De tempos a tempos, existem organizações que prendem o nosso imaginário pelos resultados que atingem e, talvez mais relevante, pela forma como o fazem.
Conta-se que numa reunião corporativa no GooglePlex – o complexo de edifícios onde se situa a sede do Google, perto do S.Francisco – cujo tema era “boas práticas”, o orador tentou debitar alguns lugares comuns sobre o que se devia fazer. Um engenheiro levantou-se e disse: “No fundo, isso pode ser resumido com a frase: Don’t be evil. Nos meses seguintes, em todos os quadros brancos da empresa apareceu esse mote no canto superior direito, tendo ficado como lema da companhia e mote para as acções estratégias tomadas. A frase incorpora o significado que, mesmo gigante, não é necessário esmagar os mais pequenos e, a longo-prazo, é até negativo.
Outra questão que prende o nosso imaginário é o fabuloso mundo de 100.000 servidores que, utilizando uma versão simplificada de Linux, responde às nossas pesquisas. O poder de computação não é público mas estima-se que, numa competição imaginária, o computador mais rápido do mundo, o BlueGene, demore mais 67% do tempo a completar uma tarefa do que o conjunto de CPUs do Google.
Uma particularidade muito conhecida é o facto de os investigadores e engenheiros do Google terem 20% do seu tempo de trabalho para desenvolver os seus próprios projectos. Desse trabalho pessoal, nasceram os sucessos Gmail, Orkut e Google News.
Sendo o Google líder das pesquisas na Web, segundo dados da Nielsen de Fevereiro de 2006, com 48% nos EUA e 55% no UK, o que mais se pode esperar?
Os sucessivos rumores que o Google estaria a desenvolver um novo sistema operativo para o Desktop merecem a nossa reflexão.
Estando a discutir o assunto, no Bairro Alto e a horas indecentes, com três colegas de um projecto europeu de investigação centrado no open-source, três opiniões diferentes apareceram em cima da mesa: o Google não estava rigorosamente a fazer nada, estavam a desenvolver um novo sistema operativo de raiz ou estavam a adaptar o Linux para esse mesmo fim. Excluo o facto de estarem a desenvolver um Linux para uso interno, o Goobuntu, porque essa notícia já foi confirmada como verídica.
Voltando às hipóteses, é muito arriscado apostar na segunda mas a terceira não é assim tão disparatada.
E penso ser possível por três razões. A primeira é que quando se tem muitos recursos e muita gente inteligente, o céu é o limite. Ou seja, é natural que se queira fazer crescer o nosso mercado verticalmente entrando noutras áreas como o software de produtividade ou mesmo o sistema operativo. Segundo, porque não é de todo impossível a Microsoft ganhar quota de mercado ao Google. Dizia um colega francês do INRIA que era uma questão de investimento. Mesmo o mecanismo patenteado do Google que valoriza as ligações da página e para a página baseia-se em conceitos muito simples, depois de apresentados.
Por fim, pela cultura da empresa. Uma cultura aberta e assente no modelo de cooperação. O Google tem APIs para interacção com os seus serviços e suporta vários projectos open-source. Aposta em linguagens de programação muito associadas ao SL/A como o Python. Recorde-se que o criador do Python, Guido Van Rossum, juntou-se recentemente à equipa do Google. Assim, pode ser natural que o Google venha ainda a surpreender. Claro, de preferência mantendo a máxima “Não sejas diabólico”.
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