→ 09/11/2006 @18:50

Explicações do Horror

Elisângela Rosa Camargo

Os factos: uma dona-de-casa brasileira, Elisângela Rosa Camargo, de 25 anos, residente em Jundiaí, no bairro Almerinda Chaves, matou os dois filhos (um rapaz de seis anos e uma menina de 19 meses) com uma serra eléctrica.

Quando o pai, Gilmar Oliveira, chegou a casa do trabalho, encontrou as cabeças das crianças praticamente separadas dos corpos.

Capturada pela Polícia Militar no Terminal Rodoviário de Bauru – cidade localizada a 345 quilómetros de São Paulo – a mulher confessou os crimes mas não os soube explicar de forma coerente. Depois de matar os filhos, contou ela, foi tomar banho, juntou as economias da família e apanhou um autocarro para Bauru. Afirmou que estava «nervosa» e então «fiz isso com as crianças». Ela descreveu à polícia exactamente o que fez e o que aconteceu enquanto matava as crianças. Os pormenores são sórdidos, não os repito aqui. Segundo a família, Elisângela mostrava sinais de depressão e chegaram-lhe a marcar consulta com um psicólogo, mas ela julgava que era suficiente a orientação que recebia do seu pastor da igreja Deus é Amor.

Mais vale tentar colocar as emoções de parte: horror pela violência, raiva contra a assassina, compaixão pelas pobres crianças. Tentar compreender o que leva uma pessoa a fazer uma coisa destas é mais difícil. Uma mãe matar os próprios filhos não é considerado natural: mais natural é imaginar uma situação em que podemos sacrificar as nossas vidas pelos filhos – e não o contrário.

Mesmo aqueles que não têm filhos podem sentir, perante as crianças, sobretudo as mais pequenas, um sentimento de protecção que é reflexo, suponho eu, da nossa cultura, do nosso sentido moral e de um imperativo biológico que consiste em dar continuidade à nossa espécie.

Lembro-me de ter visto um vídeo qualquer de apanhados em que era colocado sobre o tejadilho de um carro um carrinho de bebé com um bonequinho muito realista lá sentado. A reacção de grande parte das pessoas foi de pânico, pois julgavam que o dono do carro se tinha esquecido da criança e queriam impedir que ela se magoasse. Algumas pessoas chegaram a colocar em risco a sua própria integridade física, colocando-se diante do carro e obrigando-o a travar a fundo. Esta é a atitude que esperamos de pessoas que partilham o mesmo estilo de vida que nós.

Já uma vez escrevi aqui, não me lembro quando, que uma tragédia é sempre uma tragédia, quer ela envolva uma pessoa ou milhares. A morte daquelas crianças deixa-me uma pedra no estômago, mas todos os dias, em nome de razões de Estado ou da Real Politik (no fundo vai dar ao mesmo), morrem muitas mais. A dor é sempre dor, e não é a sua multiplicação que a torna maior. Mas penso que, de alguma forma, existe um processo de distanciação artificial que opera entre seres humanos – um processo agindo nas sombras de um assassínio ou de uma guerra. E é precisamente por isso que eu digo que as mortes de crianças inocentes – às mãos de uma mãe ou de um general – estão relacionadas porque são ambas contra a natureza humana – embora, no caso da guerra, nos queiram convencer do contrário.

Numa luta mortal de seres contra seres da mesma espécie, a distanciação imposta aos soldados tem nas fardas o seu símbolo mais vistoso. Cada nação, ou grupo de nações, tem a sua própria farda – e vesti-la permite distanciar seres humanos e criar, de forma artificial, uma subespécie de homens mentalizados para destruir outras subespécies que também são criadas artificialmente.

Pensem naquelas lutas semi-organizadas entre claques de futebol de clubes diferentes: andariam eles todos à pancada se não usassem as camisolas e os cachecóis, ou seja, as fardas? O princípio é o mesmo.
Esta distanciação é conseguida à força da disciplina e de conceitos abstractos como “patriotismo” e “justiça” ou seja lá o que for que aos falcões der jeito inventar. George Bush invoca Deus e a Democracia, por exemplo. Os fundamentalistas islâmicos invocam Deus e o Islão.

Mas como dizia um soldado americano que combatia no Vietname, no filme Nascido Para Matar, de Kubrick, «Democracia é apenas uma merda de uma palavra. Se andamos aqui a combater por uma palavra, então eu prefiro combater pela palavra Foder, que é a minha preferida».

O objectivo das fardas é colocar sucessivos obstáculos ao nosso sentido moral que nos diz que o soldado inimigo é um ser humano como nós e que, em circunstâncias diferentes, não nos passaria pela cabeça matá-lo. Se nos recusarmos a usar fardas, visíveis ou invisíveis, é mais difícil que os Donald Rumsfeld deste mundo convençam os povos de que a guerra faz todo o sentido. Porque não faz. Não faz mesmo.

Quando a guerra se propaga de tal forma que não é possível fazer uso da Razão, então estamos perdidos. É assim que se sente o rapaz do filme de Elem Klimov, Vem e Vê: Requiem para um Massacre, quando lhe é feita a pergunta fundamental: Conseguirias matar Hitler, mesmo que ele fosse um bebé? [ver post]

Neste episódio da mãe que matou os filhos, seria importante que os jornalistas – além de fazerem eco do «choque» que as pessoas sentiram com a notícia (o óbvio) – tentassem investigar de que forma vivem essas pessoas, qual o grau de pobreza, educação, a que cultura têm acesso e de que maneira as ilusões da televisão e das telenovelas lhes moldam os sonhos e as expectativas.

Dizer – como li algures num fórum brasileiro – que aquela mulher estava possuída pelo Demónio pode até ser um bom ponto de partida, desde que não seja um demónio bíblico. Invocar este tipo de demónio é o mesmo que dar o assunto por encerrado, pois ninguém precisa de questionar as razões do demónio – ele é simplesmente mau, pronto, e por isso está no Inferno à espera daquela mãe e de todos os outros maus.

Se os jornalistas brasileiros fizerem essa investigação, é possível que descubram o Demónio e vejam que este, afinal, nem sempre tem cornos e cauda.

Edward Bond escreveu um texto sobre a natureza humana.

Ele defende que a natureza humana é um vazio que espera ser preenchido pela cultura. Eu identifico-me com esta visão: não confio nos deuses, nos capitalistas ou nos comunistas para a preencher – e os restantes políticos parecem gostar mais de votos que de Povo.

Resta a cultura. Não digo cultura naquele sentido chato, demasiado académico, vicioso ou pseudo-intelectual, mas como uma forma bem porreira de não perdermos contacto com os outros e com o que nós somos e nos podemos tornar. Ou seja, dar importância às palavras e ao que elas significam. Ler, aprender, perguntar, ler, aprender e perguntar outra vez, recolher informação, ser um apaixonado da informação, interpretá-la, seleccioná-la – e aplicar o conhecimento adquirido nos temas que interessam. Um ciclo infinito de assimilação e partilha. O desenvolvimento de software Open Source é resultado desse ciclo, só para dar um exemplo dentro da área privilegiada do Bitaites. E fazer um blogue também, já agora.
Se não têm pachorra para ler o texto na íntegra – compreensível, pois nem sempre temos tempo para fazer tudo o que queremos – pensem ao menos no significado deste excerto:

Edward Bond

Nós não temos uma natureza fixa do mesmo modo que os outros animais têm. Nós temos um ‘espaço’ reservado pela liberdade que temos em relação à natureza prisioneira dos animais, ao controle apertado dos seus instintos. Este espaço é preenchido pela cultura. A natureza humana é de facto cultura humana. O grau de cultura é medido pela sua racionalidade. A racionalidade é a base da discriminação entre culturas boas e más. E como a natureza humana é a cultura humana, a natureza humana é social. Os homens que vivem numa sociedade irracional são conduzidos a uma espécie de loucura, porque essa sociedade não vive num estado fixo e estático, deteriora-se e acaba por cultivar activamente a ignorância e combater o conhecimento. Tal sociedade não pode ser estabilizada pela tecnologia, por muito brilhante que seja. Pelo contrário, a tecnologia pode ser um perigo. A negligência das instituições sociais (…) afecta-nos de muitos modos. Não apenas separa os indivíduos uns dos outros, como separa o indivíduo de si próprio e o despedaça por dentro.

Louca, assassina, mas primeiro despedaçada por dentro.
Só pode ser.

Um comentário

  • 1
    Marcio
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    10 de Abril de 2008 - 19:17 | Link permamente

    Olá amigo, muito bom o seu texto sobre o assunto. Vc foi capaz de analisar de forma imparcial o ocorrido com a mulher.

    Abaixo segue meu profile no orkut, gostaria de que se pudesse me adicionasse, pois seria uma honra pra mim, manter contato com vc.

    http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=230015963139873813