→ 07/11/2006 @23:51

O primeiro blogger

O ano em que surgiu o primeiro blogue do mundo foi repleto de grandes acontecimentos na área da Informática.
A Commodore – empresa responsável pelo computador mais vendido da História – acabara de abrir um processo de falência. O Commodore 64 (assim baptizado por causa de uns desopilantes 64K da memória RAM com que vinha equipado), vendera, desde 1983, ano de lançamento, entre 17 e 22 milhões de unidades – nem isso fora suficiente para evitar a bancarrota.
No mesmo ano a IBM lançou o sistema operativo sucessor do OS/2, o OS/2 Warp – condenado ao fracasso, já se sabe, pois a Microsoft começava já a dominar o mercado com o Windows 3.11, saído também em 1994. Versões betas do Windows 95 (Nome de código: Chicago) também já circulavam, embora de forma restrita.
O motor de busca Yahoo foi fundado apenas em Abril. O Google ainda não existia. Tim Bernes-Lee fundou o World Wide Web Consortium. E foi também por essa altura que uma empresa telefónica da Noruega – a Telenor – iniciou um projecto de investigação que dará origem ao browser que hoje todos conhecemos: o Opera.
Foi nesta época distante e cheia de maravilhas arqueológicas – a Intel só lançou a sua grande bomba em 1995, um fantástico Pentium com uma velocidade de relógio de 200MHz – que um jovem estudante de 19 anos inaugurou um site que rapidamente se transformou no modelo que muitos outros iriam depois adoptar: um diário online. O site chamava-se Justin’s Link from the Underground.
Justin entrou a matar e não abriu apenas um blogue, mas a sua própria vida: falava das bebedeiras que apanhava, das doenças sexualmente transmissíveis que contraiu, das viagens, amizades, as aulas na faculdade, namoros, do suicídio do pai e até publicava algumas fotos em que aparecia em actividades tão íntimas como urinar na casa de banho. Alguns adoptaram o mesmo modelo intimista, embora sem entrar em tantos excessos. Nos anos que se seguiram, muitos estavam a iniciar diários online.
Durante os 11 anos que se seguiram Justin manteve o blogue nos mesmo moldes – até que, em meados de Janeiro de 2005, ele faz um vídeo – Dark Night – e lançou-o na Internet. Depois substituiu a sua página de entrada por uma imagem de um coração cravado de pontos de interrogação, deixando apenas um campo de busca para os visitantes pesquisarem os arquivos. O seu blogue actual nada tem a ver com o que fez no passado.
O vídeo é uma espécie de Projecto Blair Witch para doidos varridos – dizem alguns. O testemunho de um blogger à beira de um ataque de nervos – dizem outros. «A Web faz com que não me sinta sozinho, é a minha ligação constante a algo que é maior do que eu… Mas e se aquilo que tu fazes e praticas como se fosse uma religião, afasta as pessoas de ti?», pergunta o destroçado Justin. Vídeo no YouTube
Justin começou a fazer blogues ainda antes do termo existir, mas quem o criou foi outra pessoa. Em Dezembro de 1997, John Barger, também americano, criou um site chamado Wisdom Weblog e definiu a sua actividade nestes termos: «Um weblog é uma página web onde um weblogger linka outras páginas web que considera interessantes».
Em 1999, um programador da Web chamado Peter Merhol anunciou que passaria a chamar wee-blog a todos os blogues. Com o passar do tempo, passou a usar-se apenas blog e, a quem os fazia, bloggers.
Pode parecer estranho que alguém tome a iniciativa de baptizar uma actividade e seja bem sucedido, mas a verdade é que os blogues ainda eram muito escassos. Em 1998, Jesse James Garrett, do blogue Infosift, fez uma primeira recolha na net. Resultado: encontrou 23. Hoje o número de blogues que a Technorati segue ultrapassa os 57 milhões – o que não é o mesmo que dizer que o número total de blogues é esse, como noticiava a Exame Informática.