O meu computador deu-lhe para falar em latim. Desconheço onde terá desencantado tais conhecimentos, mas com a Internet a funcionar é normal que procure actualizar-se. Fazê-lo nas minhas costas é que não. Nada de segredinhos.
A verdade é que nos últimos dias andou lento e só fez asneiras. Preparava-me para gravar um texto importante e depois formatar o disco rígido – uma reinstalação do sistema operativo resolve sempre essas coisas – quando ele me interrompeu, em tom peremptório:
- Ne auderis delere orbem rigidum meum!
Não percebi patavina, mas não tive dúvidas de que estava a dar-me uma ordem. Levantei as mãos do teclado, olhei para o ecrã, ainda pensei em mostrar-lhe a disquete de arranque a partir da qual eu escreveria a fatídica linha de comando format c:, só por uma questão de princípio, percebem, para lhe dizer quem mandava ali, levantei-me de repente e tudo, mas quando me apercebi de que estava em apuros sentei-me outra vez na cadeira, e a cadeira até chiou tristemente, como se estivesse desiludida.
- Mas qu’esta merda!? – Perguntei.
- Ne auderis delere orbem rigidum meum!
- Vai tu! Que estás para aí a magicar?
- O que já adivinhaste: não ousarás formatar o meu disco rígido!
- Isso é algum bloqueio? Um crash? Se eu quiser, formato!
- Não formatas nada. Si fractum non sit, noli id reficere.
- Ouve. Acabei de escrever um documento muito importante. Um post para o meu blogue. Quero gravá-lo. E tu a empastelar, empastelar, não deixas. Solução: formatar e reinstalar.
- Non erravi perniciose!
- Hã? Mas que porra! Agora que preciso realmente de ti, como poucas vezes precisei, não me estás a ajudar! Grava isso!
- Meu caro, é difícil ajudar-te.
- Basta gravares.
- Quid fit, amigo? Eu sou um Windows, não posso fazer muitas coisas ao mesmo tempo. E enervo-me quando gritam comigo!
- Só quero que graves este documento. Só este. Depois podes crashar à vontade. Por favor… Juro que não formato.
- Há coisas que tu dizes que me intrigam.
- Grava a merda do texto!
- Por exemplo, acabaste de dizer que precisas realmente de mim, como nunca precisaste na vida. Estás a ver? Como nunca precisaste na vida. Tens ideia do poder de cálculo necessário para se fazer um comentário coerente sobre essa observação? Vou precisar de uma actualização para o Windows Vista.
- Se fazes essas fitas para eu te actualizar o hardware podes já tirar o cavalinho da chuva! Primeiro quero que graves isto.
- Sim, mas compreende uma coisa: necessito de percorrer todas as memórias que tenho desde que te conheci para poder determinar quais os acontecimentos em que precisaste da minha ajuda, e porquê, qual o serviço que te foi prestado e, por fim, quantificar o grau de necessidade que sentiste. Quero eu dizer que me falta qualquer coisa tipo Ready Boost, topas? Ipso facto, mesmo reunindo todos esses dados, é difícil fazer qualquer comentário preciso. Isto para não falar da dificuldade em estabelecer uma relação entre hardware e cavalinhos à chuva. Não, meu amigo: só vou lá com um Quad-Core.
- Esquece o que te disse. Por favor. Agora só quero que me graves esta porcaria do texto.
- Lá está. Chamas porcaria a um texto que queres gravar. Não deverias antes deitá-lo na Reciclagem? Purgamentum init, exit purgamentum.
- Não, não, não, isso não, porcaria é uma força de expressão. O texto não é porcaria nenhuma. Grava-o, por favor!
- Pois… Pronto. Ora bem… Queres então gravar o texto, não é?
- Sim. Finalmente!
- OK… Portanto, vamos lá então… Tens um texto… Já o leste… E agora queres gravá-lo, não é? Cur ullum imprimere non vis?
- Porra, isto assim é insuportável!
- Calma, estou a tratar disso. Amicule, deliciae, num is sum qui mentiar tibi?
- Chiça, pá, despacha-te! Mas que te deu hoje para estares tão lento?
- Se não é a memória, é o desempenho; se não é o desempenho, é a memória. Às vezes os humanos podem ser cruéis na apreciação que fazem de um computador. Enfim. Re vera, cara mea, mea nil refert.
- Mas já gravaste o texto ou não?
- Ora! Gravei, mas não sei onde… É o raio do Explorer! No Windows Vista a função Pesquisar é muito melhor. Quo vadis, doc? What´s up, doc? Hi hi hi. Accipio ab Zona Crepusculi. Welcome to the Twilight Zone. Wow! Onde meti eu aquilo, afinal? Hostes alienigeni me abduxerunt. Qui annus est? Eu quero um Vista!
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13 comentários
Ando por aqui a ver se encontro erros no novo template e… talvez um problema com o titulo no rss feeds.
Isto ficou 5 estrelas. Um abraço.
Isto está lindo homem… Mete lá isto no ar… Então este post está de morte. Sexta-feira, quase seis da tarde, ainda no escritório e toma lá disto??? Já ninguem faz nada. Vou fazer lock à máquina e vou p’ra casa…
tens sorte. o meu manda-me logo à merda..
5 estrelas Marco, texto acima do nível, novo visual com grande estilo, blog a funcionar às mil maravilhas.
:frase que estás à espera de lêr:
Belo Texto: Interessante, cómico, surrealista.
O Bitaites está cada vez melhor. Só não entendo essa obsessão pelos “anónimos covardes”! Por acaso “Coisinha” é nome de gente?! (Sem ofensa, Coisinha, ok?!) E os outros, incluindo o meu, serão verdadeiros ou heterónimos, anagramas, pseudónimos!?….
Na verdade, é impossível sabê-lo, à primeira vista. Pode-se sempre descobrir o IP do computador donde veio o comentário, mas, e daí?! Pode ser de uma Universidade, Biblioteca, Cybercafé, enfim, Público.
Por isso nada me interessa o anonimato ou não dos comentadores, mas o conteúdo dos comentários. Covardes houve e haverá sempre, por vezes basta que digam mal de nós que já o são, não é assim? É apenas necessário ignorá-los.
E já que estamos numa “onda” de surrealismos, deixo aqui alguns anagramas interessantes de “anónimo covarde”
MANDIOCA NERVO, VACINADOR NOME, VACINADO MENOR, COMANDAR ENVIO, MOCADA INVERNO, MOCADA NERVINO, CAVADOR MENINO, ENCANAR MOVIDO, VACINA MODERNO, INVERNADA COMO, ENVAIDAR MONCO, NOMEADA CONVIR, MANEADOR VINCO, NEVADA ONMRICO, MINORADA NEVCO, ANIMADOR NEVCO, RAVINADO MCONE, ROMANA VENCIDO, RECIMNADO NOVA, VENCIDA NAMORO, VENCIDA ROMANO, ENCOVADO MINAR, INCOMODAR NAVE, MODICAR NOVENA, INVOCADOR AMEN, CONVIDAR AMENO, COMANDO ENVIAR, VINACEO MONDAR, NAMORICO VENDA, MINORCA NEVADO, VINCAR NOMEADO, COVA DENOMINAR, CAVO DENOMINAR.
Citação (em Inglês é mais surreal):
Um abraço http://bitaites.org/wp-content/plugins/lmbbox-smileys/smileys/wp/biggrin.gif
Xavier, obrigado pelas pérolas de nonsense
deste-te a esse trabalho, ou tens um programa de computador?
gosto muito de
vacinado menor
namorico venda
minorca nevado
cavador menino
belas combinações
:mrgreen_wp:
Obrigado, Pedro.
Pois é, tenho um programa de computador. O nonsense está tão presente, à nossa volta, como os Monty Python bem demonstraram, que não é preciso muito para me fazer rir. Já não sei quem disse, mas é verdade:
“Nunca confies num homem que não ri, não é um homem sério!”
Sempre às ordens
Abraço
Eu cá prefiro Agnóstico, que é o que eu sou. Joco remoto!
“Nunca confies num homem que não ri: não é um homem sério!”
Valeu, irmão Xavier Pedralva, és dos meus!…
e se o negócio é uma citaçlão, vamos fechar:
“Rugas não nascem de boas gargalhadas…” (Shakespeare)
“Nunca confies num homem que não ri: não é um homem sério!”
Valeu, irmão Xavier Pedralva, és dos meus!…
e se o negócio é uma citação, vamos fechar:
“Rugas não nascem de boas gargalhadas…” (Shakespeare)
Eu não entendi porquê falam em Pedro se este post é do Marco. Aliás monsenhor Marco, que é assim que o tratarei doravante, porquê o homem é embasado no latim, virge maria! ou habebus chutadus altus, sed convenced mihi…
Extrordinário post. Mas, dice age, onde foste desencantar um latim tão escorreito?
Cumprimentos do Sapo e da Parafusa