

No número de Setembro da revista Vogue italiana, o fotógrafo de moda Steven Meisel (o mesmo que fotografou a nudez de Madonna para o livro Sex) gerou controvérsia ao mostrar a guerra no Iraque em imagens cheias do mesmo glamour superficial das passagens de modelos. A esta série de fotos ensaiadas deu o (óbvio) nome de «Make Love, Not War».
Uma organização que trabalha para intensificar a intervenção das mulheres no debate público, a Women In Media and News, criticou duramente o trabalho de Meisel, sugerindo que as fotografias eram pornográficas e evocavam a sexualização de situações horríveis, como se a violência em cenários de guerra tivesse algo de erótico.
Estas fotos não significam nada. A associação entre soldados musculosos e modelos elegantes é engraçada, resulta bem e gera burburinho, mas não reflecte qualquer conteúdo editorial e funciona apenas como promoção da própria revista. Dificilmente pensaremos nestas imagens como celebrações eróticas da violência: são demasiado carnavalescas e fabricadas para despertar qualquer sentido que não seja o olhar, e um olhar superficial.




As fotos de Meisel levantam a velha questão da exaustão dos símbolos, que é precisamente o título de um capítulo do livro Tecnopolia – Quando a Cultura se Rende à Tecnologia, publicado em 1991 por Neil Postman. Essa trivialização é verificável sobretudo nas campanhas publicitárias.
Na tecnopolia, a banalização dos símbolos culturais significativos é largamente levada a cabo pela actividade comercial, e isto ocorre não porque os publicitários americanos sejam gananciosos mas porque a adoração pela tecnologia se sobrepõe a tudo o resto. Os símbolos que retiram o seu significado de contextos tradicionais religiosos ou nacionais devem assim ser tornados impotentes o mais depressa possível – isto é, esvaziados das conotações sagradas ou mesmo sérias. A elevação de um deus exige a demolição de outro, e a expressão «não terás outros deuses diante de mim» aplica-se tanto à divindade tecnológica como a qualquer outra.
Neil Postman, A Exaustão dos Símbolos
Um dia, quando tiver tempo, transcreverei o capítulo em que Postman fala da tecnologia dos computadores. Uma bela leitura geek, digo-vos já.
O sempre céptico Postman tem carradas de razão. Vejam o que rodeia a selecção nacional de futebol e não será difícil de notar que a publicidade e o marketing se apropriaram de um símbolo nacional – a bandeira portuguesa – retirando-lhe o significado original para a usar na promoção de uma marca de cervejas, um canal de televisão ou uma empresa petrolífera. E com enorme sucesso.






























3 comentários
Eu na minha ingenuidade sempre julguei que o meu cartão de "sócio da selecção" seria o meu Bilhete de Identidade. E depois querem que dedique tempo à coisa! Mas tu Marco, lá me vais puxando para este assunto da… bola.
E quanto à tipa com ar de mulher das cavernas, esta mesmo a pedi-las.
Onde é esta guerra? Também posso entrar?
Quando não há respeito pelos limites legais e éticos da publicidade, é normal a apropriação e transformação de símbolos para "vender na hora".