→ 08/09/2006 @1:10

Sobre blogues inteligentes

Quando encontro blogues de gente que acha que escreve bem fico logo perturbado. Moído de inveja. Porra, é que se nota mesmo que escrevem bem. Uma pessoa fica… Sei lá, nem sei explicar. Faltam-me as palavras.
Lá está: se fosse como eles nunca me faltariam as palavras. Se quisesse dizer qualquer coisa assim mais difícil e profunda ia ali aos livros e mandava vir umas palavras. E das caras, para manter o meu status quo intelectual. Quanto é? Tanto? Não faz mal. Pago o que for preciso! E quero palavras de marca, não é cá essas merdas brancas que os menos inteligentes e talentosos usam.
Que raio. Que diabo se passa comigo? Qualquer coisa me diz que na escrita as palavras são o menos importante. Que as palavras nunca são o problema. Chatice é quando se decide o que fazer do espaço entre uma palavra e outra. De que será feito esse espaço, alguém me explica? De silêncio? De expectativa? De tudo aquilo que não queremos contar e deitar cá para fora? Qual é o segredo, então? Deitar fora todas as palavras que lemos e procurar aquelas que se escondem nesse silêncio?
Se calhar escrever é como ir ao gregório: um gajo está na caminha, meio tonto, a tentar adormecer, a fazer os possíveis e os impossíveis para curar a bebedeira sem precisar de se levantar, a ver se escapa, devagarinho, sem se mexer muito… Mas o quarto põe-se à andar à roda como um carrossel e pronto, está tudo fodido: a única maneira de adormecer em paz é sujeitar-se a meter a cabeça na sanita e vomitar. Deitar tudo cá para fora, como manda a Natureza, mesmo que não seja um espectáculo muito agradável.
Mas esses sortudos que escrevem bem e não têm dúvidas nenhumas em relação ao que escrevem porque, lá está, escrevem maravilhosamente bem… Esses poetas e filósofos e politiqueiros dos círculos viciosos dos blogues bem pensantes, bem, esses são dignos de inveja. Escrever, para eles, é um cocktail. Um cocktail de palavras servidas numa bandeja de prata por simpáticos criados de luva branca. Tudo muito limpo e asséptico. Sobretudo quando se quer parecer sujo ou porco com o objectivo de provocar sensações ao leitor.
E uma pessoa fica a pensar: como é que esses gajos conseguem ser sempre tão politicamente incorrectos? Como é que esses blogues tão ilustres e bem frequentados conseguem escrever sem que se note o silêncio entre as palavras? Como conseguem eles escrever tão bem sem ter absolutamente nada para dizer?
Tu, poeta e escritor, és um desgraçado. Quando te decides a escrever é para andares na montanha-russa, não há cá limusina para ninguém. Tens medo mas vais. Dá-te a volta ao estômago mas vais. Provoca-te vertigens mas vais. Acelera-te o coração mas que se foda. És um caso perdido porque descobriste o teu grito no silêncio entre as palavras e agora não abdicas dele nem que seja preciso mandar o mundo à merda.
Esses gajos da blogosfera inteligente não são assim. São felizes com o que escrevem. Estão bem com o mundo, mesmo que pareçam muito zangados. Não precisam de melhorar os erros porque, lá está, desde que as palavras sejam ricas e as frases tecidas com mãozinha de aranha-costureira, já transmitiram a mensagem mais importante de todas: devem ser lidos porque escrevem mesmo, mesmo, muito bem.