geek à moda antiga, sempre gostei de ti, por causa da força, da sabedoria e sobretudo da fragilidade, mas nem sempre tive pachorra. Desculpa, pá.
Agora já não posso esconder que te via como uma criança. Bem podias cruzar os braços como um porteiro de discoteca, mas sempre te senti como uma presença frágil e inconstante, dividida entre o orgulho desmesurado e a absoluta necessidade de atenção, a espingarda cheia de munições e o humilde cachimbo da paz, o ressentimento e o perdão, sem conseguir encontrar um ponto de equilíbrio entre tantos sinais contraditórios que te nasciam no peito.
É pena que tenhas compreendido demasiado tarde que a Internet só é boa para o orgulho; não faz grande coisa pela solidão. Lamento muito que não tenhas sabido encontrar uma resposta. Lamento que o fio que te unia à vida real tenha esticado a ponto de te fazer acreditar que iria quebrar-se. Ainda estou com um nó na garganta desde que recebi a notícia porque incomoda-me pensar que entraste em pânico ao imaginares-te completamente sozinho. Preferia que tivesse sido um acidente.
Acho que há pessoas que são colocadas neste mundo para nos fazer reconsiderar a forma como nos tratamos todos os dias – nem que seja pelos preciosos minutos em que a morte obriga a rever os nossos actos e a prestar justiça até aos que julgávamos inimigos. Quanto aos outros – os amigos e os que te queriam bem – nunca se sabe quando alguém poderá precisar de nós. Nunca se sabe quando um gesto insignificante de atenção pode fazer a diferença na manhã fria e solitária de um apeadeiro. Tu és uma dessas pessoas. Ficarás.
P.S. – A obrigatoriedade do registo para comentar fica por agora sem efeito. Todos os que desejarem poderão prestar livremente a sua homenagem ao Gamito. Aos que não gostavam dele a ponto de construir páginas para gozá-lo e maltratar-lhe o nome, peço que ajudem a dignificar este momento mantendo-se em silêncio. Por outras palavras: ponham-se na alheta, cretinos.
























@É pena que tenhas compreendido demasiado tarde que a Internet só é boa para o orgulho; não faz grande coisa pela solidão.
Marco, nesta frase disseste tudo.
Claro que não conhecia o Gamito pessoalmente, mas habituei-me a ver nele uma forte referência da nossa web.
Que dizer? Estas coisas surpreendem-nos sempre.
Esteja onde estiver, que fique em paz.
Nem mais.
Gamito – raios te partam!
@braço.
Pouco posso, consigo, dizer. Digo só que foi através do Gamito que conheci o Bitaites.
PS: Desde ontem, sempre que acedo ao Bitaites o antivírus reporta a presença de um potencial vírus, gosto de pensar que é só o Gamito a espreitar todos os posts que andam agora a escrever sobre ele.
Conhecia-o mais daqui do Bitaites (até tinha um marcador só para ele). Paz à sua alma.
Não posso dizer que era próximo do rapaz, mas seja como for, a morte na web sente-se na mesma. E ainda mais. Podemos não conhecer determinada pessoa, podemos nunca a ter visto, mas há algo sinistro no modo como os posts dessa pessoa ficam a flutuar no éter depois da sua morte. Não sei explicar. Como disse, se comentei um post dele já foi muito, mas a falta que ele já faz sinto-a na mesma. Ainda para mais sendo ele uma das personagens centrais do “universo bitaites”.
Soube do sucedido através de uma amiga comum. Pessoalmente não conhecia o Gamito. Seja como for não pude deixar de admirar a forma como o Marco Santos se exprimiu. Muito do que foi dito, sente-se pela força, intensidade das palavras.
Poucos sabem o que é estar rodeado de pessoas e viver só. Não sei o que poderá ter levado o Gamito a decidir-se por este desfecho mas não foi de certeza uma opção de ânimo leve! Outros já o fizeram e, lamentavelmente, outros o irão fazer.
Os meus sinceros pêsames a todos os que tiveram o privilégio de conviver com o Gamito, em particular à família.
Paz à sua alma!
Sou o pai do Mário e registei-me para poder vir aqui agradecer-lhe o seu post e deixar expressa a minha admiração pelo facto de o senhor ter ”visto” tão bem como era o meu filho.
Como pai, só me pergunto: que gesto me faltou?
É que o meu filho, com os seus defeitos, era de facto um bom coração.
As minhas condolências, Sr. Simão.
Caro Simão, nem sei o que lhe dizer. Não se martirize, de certeza que fez tudo o que estava ao seu alcance, mas nem sempre conseguimos adivinhar as coisas.
Que tudo corra pelo melhor na medida do possível e que o Gonçalo seja protegido disto tudo.
Um abraço
Os meus sinceros pêsames à família do Sr. Mário Gamito.
Acho que ficámos todos um pouco mais pobres….
Durante os últimos anos sempre me habituei a encontrar algo novo acompanhando o Sr.Mário, o Bitaites, o PlanetGeek e hoje sinto um vazio estranho.
Mesmo sem nunca o ter conhecido pessoalmente, ou sequer falado com ele, era uma pessoa que eu admirava muito.
Tenho pena de me ter registado no Bitaites por um motivo tão trágico.
Sr. Simão, em horas de desespero também os nossos pensamentos são de desespero. Acredito piamente que um Pai que educou um filho que tanta gente admira só pode ter sido um bom Pai.