Este mês foi anunciado o que talvez possa ser considerado um dos acordos mais relevantes da indústria informática.
Dois arqui-rivais, a Microsoft e a Novell, assinaram um acordo de colaboração. Historicamente, a Novell é conhecida pelo seu produto NetWare que foi sendo estrangulado entre o MS Windows para servidor e desktop. Com o NetWare em vias de extinção, a Novell adquiriu a empresa alemã SuSE que detinha a distribuição de Linux com o mesmo nome.
Que pode ser alvo de colaboração entre uma empresa Linux e a Microsoft? Interoperabilidade.
Segundo a informação disponibilizada, existem três áreas de futura colaboração. A primeira será na área da virtualização, já aqui referida como das que mais potencialidades económicas apresentam a curto prazo. Windows a ser executado dentro do Linux e vice-versa. Em segundo lugar, as empresas planeiam desenvolver trabalho conjunto na área dos WebServices. Isto é, no controlo de servidores e troca de informação via serviços Web. Uma área já algo saturada mas que está a ganhar novo fôlego quando nos apercebemos que quanto mais simples melhor: é o caso de XML simples (Atom, RSS), serviços REST, etc. Por fim, as empresas colaborarão na área da compatibilidade de formatos de documentos e a possibilidade de troca de ficheiros entre MS Office e OpenOffice.
Apesar destas áreas terem sido as mais destacadas, existe ainda um ponto que deu que falar: o pagamento de 108 milhões de dólares da Microsoft à Novell para esta não utilizar as patentes que possui contra produtos Microsoft. Por sua vez, a Novell pagará à Microsoft 40 milhões e uma percentagem das vendas do SuSE Linux para assegurar a não-litigação da Microsoft contra clientes SuSE. Ou seja, a Microsoft não utilizar o portfolio de patentes para atacar os clientes da SuSE.
As reacções não se fizeram esperar e as mais barulhentas foram as da comunidade de Software Livre/Aberto (SL/A). A equipa do Samba, software responsável pela capacidade do Linux aceder a impressoras e ficheiros em servidores Windows remotos, indignou-se e dirigiu uma carta aberta à Novell. Nesta carta, argumentava – com alguma razão – que desta forma a Novell acabara de admitir implicitamente que poderiam haver partes do SL/A que estariam sujeitas a patentes da Microsoft, tentando assegurar através do acordo a protecção dos seus clientes em detrimento de todos os outros utilizadores.
Outros encararam o acordo como uma resposta à aproximação entre a Oracle e a Red Hat, duas empresas que boatos sucessivos anunciam como alvo de potencial fusão mas que nunca se chega de facto a concretizar.
O que motivou então as duas a celebrarem este acordo?
Do lado da Microsoft penso existirem duas razões muito fortes. A primeira é a resposta às acusações de abuso de posição dominante, demonstrando assim que até colabora com os seus competidores mais directos. A segunda inspira-se na máxima “mantém os amigos perto de ti e os inimigos ainda mais perto”. Procedimento habitual da Microsoft, como no conhecido beijo de “Viúva Negra” da Microsoft à IBM no desenvolvimento conjunto do sistema operativo OS/2. Neste esforço, a Microsoft acabou por minar o projecto inviabilizando uma adopção muito mais alargada do OS/2 e lançando em concorrência o Windows NT.
Do lado da Novell, a principal vantagem prender-se-á com a imagem corporativa do seu produto que sai mais fortalecida, bem como a nível comercial as portas que se abrem. Em conclusão, o que aparentemente é um bom acordo comercial pode tornar-se um erro empresarial estratégico por parte da Novell. Com este acordo, o que dá em confiança aos seus clientes retira em visão para os seus 4.700 empregados. O SL/A tem de assegurar a continuidade e a suavidade da operação nas organizações e a disrupção da forma de se desenvolver software. Nessa disrupção, só pode contar com a qualidade do software e não com o apoio de terceiros. Principalmente, quando este se chama Microsoft.
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