→ 16/01/2007 @11:27

Sobre o referendo

Dia 11 de Fevereiro vocês poderão responder a uma simples pergunta: «Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?» Se responderem sim, significa que rejeitam a ideia de que a mulher deve ser punida como criminosa. Se responderem não, consideram que a mulher deve ser punida como criminosa. É uma pergunta bastante simples, embora muitos se esforcem por complicá-la e atribuir-lhe significados que não tem.

Um dos argumentos dos defensores do Não consiste em dizer que, ao aceitarmos o aborto nestas condições, estamos a matar não só futuros bebés, como eventuais futuros Beethovens (ou qualquer outro génio à escolha). A minha pasta de spam está cheia de argumentos deste tipo.
Quanto ao assassínio de um futuro Beethoven, nada posso dizer – ao contrário dos defensores do Não, eu não me acho capaz de prever o futuro.
Conheço pelo menos alguns episódios do passado: o martírio de um filósofo notável, Giordano Bruno, defensor das teorias de Copérnico, queimado vivo pela Santa Sé a 8 de Fevereiro de 1600 por considerar que a Terra girava à volta do Sol, por acreditar na pluralidade dos mundos habitados e, acima de tudo, por rejeitar a intocável autoridade dos que se consideram os únicos representantes da vontade divina no planeta Terra.
Quando foi executado, note-se, Giordano era um homem, não a junção de um gâmeta feminino (óvulo) e de um masculino (espermatozóide) que ocorre a partir das primeiras modificações do ovo fecundado – ou seja, não era um embrião.
Os defensores do Não, quase todos católicos devotos e tementes a Deus, desejam assustar-me com viagens ao futuro. Mas a mim o que verdadeiramente me assusta é o regresso ao passado criminoso da Igreja que os apoia.

Seja como for, o argumento Beethoven é tão vazio que pode ser revertido a favor do Sim com igual facilidade. Se a mãe de Hitler tivesse abortado, teria sido considerada criminosa pelos movimentos que apoiam o Não, embora suspeite que pelo menos seis milhões de Judeus pudessem discordar. Partindo da razoável presunção segundo a qual sem o lunático e carniceiro Hitler não teria existido uma Segunda Guerra Mundial, teríamos ainda mais de 50 milhões de pessoas agradecidas pelo milagre da vida proporcionado por um único aborto.

Os católicos sensatos que visitam este blogue que me desculpem, mas para mim a melhor maneira de discutir este assunto com seriedade e sem demagogia é socorrer-me da Ciência e da minha consciência livre e guardar as manifestações religiosas no interior das Igrejas – de onde, na minha opinião, nunca deveriam ter saído. Queremos realmente que o nosso pensamento seja dirigido por quem acha que nem a ameaça da SIDA é justificação suficiente para usar preservativo?

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