→ 06/03/2005 @2:32

The Suffering

Em primeiro lugar, quero avisar os meus amigos que este post é interdito a menores de 18 anos. Não contém cenas de nudez, mas utiliza expressões e palavras as quais, não sendo problema para mentes sãs, podem ser ofensivas aos guardiões da moral e dos bons costumes. Acima de tudo, não deve ser lido por sogras ou caniches.
Em segundo lugar, quero dizer que não ligo patavina aos jogos da PS2, à excepção do grandioso anti-fífia Pro Evolution Soccer. Experimentei o The Suffering por acidente. Não é uma review como fazem as revistas da especialidade (sei lá fazer isso!), mas apenas uma crónica das minhas impressões. Em terceiro lugar, se querem demonstrar à avozinha as maravilhas da PlayStation2, é melhor colocar o The Suffering de parte, não vá a adorável velhota ter um ataque. Peguem antes no jogo “À Procura de Nemo” ou qualquer coisa do género porque de certeza que vai achar graça ao peixinho com problemas de memória e ao tubarão com espírito de missionário.
A não ser, claro, que tenham uma sogra gigantesca a ocupar-vos o sofá, esse precioso e exclusivo apara-rabos onde a gente se senta para jogar. Aí a conversa é outra! Aí talvez queiram ver-se livre da chata o mais depressa possível. Nesse caso, saquem o The Suffering da prateleira, aumentem bem o som das colunas, mas mesmo bem, ao nível máximo, até chegar ao tecto e ultrapassá-lo e bater nos queixos do vizinho, depois metam “surround” naquilo e ponham mais cor e brilho no televisor. Se a sogra não se deixar impressionar, então (isto é muito, muito importante), façam de tradutor dos diálogos do filme, perdão, do jogo.
Mas façam as coisas como deve ser. Primeiro expliquem-lhe quem é o valente protagonista. Podem dizer-lhe qualquer coisa como isto: “Sabe, caríssima sogra, o herói da história chama-se Torque; foi condenado por assassínio e agora está na penitenciária à espera de ser executado. Tem um aspecto extraordinário, pois lembra uma mistura de Sylvester Stallone e Incrível Hulk: do Sylvester herdou a cor da pele, a inteligência e o poder do discurso; do Hulk ficou com os músculos, a força e o bom gosto na vestimenta”.
“Vá lá, cara sogra, não faça essa cara: lá porque ele é um homem violento, de poucas falas e capaz de assassinar a sangue- frio, espalhando sangue, tripas e miolos à sua volta, não quer dizer que não possa vir a ser um bom pai de família se encontrar a rapariga certa. Caramba, senhora, é preciso ter uma mente aberta para estas coisas! Afinal de contas, neste jogo há muita coisa para abrir: portas, janelas, estômagos, corações, cabeças…”
“Ainda não se foi embora? Bem, agora os presos começam todos a discutir uns com os outros nas celas, dizendo aqueles nomes que se costumam chamar aos árbitros, sabe como é; bem, pronto, finalmente o chinfrim dos prisioneiros é interrompido pelo terramoto”.
“O terramoto, ui, cara sogra! O terramoto é tão inexplicável como terrível: acaba por libertar umas bestas imundas semi-humanas sedentas de sangue, ui ui, que chacinam todos os prisioneiros – excepto, claro, o nosso Torque. Pois agora o homem vai ter de se defender, ui ui ui, e despedaçar todos os adversários que encontre”.
“A sério, é fácil. Quer experimentar? É tão giro. Se carregar no botão R1 enquanto vira o analógico do comando, e se o fizer no “timming” certo, consegue arrancar a cabeça do adversário e espalhar a mioleira dele toda pelo chão. Ui! Não é divertido? Que gráficos! Que efeitos sonoros! Tão realista!”
“Pronto, tudo bem. Já percebi. Não gosta de cenas de acção? Então podemos voltar atrás e observar os minutos iniciais onde eles conversam uns com os outros. Sempre é um momento mais intelectual. Pode ser? Se não percebe inglês, posso traduzir. Ora, motherfucker significa…”
Pronto. Esqueçam a sogra. Sempre podem experimentar meter o comando da PlayStation2 debaixo do rabo de um daqueles caniches irritantes que estão sempre a ladrar sem parar e pregar-lhe um susto dos diabos. Porque, meus estafados amigos, quando a cena do terramoto começa, o raio do comando começa a trepidar de uma maneira que quase salta das mãos. Façam a experiência: metam o comando no chão durante essa cena do terramoto e vão ver: o comando faz lembrar uma dentadura postiça aos pulinhos; com alguma sorte, são os dentes da vossa sogra. Ou do caniche.
Não acreditam? Pois eu nunca tinha ouvido tamanha trepideira e chiadeira, a não ser, talvez, há muitos anos, quando os meus vizinhos do andar de cima se punham a experimentar a resistência das molas do colchão. Eu imaginava que estavam aos pulinhos em cima da cama a brincar às almofadas, ou que estavam zangados por o colchão já não estar na garantia, mas pronto, que se há-de fazer, nessa altura também ainda não tinha jogado o The Suffering. Nessa altura nem sequer sabia o que era uma PlayStation! Que sabia eu da vida?
Sabem que mais? Vou confessar-vos uma coisa que vocês já repararam: fiquei passado da cabeça depois de experimentar este jogo. Portanto não estou aqui para vos informar. Estou aqui para vos aborrecer. Estou aqui para vos picar. Se forem medricas, vão comprar o DVD do Timon e Pumba que também dá para ver na PlayStation.
Pois bem. Estão zangados? Fartos deste lengalenga inconsequente? Parem de ler. Mudem de blogue. Pirem-se. São duas da manhã, estou a ouvir a música do jogo, que é mais arrepiante que a minha antiga professora de Francês, a sala está às escuras (excepto a luz do candeeiro, mas é tão fraca), já não sei se fechei a porta à chave e tenho a certeza que há facas na cozinha.
Será que vai existir uma versão online do jogo para nos podermos chacinar todos uns aos outros? Era tão giro…