→ 07/07/2008 @4:47

Gengis, o público, o Teatro e o restaurante

E o teatro? Vai contra a corrente dos tempos. Reparem bem no mundo em que vivemos. Os meios de comunicação social têm a tarefa de nos dar uma visão resumida do mundo e, na maior parte das vezes, essa visão é construída à pressa por causa dos dead lines. Estamos habituados desde putos a raciocinar e formar opiniões sobre castelos de areia feitos por outros. Não importa que o mar os destrua no minuto seguinte, porque a cada passo que damos novos castelos se formam. O sistema em que vivemos não depende da qualidade de construção desses castelos, mas da rapidez com que os podemos construir. Procuramos a rapidez e a funcionalidade, não tanto a qualidade. Ouvimos MP3 porque são mais rápidos de descarregar e mais fáceis de armazenar e transportar, não nos importando por aí além que a qualidade do som seja uma merda, porque não é a qualidade da experiência musical que valorizamos mas o seu carácter funcional.

As telenovelas, por exemplo, são um cancro da representação porque transmitem ao público consumidor a noção errada do que representar bem é imitar o que fazemos na vida real, sem subtilezas, desenganos ou surpresas. Não são actores, são fiteiros. Representa-se de acordo com paletes de emoções reconhecíveis pela maioria das pessoas e trabalhadas durante décadas e décadas de intoxicação televisiva. Assim se elogia a «naturalidade» de um actor, enquanto se critica outro por ser «demasiado teatral». Não sei se estão a ver até que ponto as telenovelas moldaram e subverteram os nossos gostos: «ser teatral» não é representar como um actor de teatro, é agora sinónimo de representar mal.

Maurice mostra o seu verdadeiro rosto

Maurice mostra o seu verdadeiro rosto (Foto: Pedro Polónio)

 

Também por isso é fantástico verificar como a peça Gengis Entre os Pigmeus desmonta a engrenagem consumista que consiste em criar gostos e necessidades artificiais para que depois tenhamos a ilusão de que foram satisfeitos e, assim, desejar consumir sempre mais. Estabelecida esta premissa com um enorme sentido de humor – é a primeira parte da peça – passamos à denúncia das atrocidades que se cometem para perpetuar essa ilusão consumista, como a exploração do trabalho infantil nas Filipinas (adorei o trabalho de luzes nessa parte!). É verdade, o facto de estar a ser representada no edifício da Caixa Geral de Depósitos também tem a sua ironia.

E depois temos o ritmo da peça, que é fabuloso. Gregory Motton passa da ironia à denúncia, da brutalidade à ternura e do sarcasmo à esperança sem que um gajo se perca. O texto chega  a negar a sua  própria poesia para criar perturbação ou humor como é o caso do excerto com que abro o post: tanto encanta como desconcerta, tanto ata como desata. Baloiçando nesse fio condutor estão os actores, obrigados a ser super-dinâmicos e a esgotar-se fisicamente para que o ritmo das falas e da encenação nunca se perca. Só de ver o trabalho do Dinarte Branco (Gengis) ou da Inês Nogueira (Titi) um tipo fica cansado. Parabéns pelo talento e pelo esforço.

Estou a dar seca, não é? Vê a merda da peça. Se chegaste até esta fase do texto, ó valente, então é porque estás interessado no Gengis Entre os Pigmeus. Deixa as minhas filosofias e descobre em ti próprio o que te diz. Terás eventualmente uma interpretação diferente e até admito que possas não gostar, mas viverás uma experiência única ao invés de uma experiência estandardizada que não te é estranha nem incomoda mas também não tem capacidade de te surpreender.

Até mesmo um filme, e o bom cinema é uma coisa maravilhosa, está confinado a um ecrã, movimenta-se numa tela bidimensional que faz parte da vida mas não é a própria vida – em nenhum momento podemos afirmar que nos esquecemos completamente de que estávamos a ver cinema. Se o filme for realmente bom, podemos alienar-nos da vida lá fora, do tempo, da própria sala e das cadeiras pouco confortáveis; mas não perdemos a noção de que existe uma fronteira nítida entre nós, espectadores, e o próprio filme, ali na tela.

O teatro é a vida representada diante de nós, de uma forma livre e não estandardizada, sem fronteiras, enquadramentos, sofás, botões de volume e comandos à distância.  Dá-nos tudo e exige-nos tudo. Talvez para nos dizer isto os actores de Gengis se encontrem já no palco enquanto as luzes estão acesas e a malta ainda se está a sentar nas cadeiras. Eles estão ali à nossa espera porque sem nós não há teatro.

 


TIO: Não é preciso viajar, ‘tás a ver, agora temos isto.
GENGIS: O que é?
TIO: O que é? É um computador.
GENGIS: Oh, o que é que faz?
TIO: Tudo. É escola, biblioteca e bordel, tudo ao mesmo tempo. Até te chupa o caralho se quiseres.
GENGIS: Já fazem isso? Onde estão as pessoas?
TIO: As crianças, por exemplo, estão lá dentro a fazer os trabalhos de casa.
GENGIS: Devem ser muito pequeninas!
TIO: São. Mínimas! Era isto que eles queriam dizer quando falavam em reduzir o tamanho das turmas. As crianças são tão pequeninas que mal se vêem. É maravilhoso. Pode-se enfiar a vida toda dentro de uma coisa destas. Mas, para falar a verdade, não estão neste computador, elas, de facto, estão noutra central, noutro sítio.
GENGIS: Como me faz sentir orgulhoso, viver numa época tão estimulante.
TIO: Toda a gente sente isso. Qualquer nanograma de informação humana pode ser armazenado aqui, ‘tás a ver.
GENGIS: Maravilhoso.
TIO: Põe-nos em contacto com outras pessoas como nós para podermos trocar opiniões e factos.
GENGIS: Fantástico.
TIO: Queres tentar?
GENGIS: Posso?
TIO: Força.

Dinarte Branco como Gengis

Cibercunnilingus e a sociedade «estimulante» de Gengis  (Foto: Pedro Polónio)

 

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6 comentários

  • 1
    Michael C.
    com Firefox 3.0 Firefox 3.0 em Mac OS X 10.5 Mac OS X 10.5
    7 de Julho de 2008 - 10:59 | Link permamente

    Muitos parabéns pela escrita, mais uma vez… Vai ser complicado mas fiquei mesmo com vontade de ver a peça.

  • 2
    com Firefox 3.0 Firefox 3.0 em GNU/Linux x64 GNU/Linux x64
    7 de Julho de 2008 - 11:04 | Link permamente

    Obrigado, Michael. Se puderes vai ver, vale mesmo a pena.

  • 3
    com Firefox 3.0 Firefox 3.0 em Windows XP Windows XP
    8 de Julho de 2008 - 14:39 | Link permamente

    olha que a critica do público é perceptível. 8)
    deixo aqui só o inicio do texto:
    «Segundo momento de uma trilogia dedicada ao consumismo (iniciada com Gato e Rato (Carneiros), de 1995, e concluída com Férias ao sol, de 2003), Gengis entre os Pigmeus (de 2002) é uma verrinosa alegoria para os tempos modernos. Aqui destilam-se, num humor corrosivo, muitas das marcas registadas dos últimos anos: os totalitarismos encobertos, o namoro entre a publicidade e a política, a crescente exploração da mão-de-obra barata, a manipulação das massas, a solidão virtual, enfim, aquilo que é o dia-a-dia da civilização ocidental (ainda que o principal referente seja aqui a Inglaterra).»
    é escrito por Rui Pina Coelho

  • 4
    com Firefox 3.0 Firefox 3.0 em Windows Vista Windows Vista
    8 de Julho de 2008 - 14:45 | Link permamente

    Sim, eu li hoje também, Pedro. Não só é perceptível como é boa.

  • 5
    com Firefox 3.0 Firefox 3.0 em Windows XP Windows XP
    8 de Julho de 2008 - 16:32 | Link permamente

    só é pena terem trocado o nome ao Luís Mouro… 8)
    mas deve ser impossível de encontrar um artigo sem gralhas no público . :(

  • 6
    com Firefox 3.0 Firefox 3.0 em Windows Vista Windows Vista
    8 de Julho de 2008 - 16:39 | Link permamente

    Também não sei se concordo com o arrastamento da peça de que ele fala depois das Filipinas. Acho que dado o texto que ali está, a peça deve ser representada como se os actores tivessem speed na cabeça, com uma genica do caraças. Acho que alguns podiam mostrar mais «pica», pelo menos no dia em que vi. Falo por exemplo da actriz que faz o Tio porque o Dinarte é um tipo fantástico em palco. Não acho que seja atribuível a redundâncias no texto ou na encenação.
    Mas ao menos temos um crítico conhecedor que vê como a peça foi em primeiro lugar brilhantemente traduzida, isso também foi porreiro, ver esse trabalho reconhecido.