→ 18/06/2008 @12:42

Fernando Caetano (1935-2008)

Fernando Caetano

A primeira vez que senti tê-lo conhecido foi quando nos contou, a mim e à Susana, um almoço a sós com o filho. Não mencionou conversas, não entrou em pormenores que poderíamos considerar relevantes, mas relatou-nos o que ambos tinham comido com um embevecido sentido de detalhe.
Vi-lhe o sorriso nos olhos e fiquei secretamente comovido porque o Fernando vislumbrou numa ementa de restaurante as palavras de amor e carinho que pai e filho se envergonham de dizer à medida que envelhecem.
A refeição era a base a partir da qual este homem reservado, tímido e bondoso fortalecia as relações com os que lhe eram mais próximos. Tal como o gastrónomo Anthelme Brillat-Savarin, o meu sogro acreditava que «os animais pastam, os homens comem, mas apenas o homem de espírito sabe comer». Em todos estes anos nunca o vi sentar-se à mesa de um restaurante com quem não sentisse afinidade. Era um homem íntegro.

Acabou por não ter todas as refeições que o seu espírito merecia. Perdoa-me, Fernando, por ter tido sempre um estômago tão insensível. E obrigado por todos os bitoques mal passados e coca-colas que me aturaste.