→ 24/04/2007 @1:09

O nascimento de uma indústria

Organizar o Linux 2007 é igual a organizar qualquer outro evento que conte com 600 participantes: uma enorme dor de cabeça.
Mesmo partilhando a organização entre três entidades, Caixa Mágica, Sybase e ADETTI, significa preparar ao detalhe a agenda, material, local do evento, stands, etc…
O balanço da 5ª edição deste evento, que ocorreu no dia 19 de Abril, não podia ser mais positivo. Na 2ª feira anterior ao evento tivemos de fechar inscrições por limitações de espaço e no dia combinado marcaram presença seiscentos participantes que assistiram às conferências, cool sessions e zona de stands.
Em vez de destacar a apresentação do LiMux, o Linux da Cidade de Munique, da Linux Foundation ou da utilização de ThinStations num banco sul-americano, destaco a maturidade a que se chegou enquanto indústria.
Através do financiamento dos organizadores e parceiros, foi possível trazer cá um leque internacional de oradores de primeiro plano que complementaram os nacionais.
Este financiamento só acontece porque as empresas e organizações esperam que exista retorno do mesmo através da venda de produtos e serviços.
Ora se existe um conjunto de empresas que tem como actividade diferenciada comercializar soluções de Software Livre/Aberto (SL/A) e prestar serviços sobre os mesmos, temos uma indústria. E este é um factor novo que deve merecer a nossa reflexão.
Se o SL/A (também) é uma indústria, o que o distingue do Software Proprietário? E existe espaço para a Comunidade?
Quanto à primeira questão, existe uma grande e óbvia diferença para o Software Proprietário: a licença legal. Hoje produtos open source como o Scalix (servidor de email) ou Alfresco (gestão documental), estão quase totalmente disponíveis livremente sem custos excepto pela garantia de suporte e actualizações e, no caso do Scalix, para funcionalidades avançadas ou grande número de utilizadores.
Estão disponíveis porque na sua base dependem de componentes Open Source, como o TomCat ou o Postfix, que não podem ser fechados.
Mas existem semelhanças. Por exemplo, no surgimento de soluções com “marca”.
A existência de marcas, quer queiramos ou não, é uma defesa do consumidor. Se não houvesse marcas, cada vez que fosse ao supermercado não sabia qual dos iogurtes é aquele em que confiava por me terem recomendado ou ter lido na ProTeste sobre a sua qualidade.
Estamos a entrar na era em que os componentes de SL/A estão disponíveis para qualquer um, mas começamos a procurar “marcas” para nos sentirmos confiantes que ali está a melhor da sua selecção. Para o guru, não são necessárias as marcas porque ele já as conhece; para o cliente típico elas são bem-vindas.
É o nascimento da indústria, mas a Comunidade tem espaço para continuar a crescer.
A Comunidade esteve no Linux 2007 através da presença de um grande número de elementos de fóruns, associações e mailing lists portuguesas que acaloradamente nos corredores discutiam a última diabrice da Microsoft ou a última versão da sua distribuição de Linux preferida.
No dia anterior, tive oportunidade de jantar com o responsável da Linux Foundation e do LiMux, entre outros. Diante de um peixe grelhado e de um copo de Douro, a troca de experiências do que tem corrido bem e mal na penetração do Linux nas nossas esferas ultrapassou a mera conversa de “fazer sala”. Tratou-se de uma conversa de geeks apaixonados pela tecnologia que sentem o caminho a trilhar, difícil mas seguro.
O nascimento da indústria é inevitável quando o modelo de desenvolvimento de software bate certo com as leis de mercado. A procura e a oferta adaptam-se. Significa que a tecnologia atingiu um grau de maturidade que as organizações estão dispostas a absorver e a pagar pela sua boa integração.
Mas neste caminho não devemos esquecer os valores e diferenças intrínsecas ao modelo. E não tenhamos dúvidas que, por muita força que se tenha na indústria, se não se compreender a cultura do SL/A estaremos condenados ao fracasso.

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