Já vou a caminho. Abraça-me, então. Hélder Sousa

A nudez dos factos: Hélder, 24 anos, de Azeitão, Setúbal, suicidou-se no dia 16 de Maio. Estava no terceiro ano de Desporto na Lusíada e já fazia serviço como agente da PSP. Amigos e colegas recordam o seu comportamento dos últimos tempos como “muito religioso” ou “muito estranho”. Hélder abriu um blogue dias antes de morrer, “Amor e Vida”. E escreveu.
A forma como os blogues estão organizados, como uma viagem ao passado daquele que escreve, post após post, tema após tema, ao sabor da inspiração, do momento, da Lua, pode tornar-se muito atemorizador.
Que fiz por aqui nestes últimos dias? Tecnologia, computadores, artes, futebol, posts brincalhões, as merdas do costume. Agora tento escrever sobre uma pessoa de 24 anos que se suicidou numa manhã de 16 de Maio e não consigo deixar de sentir que é falta de respeito não haver uma página em branco, um minuto de silêncio entre este e todos os outros posts. Uma terra de ninguém, esse silêncio, pois aí não existiriam fronteiras entre mim, que estou vivo, amo, sou amado e adoro viver, e tu, Hélder Sousa, que não querendo viver mais em desespero, iniciaste um blogue como quem espera um comentário de Deus e depois te mataste por amor.
Era bom que pudesse existir esse silêncio intemporal, pois até era gajo para chegar ao pé de ti e tentar arrancar-te dessa terra de ninguém: pá, és demasiado puto para ficares preso ao passado como uma mosca numa teia de aranha. Luta. Anda à porrada com o destino. Liberta-te. Ouve esta música. É Debussy. É uma peça para piano. Chama-se Et la Lune descend sur le Temple qui Fut. Gosto tanto que até aprendi a escrever esta merda em francês sem me enganar. Fiz-te sorrir? Óptimo. Ouve e respira fundo. Deixa-te dessas depressões. Já viste como esta música combina tão bem com “Os Amantes sem Dinheiro”, do Eugénio de Andrade? Vês como há tanta coisa que faz sentido quando nos libertamos das nossas porcarias e abrimos os olhos ao mundo?
Se calhar não querias ouvir. Vivias os teus dias relendo velhas cartas da namorada, cartas de um amor eterno que não durou, aconchegavas-te nessas palavras do passado e não suportavas as palavras de rejeição que ouvias agora; sim, pá, não és o único a passar por coisas destas, toda a gente percebe o teu sofrimento: o pôr do Sol a cegar-te a imaginação, cartões postais transformados em sonhos antigos e amarelados como as fotos antigas que recordam a vida das pessoas e mais parecem assentuar-lhes a morte – então fechaste-te. Não quiseste ouvir. Foste um Peter Pan em sofrimento, impossibilitado de crescer. Podias ter tentado escutar aqueles que nunca falaram contigo, pessoas que escolheram falar para toda a gente ao mesmo tempo. Gente de todos os tempos. Tipos como o Debussy. Preferiste morrer porque já não querias ouvir mais nada a não ser os ecos do teu sonho.
Não se pode viver a sonhar com o passado. O suicídio foi apenas um tiro. E o tiro foi apenas uma formalidade.
Desculpa se pareço cruel. Acredita que o teu destino me tocou.
Li aqui o comentário deste blogger ao que se tinha passado. Não chorou nem lamentou porque terá tido a mesma percepção que eu e resolveu citar Andre Malraux: “Quem se mata corre atrás de uma imagem que forjou de si próprio: as pessoas matam-se sempre para existir”.
Estás a ver, Hélder? Afinal somos todos como tu: uns complicados de merda. A diferença é que isso nos inspira a viver.





























