→ 15/09/2006 @19:25

Feitos um para o outro

Perco-me. Tens uns olhos que parecem estrelas de outra galáxia: distantes e frios. Que acontecerá se me atrever a viajar rumo ao desconhecido que tu representas? Transformar-me-ei numa rocha desértica e errante? Que dizes, miúda? Se descobrir o brilho e o calor dos teus olhos, ficarei tão preso a ti como a Terra está ao Sol?
E se me aproximar demasiado? Serei um planeta queimado e sem vida como Mercúrio? E se não arriscar? Serei o Marte gélido?

Procuras qualquer coisa? Estarás a querer livrar-te de mim? Tentarás descobrir amigos ou conhecidos nas outras mesas? Porque razão essa possibilidade me parece tão catastrófica quando qualquer pessoa com discernimento apenas observaria uma rapariga pedindo mais um café?
Vai um cigarrito? Preciso de recuperar o domínio sobre o meu corpo. Não fumei muito hoje. O cigarro liberta-me. Faz-me bem. Acalma-me. Gosto do fumo quando começa a pairar entre os dois – como se estivéssemos a criar uma terra de ninguém onde podemos caminhar sem nos comprometermos com a paz, a guerra ou o amor.

Nem sei o que estou a dizer. Cada pormenor teu é digno de contemplação deslumbrada e silenciosa. Atira-me uma pedra à cabeça, rapariga, e nem me zango – elogio-te a pontaria.
Só deitaste metade do pacote de açúcar no café. Medo de engordar? Preocupação com a saúde? Sinto-me comovido – e não sei muito bem porquê. Será porque neste simples gesto banal experimento a intimidade quotidiana que secretamente desejei para nós desde o primeiro segundo em que te vi? O mais provável é estar doido da cabeça.
Não te direi nada, por enquanto. Os teus lábios contrair-se-iam num sorriso embaraçado e então, nessa altura, saberia que tudo estava acabado antes sequer de começar.

Que quer este tipo? Sentar-se na nossa mesa? Filho da mãe. O gajo sorri e pergunta-me se pode. Se podes? Ó grandessíssimo cabrão, então não podes? Senta-te! Estraga-me este momento – vá, pelintra de merda, fica à vontade!
Força – digo eu, tão caloroso como um ferro de engomar. – Estás bom?
Pergunta retórica, claro. O tipo está sempre na maior. É simpático e prestável. Parece que é bancário. Quase gerente. Um sucesso de vendas.
Estás a conversar ou a fazer publicidade a um banco, pá? Grande idiota. Queres meter-me a miúda num daqueles anúncios onde os clientes do banco estão sempre felizes porque nunca lhes falta dinheiro para comprar? Sorriem porquê? Por lhes darem o privilégio de ser roubados mais depressa? Por terem de pagar quase o dobro do dinheiro que deveriam gastar? Porque, ao fim de uma vida de trabalho e sacrifício, desejam que ao menos o sítio onde comem e fodem e sonham seja realmente deles? E andas tu a ajudar os bancos e os empreiteiros a enriquecer à nossa custa?
Vá, ignora-me, miúda. Escuta-o enquanto fala alegremente sobre o vazio da sua vida. Deixa-o inclinar-se sobre ti. Digo-te aqui e agora, ó Ruizinho de merda. Posso parecer indiferente e distante, mas estou a ferver por dentro. Vejo-te a babar para ela e só me dá vontade de te mijar em cima. Só para ver se manténs a pose. Só para te sujar essas roupinhas lindas que te ficam tão bem. Com licença. Já volto!
Ouviste bem, filho da mãe. Não disse até amanhã ou até logo, disse já volto. Não penses que me levas a miúda na tua carruagem de cavalos cancerígenos. Sabes o que és? Um boneco de chocolate envolto em papel brilhante. Um Action Man.

E o gajo não descolou. Porque será que ela está a pagar a conta? Vão-se embora, os dois? Não terão sequer a decência de esperar por mim? Terei sido apenas um companheiro de transição – autocarro que se apanha e larga e se esquece imediatamente?
Ela vê-me. Sorri maravilhosamente. Parece desculpar-se, mas já não tenho a certeza de nada. Quando se aproxima de mim está outra vez pensativa. Adoro-a quando se ri. Adoro-a quando se põe séria. Provavelmente ainda a vou adorar mais se chorar ou fizer uma careta. Estou perdido. Pergunta-me se eu também quero ir? Onde? Com quem? A uma discoteca com o grupo de amigos daquele badameco?
Miúda. É agora ou nunca. Mesmo aqui à frente de toda a gente. Estou-me borrifando para as consequências. Escolhe: eu ou o mundo.
O Universo à nossa volta perde consistência como estivéssemos destinados a viajar à mesma velocidade, para sempre. És o meu tempo e o meu espaço. Só tu existes. Puxar-te-ei com força para mim e mostrar-te-ei a medida de todas as coisas que existiram e existirão. Vou tentar dizer-te o que ainda não fui capaz de dizer. As palavras estão aqui. Na minha boca. Impedidas de se soltar.
Uma discoteca, miúda? Trocas-me por um sítio onde não se consegue conversar e se ouve música de merda a noite toda? É essa a tua noção de divertimento? Que mais gostarás tu de fazer que eu detesto? Quem és tu, afinal?
Desculpa. Não posso. Não gosto. Não dá.
Pode ser que a gente se encontre. Talvez te telefone. Talvez me feche num silêncio mais perpétuo que o de uma estrela em colapso porque é assim que me sinto: cada vez mais fechado sobre mim próprio. A minha noite chama-me. Sou um lobo, miúda – e respondo apenas ao apelo do meu próprio luar.

ELA
Quando me interesso por alguém faço questão de estragar tudo. Não é uma atitude calculada. É uma questão de pôr os pontos nos is. Às vezes sinto-me mal.
O que ainda me surpreende é a facilidade com que os tipos podem ser afastados. Nem preciso de ser mal-educada ou brutalmente directa. Muitas vezes basta mostrar que sou absolutamente segura de mim. Ou fazer-me de tontinha.
O que nunca falhou até agora foi a gargalhada.
A minha gargalhada pode ser uma arma temível, sobretudo se do outro lado estiver um tipo sério falando de si e dos seus gostos e afazeres com uma sensibilidade enjoativa. Dá-me vontade de rir. É quase incontrolável. A catedral que ele construiu meticulosamente naquela noite desfaz-se em segundos como se fosse feita de merda seca. Depois é vê-lo ressabiado, mortalmente ofendido e perdido para sempre. É um espectáculo inesquecível observar um macho reduzido à sua dimensão umbilical.
A minha sensação de culpa tem mais a ver com o medo de ser injusta do que com qualquer outra coisa. Que oportunidades terei perdido por agir assim? Dos homens que se cruzaram na minha vida, quem terá querido ser autêntico? Saberei ainda perceber a diferença? Conseguirei recordar tantos rostos mortificados pelas luzes pálidas dos cafés?
E porque raio as mulheres terão de fazer tudo em função dos homens? Porque raio ficarei preocupada? Porque não me divirto com as amigas sem pensar em mais nada – como fazem eles? Porque terei de questionar as minhas reacções só porque parecem absurdas ou cruéis aos olhos de quem nunca fez um esforço para me compreender?

Contigo tudo é diferente: não te conheço e não me importo.
Se te abrisses comigo copiaria todas as tuas palavras para o bloco de notas da minha mente para poder relê-las mais tarde, quando estivesse sozinha. Ficariam alojadas naquela zona secreta e quase esquecida do meu cérebro onde palavras como amor ou confiança são escritas ainda com uma caligrafia infantil. Como avaliar-te, doce e silencioso guerreiro?
Um gesto teu e serei uma parva.

Gosto das tuas mãos. São mãos de pianista. Por favor, não fumes. Não acendas esse cigarro. Ainda não. Ainda não acabei. E se eu permitisse que o meu corpo fosse o teu instrumento de prazer e recolhimento? Que notas e acordes escolherias para celebrar tanta entrega? Conseguirias perceber que o acto mais corajoso e altruísta do amor seria dar-te poder sobre mim? Estarias preparado?

Dez da noite. A hora em que os verdadeiros noctívagos saem de casa para jantar. As mesmas caras de sempre, imutáveis e familiares. Sons. O riso frenético das amigas. As exclamações viris dos amigos. Que aconteceria se dez anos passassem em cinco segundos? Provavelmente ainda estariam todos na mesma posição, conversando sobre os mesmos temas e ocupando as mesmas mesas.
Eu gosto disso. Ver pessoas. Cumprimentá-las. Dizer piadas e disparates. Beber uns copos. Rir-me feita parva. É uma bênção, rir sem razão aparente. Percorro as esplanadas como quem vai tomar banho na praia para nadar à superfície de um mar calmo.
Tu és um homem das profundezas. Que farei? Mergulhar e ficar lá contigo para sempre por querer desesperadamente trazer-te à tona? Vale a pena arriscar? Se ao menos pudesses ver o mundo com os meus olhos.

Vem comigo. Vem comigo sem condições.
Por favor, não me julgues. Não queiras lutar apenas segundo as tuas próprias regras. Este é o momento-chave da noite: o momento em que tentarás superar-te não de acordo com o que idealizaste mas de acordo com o que eu necessito. É assim tão difícil de entender o desafio que te coloco?
Não chega ver-me aqui parada no meio do café à espera que te decidas? Que pretendes? Que implore? És demasiado importante para que eu me anule dessa forma. Quero ser igual a mim própria. Posso? Posso sê-lo ao pé de ti? Ao menos ao pé de ti? Por favor…
Ficar contigo? É tudo o que eu quero. Olha para a noite. Vê o cobertor de estrelas no céu. É nosso, para nos aquecer quando fizermos amor. Eu dou-te tudo – mas exijo tudo. Quero que saibas estar comigo. É a minha condição. A única. É inegociável. Estarás disposto a dar-me o que eu quero receber?
Portanto ficas.
Quem és tu, afinal, meu príncipe desencantado? O primeiro guerreiro que eu encontro e não tem armas para lutar por mim? Sei o que vai acontecer. O silêncio. O silêncio mortiço do esquecimento e do desprezo. Tanta solidão transformada em orgulho. Pois este é o momento-chave de todas as noites da minha vida: o momento em que forço um adeus definitivo sem uma gargalhada ou sequer um sorriso. Este é o momento em que eu sobrevivo e tu, meu amor, desvaneces.

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