→ 11/10/2006 @14:33

Pontos de vista [3]

Esta é a versão Release Candidate 2 do Windows Vista – o que significa que é a última antes da versão que irá ser produzida nos primeiros CDs, a chamada RTM (Release to Manufacturer). O tempo não corre a favor das grandes empresas de antivírus e penso que qualquer utilizador com dois dedos de testa deve ficar preocupado porque, uma vez mais, a Microsoft parece estar a limitar a liberdade de escolha de quem, como eu, utiliza o seu sistema operativo.
Instalaram o vosso Windows Vistoso? Experimentaram o vosso antivírus preferido e parece estar tudo a correr bem? Não se iludam. Qualquer software de segurança está drasticamente limitado na sua capacidade de prevenção: as portas do kernel do sistema operativo estão-lhe fechadas. E o código é fechado a sete chaves, lembrem-se…
As empresas de antivírus – Symantec, McAfee, Panda, para citar apenas as mais vendidas em Portugal – têm sido desde há muito parceiras privilegiadas da Microsoft. Os antivírus sempre dependeram desta colaboração e dos patches que aplicavam ao kernel do sistema operativo para aumentar a eficácia preventiva dos seus produtos – mas o Vista que, calcula-se, tem entre sessenta e cem milhões de linhas de código, impede agora qualquer acesso ao kernel.
Preocupação com a segurança dos utilizadores e a estabilidade do sistema operativo? Sim, claro! Ou melhor, se calhar não é tanto assim porque, ao mesmo tempo que barra o caminho aos ex-parceiros, a Microsoft está empenhada no lançamento da sua própria solução antivírus/firewall, o Windows Live OneCare. Portanto, o que se está a passar aqui é um chega para lá à concorrência que não se via desde os tempos em que a Microsoft chutou a Netscape para fora do Windows.
É verdade, posso parecer desconfiado mas tenho as minhas razões para isso. Não é a primeira vez que a Microsoft usa a posição dominante do Windows no mercado para afastar a concorrência. Pouco depois do lançamento do Internet Explorer, a Microsoft fez sair uma segunda versão do Windows 95 onde o browser já se encontrava completamente integrado na shell e impossível de desinstalar de forma transparente. Quando o Windows arrancava, arrancavam também partes significativas do core do IE, dando a ilusão (que perdura até hoje) que o browser da Microsoft era mais rápido a arrancar. O IE teve sempre as costas quentes e foi necessário o desenvolvimento de dois browsers de tal forma superiores – Opera e Firefox – para o IE perder um bocado de embalagem.
Que tem isto a ver com isto com o Vista? É simples: no ecrã de boas-vindas, visível, muito visível, encontra-se um ícone muito bonito com uma ligação para fazermos o download do Windows Live OneCare.
A história repete-se: enquanto a Microsoft nega aos concorrentes o acesso à informação, prepara-se para fazer boa figura com a sua própria solução de antivírus – esta, ao contrário das outras, tem acesso ao kernel e ao que for preciso para funcionar melhor. Percebem agora que não é gratuita a razão porque certas tácticas da Microsoft colidem com os meus princípios e que, mesmo sendo utilizador do Windows, não deixo de a criticar e não tenho nenhuma vontade de ficar calado e deixar-me ir com o rebanho?
Há um outro lado da questão: o das empresas de antivírus que se encontram agora à rasca porque estão a ver o seu modelo de negócio a ser prejudicado pela própria empresa que sempre o sustentou: sim, a Microsoft. A traidora Microsoft.
Há riscos de segurança para todos nós mas, ao mesmo tempo, não tenho pena nenhuma. Durante anos essas empresas foram cúmplices das mesmas estratégias de afastamento da concorrência que agora tanto criticam. Não me esqueço de ter feito um CD do Windows sem o Internet Explorer (usando a ferramenta nLite) e de todos os antivírus que experimentei – Panda, Symantec e McAfee – se terem recusado a instalar por não estar presente o browser da Microsoft! A única forma de os enganar era copiando para a pasta de sistema certos ficheiros .dll associados ao motor HTML do IE, mas não era um processo nada fácil para os menos aventureiros.
Consultem os requisitos mínimos desses programas e não encontrarão de certeza nenhuma referência ao Firefox ou ao Opera, mas apenas ao IE. A que propósito um antivírus e uma firewall precisam de um browser para funcionar?
Por isso digo: para eles também é bem feita. Em última análise, claro, quem se lixa é o mexilhão. Sim, tu e eu. Nós os que usamos Windows.