A vida não é assim tão simples
Marcadores: Criminalidade, Portugal
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A mim faz impressão a alegria demonstrada por muitas pessoas a propósito do desfecho do assalto à dependência do BES: os reféns salvaram-se, mas um dos raptores morreu e o outro ficou ferido com gravidade. Também há quem louve o GOE (Grupo de Operações Especiais) por uma actuação tão eficaz e perfeita que lembrou os filmes de Hollywood, filmes em que os SWAT são apenas heróis e os ladrões apenas bandidos – como se Hollywood e a sua visão ultra-simplificada da realidade fossem um modelo a seguir.
Também me parece que os portugueses que comentam as notícias revelam ser grandes conhecedores em áreas sobre as quais nada conheciam há dois dias: agora todos se tornaram especialistas em tácticas policiais e psicologia criminal, revelando que em cada um de nós existe sempre um Moita Flores à espreita da oportunidade de se revelar: os defensores da actuação do GOE dizem que os polícias foram perfeitos, o segundo tiro do sniper foi de génio; a minoria que não gostou da intervenção policial garante que os raptores, mais tarde ou mais cedo, iriam entregar-se às autoridades. A sério? Uau. As coisas que nós sabemos e nunca suspeitámos.
Essas são questões que não me sinto qualificado para responder. Não sou capaz de dizer se a polícia agiu mal ou bem, eu não estava lá, não sei, ninguém sabe como decorreram as negociações, o que eles disseram e o que os negociadores responderam, ninguém de fora pode afirmar com certeza absoluta o que os raptores iriam fazer a seguir baseando-se apenas em imagens captadas de longe por um telemóvel.
A questão que me importa mais é a forma como vemos e reagimos a este tipo de história. Parece que se torna mais fácil ficarmos alegres por um desfecho sangrento, mas feliz, se nessa história estiverem estereótipos que possamos assimilar com facilidade. De um lado, dois criminosos raptores; no meio, encurralados, dois reféns inocentes; do outro, polícias no cumprimento do dever. Quem me dera ver as coisas de uma forma tão simples: estaria contente pela libertação dos reféns, orgulhoso pela actuação da polícia, indiferente à morte dos maus da fita – tal como num filme de Hollywood.
Na vida real, contudo, estamos sempre a falar de pessoas. O tipo que sobreviveu, por exemplo, tem 23 anos, chama-se Wellington Nazaré, é natural de Minas Gerais e estava em Portugal há vários meses a trabalhar na construção civil sem autorização de residência. Durante o assalto, Wellington entrou em contacto com o primo Rodrigo Nazaré pedindo-lhe para telefonar à mãe no Brasil e dizer-lhe que «estava a trabalhar muito e que se encontrava bem». Nesse telefonema, desesperado, confessou que preferia morrer a entregar-se: «Eu suicido, eu suicido». Sobre o outro que morreu, Nilson Sousa, pouco se sabe além do nome e do facto de ser também clandestino e morar perto de Wellington. (Fonte: Expresso)
Já sei que alguns vão acusar-me de estar a desculpar estes dois brasileiros. É óbvio que não estou. Tentaram roubar, fizeram ameaças, provocaram traumas, podiam de facto ter morto outras pessoas.
Bem sei que somos os únicos responsáveis pelas nossas escolhas e que há muitas pessoas com dificuldades na vida que não pensam em assaltar um banco e fazer reféns; mas não consigo condenar com tanta facilidade um ser humano partindo apenas da ideia de que o mundo está dividido entre crianças que querem ser astronautas e as outras que querem ser más quando forem crescidas.
























A única “pancada” em que concordo. Todo o resto é prosa da madre Teresa.
É lamentável, mas é assim que os media apresentam a realidade, educando a população de forma activa para não pensar criticamente. Chegamos a casa depois de um dia de alienação e é confortável termos alguém que nos diz quem são os maus e quem são os bons. Porque adormece a angústia sabermos que, afinal, está tudo no seu devido lugar.
Provavelmente arranjarão forma de ligar isto à “crise”, outro dos fantasmas preferidos dos media actualmente.
Adorei o último parágrafo.
Marco, não teria dito de melhor forma.
Excelente comentário.
A minha esposa é da mesma opinião.
Parabéns! Post digno de ser publicado num jornal de referência nacional!
Cumps
bem dito..o sr. Marco acabou de expressar tudo aquilo que eu sentia ao ler muitos comentários por essa net. fora..simplesmente faltavam-me as palavras e essa brilhante eloquência para o fazer..
Marco, antes de mais, permite-me que critique os teus marcadores para este post. Marcá-lo como “portugal” e “brasil” é simplista e um pouco demagogo. Provavelmente foi apenas falta de tempo para pensar nas tags, mas parecem-me facciosas.
Isto não foi um showdown entre portugueses e brasileiros.
Eu sou dos que acredita que a polícia agiu bem: fez precisamente aquilo que devia ter feito; aquele é o papel da polícia naquela situação.
Se se quer discutir alguma coisa, discuta-se a validade de existir polícia. Mas aceitando-se que existe… então a acção foi perfeitamente de acordo com a sua obrigação perante os cidadãos.
Não acredito que se um dos reféns fosse teu familiar ou um amigo que quisesses outro desfecho.
A atitude de honrar os criminosos e querer descobrir-lhes a humanidade também é muito hollywoodesca, desculpa lá.
Quanto a pessoas quase sem dinheiro e que trabalham arduamente 12, 14, 16 horas por dia para viver em barracas sem água corrente, já conheci algumas e nunca nenhuma delas sequer sonharia puxar de uma arma e ameaçar outro ser humano de morte para obter uns euros extra.
Não queres que exista uma linha, mas existe. Quando pegas numa arma de fogo, em que um tremelique no gatilho pode acabar com uma vida aleatória, passaste essa linha e, desculpa lá, mas ou largas a dita arma… ou mereces um tiro nos cornos.
PS: Eina, granda comentário.
Já cá faltava. Desculpa, mas este país está a se tornar num destino de turismo criminal! Vêm para cá assassinar, roubar, criar bandos armados nos guetos, porque sabem que aqui se pode fazer tudo inpunemente. Temos um sistema judicial de merda que não está preparado para lidar com o “mundo moderno”. Não havia forma melhor de resolver esta situação e, se havia, ainda bem que não aconteceu, que sirva de exemplo.
Wellington e Nilson não tinham pais ricos, nem ganharam a lotaria, portanto foram ao BES.
Bem, muita discussão!
Em primeiro lugar, as minhas desculpas ao pedrocs, mas o raio do Akismet anda em delírios persecutórios e ultimamente tem classificado o pessoal de spammers. Volta e meia lá tenho de resgatar comentários da lista de spam.
Bem, quanto aos marcadores és capaz de ter razão: Portugal, Criminalidade seria melhor. A ver se mudo. Foi falta de tempo, afinal continuo de férias.
Demagogo… Não. Basta leres alguns comentários no Público para perceberes que o facto de os assaltantes serem brasileiros também tem contado na apreciação/avaliação do caso. Não podemos ignorar isso, tal como também não podemos ignorar as insinuações de brasileiros que dizem que a polícia só agiu assim porque os assaltantes eram brasileiros, não portugueses. Ouviste essa? Eu ouvi. O meu erro foi ter colocado essas tags sem me referir no post aos comentários xenófobos que o caso gerou, tanto em brasileiros como portugueses.
Do ponto de vista de uma acção policial, esquecendo outras considerações, parece que sim, toda a gente diz que a acção foi excelente, quem sou eu para dizer o contrário? Não era objectivo do post julgar a acção policial ou pôr em causa a existência da polícia.
E se cá nevassse fazia-se cá ski. Esse argumento irrita-me um bocado, Pedro. Se os meus familiares fossem reféns, a diferença estaria no meu sofrimento em relação ao caso, que aumentaria de forma exponencial, mas não mudaria a minha forma de pensar como um todo.
Que queres dizer com querer outro desfecho? Querer outro desfecho todos queríamos, acho eu, por isso dizeres que eu quereria outro desfecho caso fossem familiares meus os reféns chega a ser um bocado ofensivo. Queria outro desfecho, ponto final.
Portanto não é desejar outro desfecho que está verdadeiramente em questão. Seria um bocadinho ingénuo pensar: «ai quem me dera que isto tivesse acabado de outra forma…» Ora que caralho, mas isso é óbvio.
O que sempre esteve em questão no post foi a forma de encarar este desfecho que acabámos por ter. Lembra-te, o que eu disse foi que me fazia impressão tanta alegria à volta da forma como o caso acabou. Alegria pela libertação dos reféns? Claro que não. Alegria porque demos um tiro nos cornos aos tipos para servir de exemplo? Demasiado «bully» para a minha mentalidade. A polícia brasileira é muito mais violenta e isso resolveu o problema da criminalidade no Brasil? Não. Uma polícia tão violenta como os criminosos que combate coloca-se no mesmo plano moral que os bandidos. Isso gera mais violência, não a evita. A acção da polícia reflecte os problemas que temos na sociedade, não pode ter a responsabilidade de os resolver. Eu pelo menos não quero viver num país onde se encare a acção policial como uma solução de fundo e não como aquilo que deve ser, ou seja, uma solução circunstancial. Estamos fartos de saber que não resulta.
Isto é muito diferente de dizer «coitadinhos dos criminosos, também são humanos, estes malandros dos polícias». Ao contrário do que diz o provocador-mor Fluvial100, estou muito longe de ser uma Madre Teresa de Calcutá e muito menos de oferecer a outra face a um gajo que me quiser dar uma bofetada.
Off-topic: mesmo o «oferecer a outra face» tem a sua própria sabedoria: um lobo oferece a garganta ao vencedor de uma luta para o inibir de matar. Ghandi enfrentou pacificamente os polícias e militares ingleses, o que também pode ser visto como uma forma de oferecer a outra face.
Pedro, porra. Honrar os criminosos? Onde é que eu disse isso? Humanizar seres humanos? Não te parece que, se existe um contra-senso, ele não parte de mim?
Merece? Talvez. Eu sinceramente não consigo chegar tão longe, nem vou por aí. É demasiado para mim.
Isto é um drama humano, não é um filme de polícias e ladrões. Não existe drama humano completo com pessoas incompletas. Foi apenas isso que eu quis dizer. Aqueles dois eram os cabrões que apontaram as armas e ameaçaram inocentes, mas também eram tudo o resto que nós não conhecemos, nem queremos conhecer. Não precisamos: mereciam um tiro nos cornos, está o assunto arrumado. Não vês como esse tipo de julgamento sumário é perigoso, sobretudo quando é feito por um gajo habituado a pensar?
Porra… a quem o dizes
Isto deu-me sede. O melhor é pedires mais um copo, pá, desta vez pagas tu.
Ainda bem que não aconteceu? Tens noção do que estás a dizer?