Tão ridículos estão os directos das televisões sobre o caso da criança desaparecida que já me sinto embaraçado – o género de embaraço de quando vejo um programa de apanhados. A maior parte da malta ri, pois identifica-se com o tipo que está a pregar a partida; eu devo ser um bicho esquisito, porque sinto-me quase tão embaraçado como a própria vítima. Deve ser por isso que detesto programas de apanhados: revelam-me uma fraqueza qualquer no meu carácter que não gosto de sentir.
Hoje vi o noticiário da TVI e senti que estava a ver um programa de apanhados.
O repórter fazia um directo à porta do apartamento de um cidadão russo detido pela Judiciária. Recebeu então indicações da regie de que os pais de Madeleine tinham acabado de sair da Igreja, a poucos metros daquele local.
O repórter dirigiu-se então para a Igreja em passo apressado. Enquanto o ouvia a encher chouriços (se não é possível opinar e se não existe informação, o repórter no terreno está condenado à banalidade), notei que lhe estava a faltar o fôlego. Finalmente, depois de tanta corrida, foi-nos mostrado… um plano longínquo dos pais vistos de costas. Um jornalista que perde o fôlego em nome do nada é uma coisa deprimente.
Imaginem que o tipo da regie lhe tinha dito: «Pá, vai já para ali que consegues apanhar os pais sozinhos e talvez consigas uma entrevista exclusiva!» E o tipo vai, quase corre, perde o fôlego, e depois vê que a única razão para fazer de palhaço neste circo foi dar ao operador de câmara a possibilidade de filmar um casal de ingleses de costas.
Ainda estão comigo? Agora imaginem o mesmo tipo da régie a rir-se e a dizer-lhe: «Pá, estávamos na brincadeira contigo. Foi uma partida que te pregámos! Então achas que te mandávamos fazer isso só para filmar os pais de costas?»
Mas mandaram mesmo – e é isso que me embaraça. O jornalismo em directo é um programa de apanhados. O jornalista é apenas um mirone, o tipo que abranda para ver o acidente. As suas reportagens são sketches dos Monty Phyton que se levam a sério.






























7 comentários
Não senhor. Tens aqui mais um “envergonhado pela miséria alheia”. Sinto isso mesmo, sinto-me ridículo quando vejo alguém fazer papel de urso. E pensava que era de mim, mas vejo que não. Ainda bem. Sou, pelo menos, tão normal como tu. E espero que isso seja uma coisa boa…
Muitas vezes até é. Na cobertura do futebol é quase só calinadas e disparates semânticos, o que tem a sua graça, convenhamos.
Mas estou em crer que ainda há bom jornalismo em directo neste país, talvez na cobertura de efemérides como o 25 de Abril, em certos eventos musicais ou desportivos, em desastres naturais ou não.
Tudo depende do Canal de TV e do repórter, suponho.
100% de acordo, os noticiários de hoje em dia são de chorar a rir.
Como tu dizes: verdadeiros sketches dos Monty Phyton.
http://razao-tem-sempre-cliente.blogspot.com/2007/05/razo-dos-mccann.html
Curioso, nunca vi nenhum caso de crianças portuguesas desparecidas com tanta repercussão internacional. Serão crianças de segunda?
Eu também sou um dos que vejo pelo prisma do apanhado. E de vez em quando fico triste, muito triste, quando penso que poderia ser a estar naquela situação.
Como eu te compreendo Marco, seja nessa questão dos apanhados que continuo a não perceber a piada, seja naquilo a que chamam de jornalismo mas que, convenhamos, não tem nada de jornalismo. Hoje em dia as peças jornalísticas a que assistimos na televisão parecem-se mais com novelas do que com notícias que poderiam ter algum tipo de interesse. Chegamos ao cúmulo de notícias que são realmente importantes e que podem realmente afectar o nosso futuro serem perigosamente negligenciadas para segundo (ou terceiro plano) em função de “coisas” que por mais tristes que sejam, não me interessam minimamente…
Mas são só as escolhas das noticias que vemos hoje nos telejornais que me assustam… o que realmente me mete medo é ver que existem pessoas que preferem essas noticias, que lhe dão valor, e que pensam que jornalismo é isso… É um absurdo. Não sei se já se aperceberam, mas as pessoas que vêem este tipo de noticiários vão ficando cada dia mais burras e é cada vez mais difícil manter uma conversa com estas pessoas. Apesar de ser algo preocupante, é compreensível: é complicado falar com alguém sobre o aumento do desemprego neste primeiro trimestre face ao mesmo período do ano passado com alguém que mesmo não tendo trabalho, preocupa-se mais com a menina que desapareceu no Algarve, assunto que é falado hora a hora na televisão… Se os jornalistas dessem metade da importância que deram a este desaparecimento, aos assuntos relacionados com a vida em sociedade e aos reais problemas do país, possivelmente teríamos uma vida bem melhor.
É por isto que eu já não vejo televisão, pelo menos os primeiros 30 canais. Prefiro um documentário, uma série ou um filme, às novelas que passam nos canais generalistas.
É importante dizer que não é que eu não esteja solidário com os pais da menina que desapareceu; sei que para eles dever ser uma situação complicada que não desejo a ninguém; a minha crítica vai para o ênfase que se está a dar à situação que acredito que não vai ajudar ninguém.
Marco e os restantes, desculpem-me este comentário gigante em tom de desabafo, mas isto era algo que me estava aqui entalado…
Um abraço
O quadro não é assim tão negro. SIC Notícias, RTPN, RTP2 têm bons serviços informativos. Felizmente.