→ 19/01/2010 @15:04

Intoxicação informativa

Tenho a televisão ligada mesmo atrás de mim e já estou farto. Oscila entre spots promocionais a uma telenovela chamada Perfeito Coração e reportagens sobre a situação no Haiti.

Começo a detectar nestas reportagens padrões de dramatização que lembram precisamente uma telenovela: contam-se histórias de «sangue, suor e lágrimas», o que nas presentes circunstâncias devem ser tão comuns de encontrar em Port-au-Prince como o lixo e o pó acumulados nas ruas. Começo a sentir os efeitos da intoxicação informativa, como é normal.

Ao jornalismo de «sangue, suor e lágrimas» não se pede que tente compreender por que razão o Haiti estava tão vulnerável e as pessoas tão pobres. Um terramoto é uma explicação sedutoramente simples: causa e efeito estiveram frente-a-frente, como num duelo entre o cowboy bom e o cowboy mau dos filmes do Sergio Leone.

Sobre o que se passa no país, dão-me agora muito mais do que eu quero ouvir; daqui a alguns dias, semanas, quando as rodas do mundo girarem à velocidade habitual, dar-me-ão menos do que desejarei ouvir.

 

E agora, a parte mais chata

O padrão adoptado pelo fluxo da informação é sempre o mesmo: a notícia, chocante; as primeiras estimativas dos mortos; as imagens da devastação, se possível do próprio terramoto; televisões, YouTube, Twitter, Facebook; seguem-se as primeiras histórias dramáticas, os testemunhos, a contagem sôfrega dos mortos, porque na lógica impessoal do jornalismo quanto maior for o número de vítimas, melhor; os pedidos de donativos, as «reacções de pesar da comunidade internacional», conferências de imprensa, mais histórias dramáticas, mais contagens de mortos e imagens de destruição, separadores promocionais do evento com músicas «tristes», «amálgamas de ferro retorcido» em múltiplas variações na forma e nos materiais – o fluxo só se esgotará quando todos os mortos estiverem contados, estivermos fartos e cansados de um drama tão intenso, e os haitianos secarem as lágrimas para pensar como reconstruir a vida, as casas, a cidade, o país.

A reconstrução já não fará parte da história deste filme – fará as vezes do genérico final, quando a maior parte das pessoas já se tiver levantado das cadeiras, mas sabe-se mais ou menos bem como vai acontecer e durante quanto tempo.

O presidente da vizinha República Dominicana, Leonel Fernandez, já disse que serão necessários sete mil milhões de euros e um período de cinco anos para reconstruir o Haiti. Esta não é uma declaração destinada a avaliar prejuízos, é um convite ao investimento.

De onde virá esse dinheiro? Dos donativos? Da altruísta generosidade dos Estados? Claro que não. Será formado um comité especial do qual farão parte a Comunidade das Caraíbas (CARICOM), representantes das Nações Unidas, da Organização dos Estados Americanos e da União Europeia, Estados Unidos, Canadá, Brasil, México e o Banco Interamericano de Desenvolvimento.

O auxílio internacional não será gratuito, embora presumivelmente as taxas de juro possam ser mais suaves: os sete mil milhões de euros serão emprestados e as oportunidades para as indústrias de reconstrução dos países mais ricos não deixarão de ser aproveitadas.

Façam um pequeno exercício: assim que a poeira das ruas e do sofrimento assentar e não existirem mais histórias dramáticas de vítimas do terramoto para contar diariamente nos telejornais, tentem saber quais as empresas estrangeiras encarregues de reconstruir o país, quantos haitianos dependerão dos empregos que forem criados e, por último, se a capacidade de produção do país aumentou (afinal é uma reconstrução) ou, pelo contrário, aumentou apenas a sua capacidade para prestar serviços a outros.

Veremos até que ponto o mundo continuará a acompanhar o Haiti na sua previsível e igualmente dramática luta pela independência política e económica.

16 comentários

  • 1
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows Vista Windows Vista
    19 de Janeiro de 2010 - 17:18 | Link permamente

    Marco,
    no que toca ao “jornalismo de «sangue, suor e lágrimas»”, e do “padrão adoptado pelo fluxo da informação”, se não te importas, faço a ligação para o que escrevi em “A obscenidade mediática no Haiti”
    Concordo com o teu ‘pequeno exercício’ e coloco uma questão. Como estará a cidade de Sichuan, agora que passaram quase 2 anos após a tragédia que matou mais de 60.000 chineses? Não são economias comparáveis, e a China tinha capacidade para levantar de novo essa cidade sem depender de ajudas externas (creio). Mas o acontecimento em si, para muitos, estará esquecido. Um pouco como deverá acontecer com o Haiti

  • 2
    Gingerbread Girl
    com Firefox 3.0.17 Firefox 3.0.17 em Windows XP Windows XP
    19 de Janeiro de 2010 - 17:48 | Link permamente

    Totalmente de acordo… ainda hoje fiz um post sobre isto: “Oh senhores jornalistas, tréguas se faz favor…”
    É de facto uma fórmula de sucesso, esta que os jornalistas arranjaram. Afinal… se formos a ver bem, é disto que eles vivem. Crise, desemprego, tragédias…

    *

  • 3
    com Firefox 3.0.15 Firefox 3.0.15 em Fedora 10 Fedora 10
    19 de Janeiro de 2010 - 18:14 | Link permamente

    E tem mais um detalhe, a acrescentar em tudo o que disse, com o que concordo e que já também não aguento. É que a República Dominicana fica na mesma ilha, paredes a meias com o Haiti. O terremoto só sacudiu a casa do vizinho ou foi o drama possivelmente vivido pelo muito mais frágil Haiti que chamaou para lá carradas de jornalistas deixando o vizinho, presumivelmente “sacudido” porém de forma menos dramática, de fora das notícias?

  • 4
    JorgeMaxiSuriLand
    com Firefox 3.5.7 Firefox 3.5.7 em Windows XP Windows XP
    19 de Janeiro de 2010 - 18:20 | Link permamente

    Haiti vai ser sem dúvida mais um Iraque, Colombia, Mexico, Afeganistão… só muda o pretexto e a forma como entram as tropas americanas! É mais uma base aéria ali pertinho de Cuba!

  • 5
    The end of times
    com Firefox 3.5.7 Firefox 3.5.7 em Windows Vista Windows Vista
    19 de Janeiro de 2010 - 18:32 | Link permamente

    Quando é que toda a gente se convence que:

    - Ninguém quer saber do Haiti, nunca ninguém quis saber, nem nunca quererá saber. É mais outro reino de anarquia tal como a Somália, em que o que imperam são grupos fortemente armados que controlam efectivamente o país sob a fachada dum governo fantasma. Sejamos francos: antes do terramoto, quem é que se lembrava do Haiti ?

    - Os americanos lá estão como salvadores do mundo. A maldita CNN com os repórteres lamechas que choram em directo, a tropa fandanga toda em curso, os porta avioes, os hum vee´s, o discurso do presidente da praxe. Tudo bem e acertadinho, mas com a total inoperância dos meios de salvamento e logística no terreno. O circo do costume, que já se viu em outras partes do mundo.

    - Vamos ouvir falar do Haiti em 30 dias. A seguir, a partir dai, já ninguém quer saber dos pretos. Não têm matérias primas, não têm turismo sustentável, pelos vistos agora não têm rigorosamente NADA de NADA. Porque antes simplesmente já não tinha mesmo nada. O que têm para oferecer ? NADA. Portanto, ao menos algumas empresas americanas (protegidas por firmas de segurança também americanas) lá vão receber uns donativos do governo americano, assentam alguns tijolos no terreno, abusam de alguns menores haitianos, disparam umas quantas rajadas para o ar (ainda acertam possivelmente num haitiano inocente) e depois vão-se embora.

    É isto que acontece.

  • 6
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows Vista Windows Vista
    19 de Janeiro de 2010 - 19:11 | Link permamente

    @The end of times,
    não querendo tirar razão ao seu comentário, destaco apenas um ponto:

    o que imperam são grupos fortemente armados que controlam efectivamente o país sob a fachada dum governo fantasma

    Com o terramoto esses grupos perderam as armas? É que têm passado despercebidos

  • 7
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows Vista Windows Vista
    19 de Janeiro de 2010 - 19:14 | Link permamente

    @Edgard Costa, a pergunta que eu faço é: E aconteceu algum estrago no país vizinho? É que se houve, não se soube de nada. Aliás, só hoje de manhã é que ouvi falar de uma cidade a 35Km da capital, que teria tido uma destruição de 70% e onde se estima que tenham morrido 10.000 pessoas

  • 8
    The end of times
    com Firefox 3.5.7 Firefox 3.5.7 em Windows Vista Windows Vista
    19 de Janeiro de 2010 - 19:46 | Link permamente

    Bluewater: os presos da cadeia perto de Port au Prince escaparam, dada a ocorrência do terramoto. Mesmo antes do terramoto, já tinham ocorrido tentativas de golpe de estado.

  • 9
    The end of times
    com Firefox 3.5.7 Firefox 3.5.7 em Windows Vista Windows Vista
    19 de Janeiro de 2010 - 19:51 | Link permamente

    Será jornalismo correcto, quando o jornalista aborda uma mulher que se encontra ainda soterrada (pelos vistos fazia 6 dias), e pergunta “how do you feel”? Ainda por cima com o marido mesmo ao lado a assistir a todo este espéctaculo ? Aconteceu em http://edition.cnn.com/. Não sei o que é mais perigo: um soldado armado até aos dentes, ou um jornalista com o seu microfone, atacado por uma euforia de trabalho. Venham os Pullitzers…

  • 10
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows Vista Windows Vista
    19 de Janeiro de 2010 - 20:44 | Link permamente

    @The end of times, daquilo que eu sei, a última tentativa de golpe de estado foi em 2004, ano em que começou a missão da MINUSTAH no Haiti. Aquilo que se tem visto na TV é tudo menos grupos fortemente armados. Viu-se um com uma caçadeira e outro com uma pistola. De resto, são grupos de homens desesperados armados com paus e pedras.
    O Haiti não é a Somália. Que depois disto possam ser criadas condições propícias à criação de milícias, e que o país possa cair num caos ingovernável, eu acredito que sim. Para já, insisto, o Haiti não é a Somália. longe disso.

  • 11
    The end of times
    com Firefox 3.5.7 Firefox 3.5.7 em Windows Vista Windows Vista
    19 de Janeiro de 2010 - 21:05 | Link permamente

    Para bluewater: lê com atenção este artigo: http://www.ssrnetwork.net/document_library/detail/3921/the-call-for-tough-arms-controls-voices-from-haiti

    Para Marco: aqui vai um super post sobre a pornografia jornalistica no haiti, via sapo: http://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/1105740.html

    • 12
      com Firefox 3.5.7 Firefox 3.5.7 em Windows 7 Windows 7
      20 de Janeiro de 2010 - 08:42 | Link permamente

      The End of Times: excelente post do Francisco José Viegas, sem dúvida. A indústria da tragédia. Simples e muito correcta formulação.

  • 13
    Bruna Landim
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows Vista Windows Vista
    20 de Janeiro de 2010 - 00:10 | Link permamente

    “The end of times” concordo contigo. Alias, estive realmente refletindo sobre isso esses dias, vendo mais uma das obras dramatizadas dos jornais, afinal de contas acontece uma tragédia e parecem tudo formigas atrás do doce, antes ninguém queria saber do Haiti, agora é um (desculpa a palavra chula) “puta” negócio, salvar os milhões de pretos mortos no terremoto.

    Gostei do texto. Muito interessante, não só informativo, mas crítico também.
    Um grande abraço.

  • 14
    com Google Chrome 3.0.195.38 Google Chrome 3.0.195.38 em Windows XP Windows XP
    20 de Janeiro de 2010 - 11:59 | Link permamente

    Pois, e o que havemos de fazer? O homem não é perfeito e o altruísmo é coisa rara…

  • 15
    The end of times
    com Firefox 3.5.7 Firefox 3.5.7 em Windows Vista Windows Vista
    20 de Janeiro de 2010 - 13:12 | Link permamente

    Podemos mesmo dizer que neste momento, o Haiti é a caça ao Pullitzer…

  • 16
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows Vista Windows Vista
    20 de Janeiro de 2010 - 13:33 | Link permamente

    @The end of times, ainda sobre o documento, o que ele refere é isto «There are an estimated 210,000 small arms and light weapons in circulation in Haiti». Isso não valida o termo em questão de «fortemente armados». Até porque, resta saber se com aquilo que esse relatório define como «small arms» é possível dar poder às milícias que possam existir. Eu insisto que é uma realidade bem diferente da Somália. Se esses grupos existem e se conseguem fazer estragos, é algo que só poderemos testemunhar nos próximos tempos. Esta situação é propícia a que os grupos armados tomem conta da situação perante o caos e a anarquia instalada.