→ 09/03/2009 @16:53

Mário Valente e o Estado do Twitter

O Twitter tem ou teve valor enquanto estava restringido a uma comunidade que entendia como devia ser usado e que criava por sua via algum valor acrescentado. À medida que vão entrando os ignoramus a quantidade de informação útil diminui. E, a certa altura, acaba por se chegar à conclusão (como eu cheguei) que mais vale a pena abandonar o barco. Acho que só se deve fazer parte de uma comunidade enquanto se produz e se recebe valor; e/ou enquanto a comunidade e o meio podem servir como veiculo de troca de ideias e opiniões consequentes. Quando se contribui mais do que o que se recebe (especialmente se se recebem piadas, insultos ou ataques ad hominem) ou então quando o meio é usado para ruído inconsequente (insultos, conversas de café, vaidosismos, graçolas, oportunismos, etc) o melhor é desligar. A certa altura passa a ser conversa de putas de esquina. Depois de 1 mês de ter deixado de participar activamente e de apenas observar (há outras formas de seguir o que se passa no Twitter sem ser com follower e com following), não posso dizer que esteja arrependido: a maior parte do tempo é conversa de putas de esquina. Do Ser XL ou, Sobre os Quarenta – Mário Valente (excerto)


A mim também aborrece tanta tagarelice. O símbolo do Twitter é um passarinho genérico azul tão adorável que o imagino a cantar em dueto com a Branca de Neve numa floresta cheia de flores, animais de peluche e baba de lobo – um logotipo muito agradável mas que o tempo tornou inadequado.

O símbolo do actual Twitter, pelo menos da parte do Twitter de que se queixa Mário Valente (MV), podia ser uma gralha – uma gralha-azul, caso desejem manter a cor original.

A gralha é o nome comum que se dá a uma série de pássaros de pequeno tamanho e bastante barulhentos – daí o facto de parecer tão apropriada.

Mas também se podia optar por outros símbolos – a taverna ou o cabeleireiro. Quando estou no Twitter só falta ouvir um secador de cabelo a trabalhar para a experiência ser completa. Também há pessoas que piam como se tivessem engolido um secador de cabelo – deve ser porreiro para criar um penteado mais radical, do tipo Miguel Veloso, sobretudo se o engolirem enquanto está ligado à tomada; para o piu piu do inocente passarinho azul não dá muito jeito.


Continuo a achar o Twitter ideal para quem o tempo é um bem precioso – mas de facto surpreendeu-me ter sido tomado de assalto por malta com demasiado tempo para gastar – daí um post que escrevi há dias satirizando a tagarelice dominante que decepcionou o MV a ponto de abandonar o Twitter.

Devem pensar que estou a alinhar com a posição de MV neste post. Só em parte. Concluir que no Twitter é só conversas de putas de esquina é um bocado excessivo para as esquinas – conheço muitas onde se reúnem apenas gajos e a maioria desses gajos são geeks, não são putas. Talvez MV tenha tido um lapso de linguagem.

Desistir do Twitter por não gostarmos do uso que meia-dúzia de utilizadores lhe dá faz tanto sentido para mim como deixar de gostar de futebol por causa dos hooligans ou deixar de ouvir jazz por causa da Diana Krall. O Twitter continua a ser uma ferramenta excelente por todas as razões que centenas de pessoas já especificaram. Não é o supra-sumo da costeleta 2.0, mas também não estou cego às suas óbvias vantagens.

Julgar uma ferramenta pelo ruído que provoca ignorando que a mesma (ou aplicações como o TweetDeck) nos dá todas as possibilidades de o filtrar é também um bocado precipitado.

Os sintomas a que MV se refere como globais vejo-os como problemas meus. Se não gosto ou me aborrece, deixo de seguir ou nem sequer sigo. Se não quero ser seguido, bloqueio. Filtro o que é para mim ruído, vaidade, arrogância, maledicência, conversa de taverna ou de cabeleireiro. Ponto final.

A análise de MV suscita-me por isso três observações: em primeiro lugar, é errado confundir o valor do Twitter com o valor da experiência pessoal ao usá-lo – eu sei do que estou a falar, pois cometo esse erro muitas vezes; segundo, o Twitter não tem culpa de estar na moda – se eu sempre gostei de usar rabo de cavalo não irei cortar o cabelo a pente zero só porque toda a gente agora usa rabo de cavalo – seria uma expressão pouco XL da minha individualidade; terceiro, a qualidade da experiência no Twitter não depende do tamanho da pilinha de followers, mas da aplicação de um critério coerente aplicado às pessoas que ponderamos seguir. No Twitter experimentamos o critério que seguimos. Por outras palavras: temos o que merecemos.

Um último ponto para discussão: não estará a ocorrer uma cisão entre aqueles que o vêem como ferramenta de IRC e os que, como eu, não têm tempo ou pachorra para usá-lo como uma espécie de mIRC às mijinhas? Seja qual for o uso que cada um lhe quiser dar, o Twitter permite que todos continuem felizes da vida e com legitimidade para usá-lo como e quando entenderem. Não há razão para nos sentarmos no cantinho do Valente.

12 comentários

  • 1
    com Safari 4.0 Safari 4.0 em Mac OS X 10.5.6 Mac OS X 10.5.6
    9 de Março de 2009 - 17:08 | Link permamente

    O Twitter nao é para quem quer … é para quem pode e tem tempo (o que nao deve faltar a muita gente com a taxa de desemprego actual).

    Quando tenho demasiado ruído segue-se um un-follow é o que aconselho o MV a fazer.

    MV come back ! :)

    Have fun
    Joao Correia

  • 2
    com Firefox 3.0.7 Firefox 3.0.7 em Windows XP Windows XP
    9 de Março de 2009 - 18:09 | Link permamente

    O logótipo do Twitter está muito bom assim.
    A única coisa que mudava, era torna-lo mais profissional.. mais humano e não tão 3D.. mais real.

    Tipo assim: Novo Logótipo Twiiter

    • 3
      com GranParadiso 3.0.8pre GranParadiso 3.0.8pre em Windows XP Windows XP
      9 de Março de 2009 - 19:50 | Link permamente

      LOL. Mereço assim um destino tão cruel?

  • 4
    A Mona Lisa tinha gases
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    9 de Março de 2009 - 20:23 | Link permamente

    Bem, acho que me era difícil adoptar a posição do MV porque sinceramente, ainda não percebi bem o que lá ando a fazer, quanto mais os outros. Sei que me irritam aqueles gajos que enchem o ecrã de manhã à noite. Só se vê aquela cara feiosa. Sei que não gosto das tais trocas de galhardetes “Ah tu usas o Twitter para te promoveres”, “Ah tu é que usas”. Who gives a shit?
    Há dias em que acho imensa piada, há outros em que sou tomada por um profundo desprezo pela ferramenta!
    No fundo, acho que as pessoas andam a dar demasiada importância ao que o Twitter é ou deixa de ser. Eventualmente, vai deixar de ser novidade, como aconteceu com os blogs.
    P.S.: Marco, rabo de cavalo não! Por favor! :lol:

  • 5
    Dalmy
    com Firefox 3.0.7 Firefox 3.0.7 em Windows Vista Windows Vista
    9 de Março de 2009 - 21:09 | Link permamente

    Boas!

    Deixo aqui um off-topic.
    Estava a ver uns videos no ‘youtubias’ quando vi este video e me lembrei que dava um bom post, tanto sobre este senhor como sobre ópera. Fica a sugestao. :wink:

    cumprimentos

  • 6
    com Firefox 2.0.0.16 Firefox 2.0.0.16 em GNU/Linux GNU/Linux
    9 de Março de 2009 - 21:14 | Link permamente

    Estou só a ver como funciona o teu Bitaites no Magalhães do meu filho.

  • 7
    com Firefox 3.0.7 Firefox 3.0.7 em Windows Vista Windows Vista
    9 de Março de 2009 - 22:08 | Link permamente

    Marco,

    Penso que subestimas (embora tenhas todo o direito ao desacordo em relação às suas opiniões), aquele que é/foi/tem-sido-até-hoje, o maior génio e (acima de tudo) visionário português das Tecnologias de Informação. Em particular, da Internet.

    Claro que *eventualmente* dirás que te estás marimbando para visionários e “coisas” dessas. Estás no teu direito novamente.

    Eu não sou nenhum seguidor de iluminados que me lancem luz para a frente dos pés para que possa seguir caminhando. Mas gosto de ouvir/ler o que diz/escreve quem *sei que sabe muito bem do que fala*. E depois, reflectir.

    E no caso do Twitter, ou muito me engano, ou mais uma vez ele tem toda a razão.

    Ainda há poucos dias li num blog dum conceituado jornalista americano que o Twitter iria substituir o e-mail!!!
    The mind boggles…
    O e-mail até pode muito bem vir a desaparecer, mas não me parece que seja por ser substituído pelo Twitter.

    Pode não haver razão para nos sentarmos no cantinho do meu Valente homónimo, mas talvez haja razão para um pouco de reflexão mais “séria” (muitas aspas) sobre as suas palavras.

    Nunca escondi perante quem mo perguntou a minha admiração por ele. Reforçada por algumas ocasiões em que pudemos privar pessoalmente. Mas também em projectos em que estivemos juntos, por exemplo, no Gildot.

    Por isto mesmo (por ser suspeito para dar a minha opinião sobre ele), deixo as palavras de outra pessoa que o conhece bem melhor do que eu e que esteve com ele desde o princípio:


    Luís Miguel Sequeira

    Aconselho (além do artigo) a leitura do comentário do feathersword e a resposta do arundel (o próprio Luís Miguel Sequeira).

    PS. Pena o blog do Mário já não estar acessível directamente, pois poderia ler-se lá muitas outras coisas em que ele sempre esteve à frente do seu tempo. Como por exemplo (e vou contar de cor): muito antes de ter aparecido a moda dos jogos para telemóvel, ele ter proposto a ideia à Vodafone (então Telecel) e aparentemente… nem sequer a perceberam!!!
    Nesse dia, claro, em que mais uma vez estava à frente do resto.
    Hoje, o que não falta, são jogos em tudo o que é telemóvel.

    Só um exemplo.

  • 8
    com Firefox 3.0.7 Firefox 3.0.7 em Windows Vista Windows Vista
    9 de Março de 2009 - 22:33 | Link permamente

    PS. ao meu comentário acima (estes 5 minutos para editar um comentário. Grunf… outra vez ;-) ).

    Como se pode ler no artigo (embora não explicitamente), foi o Mário a instalar o primeiro servidor WWW português – o do LNEC -, colocando assim Portugal no mar da Web:

    «Estávamos a programar porcarias com sockets quando ele apanhou o HTML/HTTP a ser lançado pelo Tim Berners-Lee. Não fiquei muito impressionado; parecia uma variante do Gopher, que estava mais na moda, e embora fosse um pouco mais flexível, editar HTML “à pata” era mais difícil do que meter um Gopher no ar.
    (…)
    Criámos o primeiro site português para o LNEC, num projecto perfeitamente não-oficial, mas que se “oficializou” pouco depois. Nessa altura a World-Wide Web era tão pequena que haviam listas que mostravam os sites novos do dia, que consultávamos avidamente; e o Mário lá conseguiu meter o “nosso” site na lista: Portugal já não estava isolado do mundo. Mal estava o site no ar que ensinámos o pessoal do INESC a fazer o mesmo; umas trocas de emails e uns posts na USENET, uns pedacitos de HTML trocados, e pronto, Portugal duplicava a sua presença na WWW em poucos dias.»

    Faço este PS., não para o endeusar ou divinizar de algum modo (era o que mais faltava), mas para que não restem dúvidas de quem sempre esteve à frente. Tanto por palavras, como muito principalmente, por actos.

    E não pára. Apressem-se, se quiserem ser um dos 12 sortudos a poder ouvi-lo durante um dia e meio.
    Vejam o programa, o local, o preço (que de certeza que tem mais de prejuízo que de lucro para ele) e vejam se não valerá bem a pena:

    Weekend MBA for Entrepreneurs

    Acho que será bem melhor do que lê-lo no Twitter :P

  • 9
    com Firefox 3.0.7 Firefox 3.0.7 em Windows XP Windows XP
    9 de Março de 2009 - 23:16 | Link permamente

    Gamito, discordar de alguém não é colocar em causa o seu curriculum. O MV não é nenhuma relíquia sagrada. Ninguém é. O Einstein era um génio e negou até ao fim a física quântica, dizendo que Deus não jogava aos dados.
    Também não percebo por que razão dizes que o subestimo. Deveria começar o texto com uma vénia? A sério que não percebo. Eu trato-o de igual para igual, que é a melhor forma que conheço de tratar alguém.

    Tenho de mudar esse tempo de edição :wink:

    Edit: o meu texto é bastante sério. Não te deixes iludir pela minha tendência para as piadolas.

  • 10
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    6 de Abril de 2009 - 17:58 | Link permamente

    Bom, na verdade não sei bem ao certo e posso até estar errado. Mas pelo que sei, e como disse posso estar errado (vale enfatizar), o Twitter foi criado para pequenas citações, e essas sobre oque faz nesse exato momento, alias até mesmo lá, onde escreve essas, está escrito assim:

    What are you doing?

    Então, sendo assim. Oque acredito?! Uma comunidade onde o principal objetivo é postar oque faz nesse exato momento, não pode trazer um certo nível de intelectualidade, afinal como podemos fazer isso dizendo oque fazemos? Isso pra mim torna-se mais um Big Brother, que cá entre nós, nada de intelectual tem…

    Mas tudo bem, como disse posso estar errado, e nesse mundo de Twitter estou entrando agora, desejo ver como é, mas sinceridade? Não espero tanta intelectualidade assim, mesmo porque se procurava isso, ia ler um livro de…

    Enfim…

    Abraços,
    Felipe

    Ah! Não encare como uma crítica, por favor, afinal como disse posso estar errado, e estou começando agora, ok!?

    Abraços. :|

    • 11
      com GranParadiso 3.0.9pre GranParadiso 3.0.9pre em Windows XP Windows XP
      6 de Abril de 2009 - 18:13 | Link permamente

      Felipe, eu também receava que o Twitter fosse como você diz. Mas acaba por ser aquilo que você quiser fazer dele. Segue só quem gosta e ignora quem não interessa. É simples!

  • 12
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    6 de Abril de 2009 - 18:20 | Link permamente

    É de fato Marco. Não tinha pensado assim, mas vamos seguir em frente, como disse estou testando…

    Abraços.