Entre Deus, o amor e a crueldade
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Foto: AP/The Miami Herald/Carl Juste
Vejo fotos de cadáveres empilhados como velhos manequins de montra no pátio da morgue de Port-au-Prince. Pilhas de corpos carregados em tractores, homens, mulheres e crianças despejados em valas comuns, fazendo-me lembrar as velhas imagens do Holocausto nazi e as piores descrições do livro As Benevolentes, de Jonathan Littell. Vejo uma jovem mulher, Cindy Terasme, erguendo os braços ao céu como o sargento de Willem Dafoe em Platoon, depois de descobrir o cadáver do irmão mais novo nos escombros.
Tão fáceis de conseguir estas fotos, dada a dimensão do acontecimento, tão cruéis, porque expõem ao mundo a fragilidade dos vivos e dos pobres, o abandono dos mortos, mas tão humanas, perturbadoras, fascinantes e comoventes: a linguagem do sofrimento é universal.

Foto: AP/Gerarld Herbert
As fotos contém informação que nos ajuda a calcular a dimensão da catástrofe, mas também o espectáculo grotesco, repulsivo e fascinante da morte de tantos seres humanos. Talvez o fascínio mórbido das imagens não se deva à morte em si, mas à visão de corpos empilhados, ali deixados nas posições mais ridículas – nada mais importa e tudo perde significado: passado, presente, futuro, sonhos, ambições, ódios e amores, decoro, orgulho, vaidade, beleza ou sexo. A visão que centraliza na nossa existência individual o rumo do mundo é desfeita em poucos segundos pela força bruta de um fenómeno natural onde a Razão humana nada conta.
O fascínio a que chamamos mórbido talvez se deva ao facto de procurarmos determinar a natureza desse vazio, dar-lhe um nome. Um homem de fé poderá chamar-lhe partida, um não-crente abandono.
Eis o que me incomoda nas fotos dos mortos: a visão do abandono, o fim de todas as histórias, ver que esse abandono é o nada vestido com pele humana, verificar que nada subsiste daqueles corpos porque não passamos, do ponto de vista da Natureza, de meras presenças físicas sem qualquer significado especial.
Se é isso apenas que somos – um fenómeno físico – que evolução cruel é esta que coloca animais inteligentes a pensar em mundos onde as leis físicas não existem? De onde vêem estes pensamentos? De onde vem a consciência de nós próprios?


Fotos: AP/Gerarld Herbert
E depois vejo estas. Regresso ao mundo dos vivos, mas não me liberto por completo do mundo dos mortos que ocupa as ruas da cidade.
Redjeson Hausteen, dois anos, é salvo dos escombros por uma equipa mista de socorristas espanhóis e belgas; o pai caminha ansiosamente ao lado do socorrista espanhol como se receasse que o filho lhe fosse mais uma vez roubado; o socorrista, a suar de calor e cansaço, sorri de felicidade; ao colo de um bombeiro belga, a criança sorri pela primeira vez ao reencontrar-se com a mãe.
Estas pessoas podiam estar espalhadas no pátio da morgue, como milhares de pais, mães e filhos – e é ao pensar nisto que volto a pensar na natureza do abandono e se é justo que a nossa existência se reduza às leis da Física. Justiça – um conceito humano que a Natureza desconhece por completo. No entanto, haitianos rezam dia e noite ao Deus que acreditam tê-la criado, ao deus dos terramotos.
























Marco,
entre as muitas séries de fotos sobre esta tragédia, vi hoje uma foto de uma mulher americana que tinha sido salva dos escombros. À frente dela estariam uns 5 fotógrafos (fora os que não se viam) a caaptar o momento. Eu dizia que nestas tragédias, nem nos apercebemos a quantidade de repórteres por metro quadrado, mas são muitos, muitos mesmo. Todos tentam informar, mas isto é sempre fonte de inspriração para se captar a imagem ou escrever a história que mais tarde porssa ganhar muitos prémios. As vítimas são os principais modelos de um desfile onde não gostariam de estar.
Não sei onde tirei a foto, mas se tiveres curiosidade, espreita o meu perfil no FB que está lá publicada.
No New York Times via hoje esta sequência de fotos. No The Big Picture ainda pôem um aviso a dizer que a imagem escondida pode ser chocante. Naquela sequência, mortos e feridos são mostrados da mesma forma, sem aviso e sem respeito pelas vítimas. Parece-me que a sede de mostrar a tragédia ao mundo está a causar falta de controlo, confundindo-se aquilo que realmente interessa, com uma exposição desnecessária das vítimas. Repórteres e Editores parecem estar como as vítimas, em desespero, onde tudo vale.
Já chega.
Também já tinha visto essa foto dos fotógrafos. Vou incluí-la aqui.
:)) Era essa mesmo
Deus é como os hooligans, as merdas que faz, apenas e só prejudicam o seu clube.
Marco, os meus sinceros parabéns pelo post que elaboraste nestas linhas. Penso que será de referência quando toda a gente se esquecer do Haiti, daqui a uma semana. Aliás, pelo que estou a ver em sites como a BBC, ou até mesmo o sapo.pt, gradualmente, a notícia está a passar para 2º plano. Resta reflectirmos sobre o que irá acontecer com o Haiti, se, enquanto seres dignos duma sociedade evoluída, permitiremos que nos próximos seis meses ou 12 meses aquela anarquia se transforme basicamente em pó. Agradecia, pois, que nos próximos meses não te esquecesses do Haiti, as notícias sobre algum progresso, alguma esperança para aquele pobre povo pudessem ser retratados neste site. As tuas frases mereceram o meu sincero respeito e admiração.
Este post está em destaque na Homepage do SAPO, tab “Radar”.
Diz o Mestre Slip que “Deus é como os hooligans, as merdas que faz, apenas e só prejudicam o seu clube.”
Esse Deus de que fala, será o de 1 João 5:19? Só pode…
Não é com certeza o de 1 João 4:7-10.
Cenas aterrorizantes. Corpos jogados, pessoas brigando por comida e água. E como o texto já disse, nos faz perder os parâmetros sobre a significação do Ser. É um momento infeliz mas raro para nos olharmos diante do espelho e perceber quem somos realmente.
Mas alguém ainda acredita que há deus???
já estava a achar estranho, após este tempo todo, não haver postadas a culpar Deus pelo acontecido. Quando houve o terramoto em Portugal, não me lembro de visto posts a agredecer a Deus o facto de ninguém ter morrido.