Muitas pessoas me perguntam porque razão, sendo utilizador de Windows, estou sempre a criticá-lo. Se não gostas, dizem-me, então muda-te para Linux.
Eu compreendo quando me dizem estas coisas. É normal associar um utilizador do Windows a alguém sem capacidade crítica em relação ao sistema operativo. Os zelotas do Linux – sempre muito conscientes da sua superioridade intelectual – fazem-no com frequência. Basta ler as discussões no Gildot. Mas esses são uma minoria.
A gigantesca Microsoft, por seu turno, confia neste tipo de utilizadores para obter sucesso e manter as garras em cima de nós – eles são os primeiros a saber que todos estes desenvolvimentos cosméticos do Windows Vista se destinam, como sempre, a alimentar as expectativas desta massa acrítica e a ocultar os verdadeiros problemas.
Mesmo os melhoramentos introduzidos a nível de segurança do utilizador – a já falada User Account Control – não passam de melhoramentos cosméticos. Essa função de controle é tão fácil de desligar como é fácil mudar a fotografia associada à nossa conta de utilizador. Pergunto-me que utilidade terá essa função a não ser a de criar a ilusão de que a segurança melhorou.
Enquanto a malta se vai deslumbrando com os acabamentos do Windows Vista sem tentar ver o lixo que continua escondido sob o tapete, outros problemas vão surgindo – questões muito graves que podem colocar em risco a liberdade do utilizador em relação ao seu próprio computador. Deslumbrados com tantas janelinhas bonitas, a maior parte da malta não parece estar a dar muita importância às mudanças.
Os sistemas de DRM (Digital Rights Management) que o Windows Vista alegremente adoptou são medidas técnicas de restrição ao acesso e à cópia de conteúdo digitalizado. Podem ser implementadas ao nível do software e do hardware. Nalguns casos impedem, por exemplo, que se oiça no PC um CD áudio comprado de forma legal ou se converta para MP3 conteúdo dos teus discos.
Uma carta enviada a 15 de Outubro desta ano ao Ministro da Cultura do Brasil, Gilberto Gil, assinada por Alexandre Olivo, conselheiro da FSFLA (Fundación Software Libre América Latina) sintetiza a questão do DRM: «Este sistema representa uma ameaça ao acesso e à preservação da cultura, uma violação da privacidade dos consumidores de música, filmes, software e outras formas de expressão. É uma ameaça aos direitos de uso garantidos por lei, tais como o de copiar faixas de obras para uso pessoal e o de utilizar para quaisquer fins obras em domínio público.»
John Sullivan, director da Free Software Foundation, que lançou a campanha Bad Vista, afirma que este novo Windows representa «uma regressão, sobretudo quando se tem em conta o aspecto mais importante quando se adquire e utiliza um computador: o controle que o utilizador possui sobre o que a máquina faz.»
O Windows Vista é uma forma de controlar o teu computador e o que podes fazer com ele – um controlo exercido à distância por parte da Microsoft, aproveitando o facto de estares demasiado distraído com tantas janelinhas bonitas.
E o mais lamentável é que este tipo de práticas, ou seja, a restrição ao que o utilizador pode ou não fazer, não é coisa nova: não podemos desinstalar programas da Microsoft de forma transparente – Internet Explorer, Windows Media Player, por exemplo – e tão-pouco nos dão a opção de escolher quais os componentes que queremos instalar. Se a vocês isso pouco importa, a mim preocupa, e muito, nem que seja por uma questão de princípio: se eu dei uma pipa de massa por um computador e um sistema operativo, tenho o direito de fazer as minhas próprias escolhas e tomar as minhas próprias decisões. Isto é tão óbvio como carregar em Next. Ou não?
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