
Patrick Chappatte, Cartoons on World Affairs
Os escritos do novo Papa sobre Harry Potter não caíram do Céu (ainda que ele prefira pensar que sim).
Têm origem numa troca de correspondência entre o então Cardeal Ratzinger e Gabriele Kuby, autora do livro Harry Potter: bom ou mau?
Kuby – socióloga alemã – enviou-lhe um exemplar para apreciação e o futuro papa respondeu em termos elogiosos: É bom que (…) ilumine as pessoas a respeito de Harry Potter (…): são seduções subtis, que actuam sem serem notadas e, deste modo, distorcem profundamente o Cristianismo na alma, antes que possa crescer adequadamente. Mais tarde, autorizou a autora a publicar a sua opinião.
Sobre o livro de Harry Potter, Kuby escreveu, entre outras coisas, tratar-se de um plano global a longo prazo para mudar a cultura. Nas novas gerações as inibições contra a magia e o ocultismo estão a ser destruídas. Assim, força-se a voltar à sociedade que o Cristianismo superou. (…) um assalto às novas gerações, seduzindo-as totalmente para um mundo de bruxas e feiticeiros, enchendo a imaginação dos jovens com imagens de um mundo no qual o mal reina e do qual não há saída, sendo pelo contrário, apresentado como altamente desejável. (…) Aqueles que valorizam a pluralidade de opiniões deviam resistir ao poder quase esmagador desta enorme pressão, feita através dum gigantesca coligação e dum ataque multi-média, que apresenta elementos de uma lavagem ao cérebro totalitária. (…) Como por meio dos livros de Potter a fé num Deus de amor é sistematicamente desconsiderada e até destruída em muitos jovens através de falsos “valores” e de escárnio da verdade judaico-cristã, é inadmissível a introdução destes livros nas escolas. Os pais deviam recusar-se a autorizar os seus filhos a tomar parte na doutrinação em Potter, por motivos de fé e de consciência.
Noutro registo, embora a atitude seja idêntica, um grupo de católicos portugueses auto-intitulado Pensa Bem manifestou-se perplexo perante as corajosas declarações do padre Feytor Pinto ao Público. Na entrevista concedida ao jornal, ele admitiu que, em circunstâncias excepcionais – impedir a propagação da SIDA – se justificaria o uso de preservativo.
Herege! A defender assim a vida humana contra a nossa vontade? O grupo colocou na net uma carta de denúncia dos desvios do padre, convidando as pessoas a usar o correio electrónico para fazer queixinhas ao Vaticano. Talvez a blasfémia do padre Pensa Mal Feytor Pinto chegue aos ouvidos do Papa Pensa Bem Ratzinger e advenha, daí, um castigo divinal que agrade a todos os fundamentalistas cristãos – já que não pode ser a fogueira, talvez se satisfaçam em puxar-lhe as orelhas até ficarem vermelhas. Agora percebo porque é que Deus é tão silencioso: não está para dar conversa a esses chibos de merda.
Não há grande diferença entre os clamores contra Harry Potter e Feytor Pinto: de um lado, um personagem criado pela imaginação; do outro, um padre que não virou as costas à sua própria consciência; ambos têm em comum o facto de serem meros figurantes da velha batalha pelo pensamento humano que a Igreja trava há séculos.
O objectivo é a formação de uma sociedade de homens livres os quais, é preciso notar, só serão livres se pensarem exactamente como eles; porque, em caso contrário, correm o risco de ficar enjaulados numa espécie de prisão moral – longe da Salvação e, pior ainda, dos seus auto-proclamados porta-vozes. Os padres fundamentalistas consideram-se os guardas prisionais de Deus.
E agora, vejam lá, nem sequer podem contar contos de fada às criancinhas porque estas preferem o Harry Potter. Eu também, já agora: ao menos a autora admite que é ficção.





























