→ 10/01/2008 @23:33

Os Astronautas Psicopatas

5
Um veículo de duas rodas tão estranho e anacrónico que o pobre autor desta peça de fricção científica admite a sua impotência para o descrever em palavras. A estrada é velha e poeirenta. O Senhor Lula aproxima-se do veículo, põe-se de cócoras a examinar as rodas, encosta o ouvido ao chão como um batedor do velho Oeste, levanta-se, olha para o Céu, cheira o ar. Como tantas vezes acontece, está completamente alheio aos astronautas que conversam entre si, resignados.

COMANDANTE (mirando o veículo)
Mas que raio de coisa é esta?

SOUSA
Não faço ideia… Parece… Não. Não pode ser.

COMANDANTE
Parece-te o quê?

SOUSA
Serão assim tão atrasados?

COMANDANTE
Diz lá, porra! Parece o quê?

SOUSA
Tenho a palavra debaixo da língua… Caramba. Vi imagens na escola quando era miúdo. As pessoas costumavam deslocar-se nessas coisas há muitos séculos. Chamavam-lhes… (Estala os dedos). Carraças! É isso! É uma carraça, comandante.

COMANDANTE
Uma carraça, dizes tu?

SOUSA
Tenho a certeza. Não se lembra dos livros de História?

COMANDANTE
Por isso mesmo! Então as carraças não costumavam ser puxadas por cães?

SOUSA
Eram puxadas por animais de quatro patas mas se eram cães não me lembro.

COMANDANTE
Então onde é que estão os cães, porra!?

SOUSA
Se calhar os cães aqui são invisíveis…

COMANDANTE
Foda-se, abrenúncio! Deixa-te dessa história de estar sempre a ver seres invisíveis em todo o lado. O único fenómeno invisível neste maldito planeta é a tua inteligência!

SENHOR LULA (aborrecido)
Falem um ponto mais abaixo, se fizeres o favor. Eu não quero aqui alaridos grandes. Vá, vão acima daqui. Vejam nas nuvens. Lá devem cheirar aquelas ali ao fundo? Uma tempestade é vinda perto. Grande! Não querem ser apanhados aqui, os de vocês.

Os astronautas sobem ao estranho veículo, receosos da terrível tempestade. O veículo parte. Longo silêncio.

SOUSA
Já viu, meu comandante.

COMANDANTE
Que foi agora?

SOUSA
Este veículo não é puxado por animais e não tem qualquer fonte de energia. Aposto que não sabe porquê!

COMANDANTE
Se me dizes que o sistema de propulsão desta carraça é invisível, juro pelo que há de mais sagrado no Universo que te empurro para a estrada!

SOUSA
Estes tipos são uns sobre-dotados em telepatia. Nisso estamos de acordo, certo? Bem. Isso pressupõe que os seres deste planeta possuem uma mente poderosa. Talvez excessivamente poderosa, comandante. Olhe ali para o senhor Lula. Faz-me lembrar um conhecido meu que andou a fumar todo a cannabis que conseguiu plantar nos canais de Marte. Acho que este veículo é movido pela força da sua mente. E ele está tão seguro dos seus poderes que nem sequer acelera.

COMANDANTE
Hum…

SOUSA
Se fosse um fraco tentava impressionar-nos. Ali o Lula não. Está na maior. Parece que não é nada com ele. Só lhe falta assobiar. Eles são tecnologicamente atrasados porque chegaram a um estágio de evolução tal que nem sequer necessitam da tecnologia. Atingem os seus objectivos pela força da mente!

COMANDANTE (Impressionado com a análise)
Ora, Sousa! Disparate!

SOUSA
Então fazemos a experiência. Vá falar com ele.

COMANDANTE
Para quê?

SOUSA
Distraia-o. Tente desconcentrá-lo. Se a carraça começar a andar mais devagar, nem que seja um bocadinho, saberemos que a fonte de energia vem da cabeça dele e não é suficientemente forte; se a carraça não abrandar, ficaremos a saber que os indígenas são poderosos seres telepáticos.

COMANDANTE
Hum… Parece-me uma ideia ridícula. E digo-lhe o quê?

SOUSA
Improvise. Meta conversa. Fale do tempo.

COMANDANTE
As equações de campo de Einstein, o buraco de verme transitável no Espaço-Tempo… Está bem, já percebi.

SOUSA
Eu se fosse a si não entrava a matar e falava antes do clima. Assim como quem não quer a coisa.

O Comandante levanta-se do seu lugar.

COMANDANTE (Casualmente jovial)
Senhor Lula!

SENHOR LULA
Os de você chatear de quê agora?

COMANDANTE
Então! Essa tempestade, vai ou não vai? Parece mesmo má.

SENHOR LULA
É bem, pois com certeza má.

COMANDANTE
Costuma chover muito por aqui?

SENHOR LULA
Nem por aquilo. Mas quando chove, chove à carrancuda.

COMANDANTE
Sabe, senhor Lula, quando chegámos aqui conhecemos uma menina muito simpática. Mora naquela casa ali atrás. Acha que ela e a família estarão bem protegidas da tempestade?

SENHOR LULA
Os próprios dizeres de vocês é da minha filha da Lu?

COMANDANTE
Perdão…?

SENHOR LULA
Da minha filha da Lu!

COMANDANTE
A sua filha?

SENHOR LULA
A sua filha, é bem. Menina bonita da Lu. E esperto. Com idade tão pouca e já sabe para avaliar com exacta o correctamente mais estranho das situações. Era ela que me chamou e conta que os de vocês andaram para ir até em torno da casa. Eu não gosto da vida isolado e tenho a trabalhar perto é melhor. Fui logo rápido assim que corri.

COMANDANTE
Eu compreendo que a menina nos tenha achado estranhos, mas asseguro-lhe que fizemos o possível para que ela compreendesse a nossa origem…

SENHOR LULA
Logo, é bem? Mais repetitivos não.

COMANDANTE
Sim, com certeza, mas tem de compreender que um homem na minha posição

SENHOR LULA
Eu negativo para discutir este assento agora. Para-me e volta para lugar dos de vocês.

O Comandante é vencido pelo tom peremptório do alienígena.

COMANDANTE
Então, Sousa? A velocidade abrandou?

SOUSA
Mais ou menos. Como eu tinha previsto…

COMANDANTE
Caluda. Muito ou pouco?

SOUSA
Pouco. Mas o suficiente para se notar a diferença. Repare…

COMANDANTE
Estás a ver? Poderes mentais, mas postos à prova vão-se logo abaixo das canetas.

SOUSA
Estamos a voar, meu comandante.

COMANDANTE (Olhando para baixo, assustado)
E tu não me avisas, ó perspicácia invisível?

SOUSA
Eu tentei, mas o senhor…

COMANDANTE
Caluda. Agora já vens tarde demais. Deixa-me pensar. (Levanta-se e observa o horizonte) Olha. Estás a ver ali ao fundo? Aquela série de edifícios achatados? Uma cidade. Finalmente!

SOUSA
Espero que sim.

COMANDANTE
Agora já percebi! Vai tudo correr bem.

SOUSA
Eu ainda acho que devíamos ter voltado.

COMANDANTE
E desistíamos da missão antes de a iniciar?

SOUSA
Fazíamos uma pausa para avaliar as coisas.

COMANDANTE
Não sejas medricas. Eles são um bocadinho lerdos e não têm educação, mas isso depois resolve-se. Estou convencido que não devemos perder de vista os nossos objectivos só porque não conseguimos ultrapassar certas idiossincrasias. Os nativos vão aplaudir a nossa chegada e o meu discurso, o governador vai entregar-me o equivalente às chaves da cidade e pronto, primeira parte da missão cumprida!

O Comandante recosta-se no lugar, mais confiante, e passa pelas brasas. Ele fecha os olhos e a escuridão invade o palco. Ressona.

SOUSA (abanando-o sem cerimónias)
Meu comandante! Meu comandante!

COMANDANTE
Hum…? Relaxa, homem. Ainda falta.

SOUSA
Nem chegámos a aproximar-nos da cidade, comandante. Acabámos de pousar numa porcaria parece um armazém.

COMANDANTE
Parou para abastecer a carraça. Isso é o equivalente à GALP deles.

SOUSA
Comandante, acorde! O ET diz que temos de lhes entregar as armas.

COMANDANTE
As nossas…? (Levanta-se bruscamente). Inadmissível! Um ser civilizado sem possibilidades de defesa contra a barbárie? Ui. Porra. Tenho de me sentar.

SOUSA
Que foi?

COMANDANTE (Baixando a cabeça entre as pernas)
Quebra de tenção. Já passa. Onde está o gajo?

SOUSA
Aqui à espera.

COMANDANTE
Olha. Antes que me esqueça. Assim que pudermos fazemos um piquenique e comemos o chouriço que lhes trouxemos. Ingratos. Não levam nada.

SOUSA
Sim, meu comandante.

COMANDANTE
E temos de escrever uma carta de protesto pela forma como estamos a ser recebidos aqui. Tens aí qualquer coisa para carimbar?

SOUSA
Na mochila.

COMANDANTE
Carimba-se, faz-se um despacho e dá-se o documento. Esse tal Lula ainda está aí?

SOUSA
Está mesmo aqui ao pé de si, desculpe, comandante, não o avisei…

COMANDANTE
(Levanta a cabeça e apanha um susto ao ver que o rosto verde e nojento do ser-alface se encontra quase colado ao seu) Ai! No meu planeta os homens honrados não têm o hábito de respirar nas orelhas de indivíduos do mesmo sexo, ó senhor Lulu!

SENHOR LULA
Lulu é metade de mim a dobrar, Lula é ser de mim todo.

COMANDANTE
Sim, Lula, pronto!..

SENHOR LULA
Lula, é bem, assim estamos mais idênticos.

COMANDANTE
Digo-lhe já que entregar as nossas armas está fora de questão!

SENHOR LULA
Escavalheiros, nada de poucas delicadezas, sim? Aqui é toda a pessoa que é pacífica. Somos milhões de pacifícas por fora. Dentro de nós milhões de agressivos e vocês são um mais e um e soma pouco para conseguir matar nós no conjunto todo.

COMANDANTE
A nossa nave tem armamento pesado. Aviso-o, senhor, se a intenção é fazer-nos reféns…

SENHOR LULA
As armas é bem, podem entregar as de vocês aos meus braços de mim. Nada tenham a recear e o medo fica esfomeado. Criaturas extraordinárias os de vocês. Ilustros. Aceitam as minhas circunstâncias? Fazem-me o favor de entregar as armas nos meus braços de mim?

SOUSA (sussurrando)
Meu comandante. Se vamos ser conduzidos a um líder, é normal que existam procedimentos de segurança, o melhor é facilitar, não se preocupe, confie em mim, vamos entregar estas. (Pisca-lhe o olho, dando a entender que tem outra arma escondida) A gente assim conquista-lhes a confiança!

COMANDANTE (Para o alienígena)
O senhor tem de fazer um juramento de honra. Promete – pela saúde da sua alfacinha – que não usará essas armas contra nós? Que as manterá num sítio seguro? Que nos serão devolvidas mal esta visita termine?

SENHOR LULA (Divertido)
Entretanto e depois sítia segura bem, com certeza! Vai, os de vocês ilustres passa para aqui e com alguma razão.

Lenta e gravemente, Sousa entrega a arma ao comandante. Este saca da sua bisnaga e, muito sério, deposita-a nas patas viscosas do senhor Lula.

SENHOR LULA (Muito impressionado)
Que magníficas as de vocês! Acabamentos sólidos, nunca tinha visto! Dispendiosos amigos são calcificados oficialmente como surpresas para Lula e de um valor caro para ele que sou eu. Persigam-me, amigos!

Abre a porta do armazém e convida-os a entrar com gestos cerimoniosos.

SENHOR LULA
Entrem espaço interior caseiro! É um prazer ter os de vocês aqui na minha.

Vencidos pelo tom acolhedor do ser-alface, os dois astronautas resolvem entrar. O Senhor Lula fecha-lhes a porta à chave com um ar embevecido.

Páginas: 1 2 3 4 5 6

2 comentários

  • 1
    anaeugenio
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    11 de Janeiro de 2008 - 01:36 | Link permamente

    ó meu deus. brrr. será que a alface é carnívora?
    minha é querida, o jantar está chegado!

  • 2
    com Opera 9.25 Opera 9.25 em Windows XP Windows XP
    13 de Janeiro de 2008 - 11:58 | Link permamente

    Então Marco, como é que acaba?
    Estou aqui quase aos pulinhos!! :mrgreen: