→ 07/01/2010 @17:53

O mapa dos mortos

Um dia, uma estudante de arte da Califórnia decidiu que os mortos americanos no Iraque e Afeganistão não podiam ser apenas uma abstracção estatística e deu início a uma tarefa gigantesca: descobrir os rostos de cada um dos que morreram e desenhar-lhes o retrato. Esta semana esteve em Londres: já pintou mais de cinco mil rostos. Os fantasmas da América desenhados em papelinhos presos em pequenos alfinetes de escritório.


Exposição de Emily Prince

Vistos de longe, fazem lembrar aquelas montagens de azulejos nas paredes dos túneis de acesso; à medida que vemos fotos em grande plano, apercebemo-nos de que cada quadradinho é um pedacinho de papel com o rosto de uma pessoa desenhado – o rosto de cada um dos homens e mulheres que morreram em serviço no Iraque e Afeganistão.

Exposição de Emily Prince

É um trabalho em progressão de Emily Prince, iniciado quando ainda era estudante de Arte na Universidade de Berkeley e cuja última apresentação está a decorrer na Galeria Saatchi, em Londres.

Emily, americana, 28 anos, afirmava em Junho de 2007 ter desenhado mais de 3300 retratos; na exposição em Londres, inaugurada hoje, o número de rostos ascende a 5158. A forma como são apresentados varia: nos Estados Unidos, Emily já formou com os retratos um gigantesco mapa dos Estados Unidos, um mapa dos falecidos. A diferença de tonalidades de cor no papel onde faz os desenhos reflecte as diferentes tonalidades de cor da pele dos próprios soldados, segundo afirma a autora.

O trabalho chama-se «American Servicemen and Women Who Have Died in Iraq and Afghanistan (but not including the Wounded, nor the Iraqis nor the Afghans)».

A artista justifica este título por considerar que o trabalho está incompleto, por estarem excluídos os mortos iraquianos e afegãos.

A ideia de desenhar o rosto de cada soldado americano morto em combate surgiu-lhe à medida que as notícias do número de baixas iam surgindo nos media, dia após dia, cinco, depois 14, mais de 100 – apesar do número crescente de mortes, Emily sentia-os apenas como uma abstracção. «Já não era suficiente saber quantos. Precisava de ver as suas fotos, familiarizar-me um bocadinho mais com o que se estava a passar longe do aconchego da minha casa.»

Emily Prince

Emily Prince na Galeria Saatchi, em Londres

O resultado – os desenhos que continua a produzir –«não é muito, é apenas um passo à frente dos números».

Para Emily Prince tem grande significado, pois «é como passar um bocado de tempo com cada um deles, olhá-los nos olhos, seguir a linha das sobrancelhas e tentar percepcionar uma expressão.»

O sítio oficial do projecto está aqui. Um artigo publicado em Junho de 2007 por Cathy Cockrell – A map formed by faces of the fallen – permite conhecer melhor o trabalho e as motivações da pintora. A galeria do sítio da Galeria Saatchi contém imagens de alguns desenhos em bom pormenor. Um artigo no World Art.com mostra-nos o próximo projecto de Emily Prince. Fotos: Andy Rain/EPA.

5 comentários

  • 1
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows Vista Windows Vista
    7 de Janeiro de 2010 - 19:47 | Link permamente

    Marco,
    «A artista justifica este título por considerar que o trabalho está incompleto, por estarem excluídos os mortos iraquianos e afegãos». A invasão do Iraque teve início em 2003, e antes disso até poderemos considerar que não houve baixas a considerar. Ela terá então demorado 4 anos a desenhar cerca de 3300 retratos.
    Caso ela reconsidere e decida incluir apenas os mortos de civis no Iraque, e tendo em conta a estimativa do Iraq Body Count, que aponta um número que possa atingir os 100.00, digamos que ela teria trabalho para mais uns 121 anos?

  • 2
    com GranParadiso 3.0.18pre GranParadiso 3.0.18pre em Windows XP Windows XP
    7 de Janeiro de 2010 - 20:19 | Link permamente

    Bem, como é óbvio ela fazia mais do isso, só podia dedicar um dia por semana aos desenhos. Essa informação está num dos links, não me lembro qual.

    E bom ano! Já há uns tempos que não comentavas! :-) Sabes que Facebook para mim é mentira.

  • 3
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows Vista Windows Vista
    7 de Janeiro de 2010 - 20:30 | Link permamente

    Bom Ano também :D Reconheço a falta de aqui escrever, que é coisa que gosto de fazer, mas tenho acompanhado o que aqui se publica pelo [Cof] R [Cof] SS [Cof] Feed :D
    Ainda pensei que ganhasses gosto ‘à coisa’ mas já vi que aquilo não te prende. Eu pelo contrário, tenho andado muito envolvido naquilo. Nuns casos é uma espécie de Chat engraçado, noutras, é uma espécie de Blog para publicar coisa pequenas, assim tipo as capas do 24H, que dão muito sumo para publicações. Mas uma coisa é certa, ninguém me tira o Blogue. Esse é sagrado.
    Viste aqui uma nota minha sobre os posts antigos? A partir de um determinado tempo passado sobre a data de publicação, eles ficam sem se poder comentar, é isso? É que eu uso muito o teu blog para me referir a coisas antigas, seja para comentar ou para ir buscar coisas que me lembro de ter lido. E neste caso, queria ter dito no local certo que adorei o “Deixa-me Entrar”. Provavelmente, um dos melhores filmes que vi em 2009.

  • 4
    com Google Chrome 3.0.195.38 Google Chrome 3.0.195.38 em Windows Vista Windows Vista
    7 de Janeiro de 2010 - 21:08 | Link permamente

    Um dos aspectos interessantes a saber é o porquê da actual disposição dos retratos. Pelo que vejo nas imagens que colocou no post, existe uma sequência de gradês de cores. Um mapa tem gradês de cores, e esse gradê está explicado em legenda. Seguramente que existe uma razão para esta disposição. Possivelmente só a autora saberá porquê.

    Um bom ano, Marco.

  • 5
    com GranParadiso 3.0.18pre GranParadiso 3.0.18pre em Windows XP Windows XP
    8 de Janeiro de 2010 - 16:34 | Link permamente

    Madeira, a diferença de tonalidades de cor no papel onde faz os desenhos reflecte as diferentes tonalidades de cor da pele dos próprios soldados, afirma a autora.
    Actualizei o post para incluir essa informação.