Eu aprendi a conduzir, mas não tenho carro. Esperem. É mais do que isso. Não ligo nenhuma aos carros. Esperem. É ainda mais dramático. A minha indiferença em relação aos carros é tal que raramente os distingo uns dos outros.
Sei que têm quatro rodas e estou convencido de que este número é uma regra geral. Portanto temos quatro rodas, quatro pneus, quatro jantes, duas ou quatro portas, um volante, uma buzina, um tubo de escape, vários engarrafamentos, um sistema nervoso feito em merda, enfim, segundo as minhas contas é mais de vinte na escala de stress.
Esperem. Isto é capaz de ser muito pior. Ainda hoje tenho dificuldade em reconhecer o carro da minha mãe, por exemplo. Sei que é um Seat Volkswagen Golf cinzento qualquer coisa, mas por mais que me esforce não consigo visualizá-lo. Posso aperceber-me da sua chegada pela forma como buzina para chamar a minha atenção, mas não por características específicas só possíveis de captar por quem não é um cromo das passadeiras como eu.
Só olho mais demoradamente para um carro quando me lembro que evitar ser atropelado é uma atitude em geral bastante conveniente para quem anda à pata. Ainda bem que para estas coisas tenho boa memória. Sempre é menos desagradável andar à procura das chaves do que andar à procura de metade da perna. Sabem, os carros têm essa característica irritante: obrigam-me a prestar-lhes atenção por uma mera questão de sobrevivência. Se alguma vez tiver de me sentir esmagado, que seja ao menos por uma ideia ou um pensamento – um veículo poluente de quatro rodas já não tem tanta piada.
Se calhar é por isso que se diz que a cidade é uma selva: os carros são os predadores e nós somos as suas presas. Quem se atreveu a andar de bicicleta em ruas movimentadas de Lisboa sabe muito bem do que estou a falar. Esperem. Deixem-me lá rematar o assunto com uma última frase. Os carros não passam de manchas difusas de cores variadas, barulhentos, malcheirosos, arrogantes e – julgo eu mas não ponho as minhas mãos no fogo – sempre a chorar a horas impróprias só para mamar mais um biberão de gasolina.
Sou assim desde que me conheço. Eu sei, um cromo. Um protogeek em calças de ganga bem ajustadas ao cu (1), que eu cá não gosto dessas modernices de andar pela rua com as calças pelo joelho. Dado que sou assim desde que me conheço, posso garantir-vos que já ouvi todo o tipo de comentários sobre as minhas opções. Costumam variar entre um És mesmo parvo, pá e um És mesmo parvo, pá. Portanto escusam de me tentar abrir os olhos para o facto óbvio de que um carro não se tem apenas por gosto, mas por utilidade. É escusado falarem-me em situações de emergência: sei bem que ter um carro dá muito jeito. Os taxistas, por exemplo, adoram-me.
O problema é que, em situações normais, não gosto de ter pressa. Detesto. Há malta que se põe a correr desenfreadamente quando ouve o apito de fecho de porta dos comboios. Estão transformados em cães de Pavlov e nem se dão conta. Depois há quem lute encarniçadamente por um lugar sentado com vista para o Inferno. Senhoras mais idosas mas secretamente saudáveis e enérgicas são as mais competitivas: por cada velhota do Metropolitano há sempre uma Vanessa Fernandes em potência. E algumas têm mau perder.
Quanto a mim, interpreto o apito como um sinal para parar e beber um cafezito. Ir todos os dias para Lisboa é um suplício, não percebo por que razão terá um tipo de se esforçar para que o suplício comece o mais depressa possível. Cumprir horários? Eu sou um grande defensor da preguiça, desde que devidamente enquadrada em termos filosóficos.
Esperem. Os carros. Que posso dizer mais? Quando cheguei à idade em que finalmente podia endividar-me para comprar um carro, preferi estoirar o dinheiro numa aparelhagem, em CD, cassetes, livros, filmes, computadores. Sabem, é aquela cena: o caminho mais curto nem sempre é o mais rápido. O trabalho mais bem pago nem sempre é aquele que te faz mais feliz. A moral da história dá sempre jeito para acabar um post. E uma pequena nota de rodapé também.
(1) Ao contrário do que alguns possam pensar, o cu assenta-se mas não leva acento.






























8 comentários
O que é que eu posso dizer? Apoiado. Fica sabendo que não és a única pessoa por aí a odiar carros
Eu penso exactamente da mesma forma. Também detesto correr para apanhar o autocarro ou o comboio e normalmente não o faço.
Não tenho carro nem carta e nunca senti a falta nem dum nem doutra, excepto agora, que sou pai e tenho uma bebé que não dá jeito nenhum transportar nos transportes públicos, nem sequer nos passeios cheios de carros que não permitem a passagem ao carrinho de bebé.
Mais ainda, acho que vou precisar de carro em São Tomé, se me mudar para lá. Não há transportes públicos e não podes contar com os taxis.
Tão mas tão…
O gajo parece eu… Este português mata-me. A sério. Mata-me. Vamos todos escrever brasileiro?
pois que também não tenho carro. Bem, a minha mulher tem. Mas eu não. A prestação do mesmo (incluindo gasosa e seguros) vai direitinha para viagens, livros, filmes e comida. Boa. Em quantidade considerável. Tenho carta porque fui obrigado a ter e assim que a tive lancei-a (literalmente) sobre a mesa de quem a pediu dando origem ao diálogo seguinte:
Chefe: Para que é que eu quero isso?
Eu: Para o mesmo que eu.
Chefe: E isso é?
Eu: Para nada.
Chefe: Chame um táxi e vá mas é fazer o seu trabalho antes que a gente se aborreça…
Estás para os carros como eu para as motos, com uma pequena diferença: eu sei distinguir uma Casal Boss (veículo mítico em qualquer aldeia do Tuguistão) de uma DT.
Mas adoro o meu carro. Dá um jeito do caraças tê-lo, principalmente quando não se apanhem nem filas nem bichas. Efeitos de viver no cu do mundo, onde o sol ainda brilha mas já não estão as botas do judas.
Eu tenho carta e carro, mas também não sou apreciador de carros. Uso-os exclusivamente para transporte e andar cá a distinguir marcas e modelos não é para mim.
Admiro quem não tem carro hoje em dia.
Mas também é só para quem vive perto/na cidade, pois eu sou da aldeia e transportes públicos aqui não existem!!!
Se fosse aqui há uns anos atrás ainda podia pedir boleia à minha avó e iamos de carroça e burra….
E como estou a ~30 kms da civilização tenho mesmo que ter carro.
Mas no futuro não quero gastar dinheiro com eles.
Uma coisa qualquer com Ar Condicionado chega-me…
eu sou um fiel apreciador de carros e não passo sem o meu.
é ambíguo, mas cria uma noção de liberdade, pois só estamos dependentes do (nosso) carro.
mas para mim continua a ser mais uma ferramenta que utilizo no dia-a-dia do que algo a que preste toda a devoção (prova disso é que deixei o meu carro em casa para alguém o levar à inspecção)
Bem, como alguns disseram, carros é bosta mas quando se vive na aldeia a alguns km de alguma coisa e os únicos transporte públicos são a "carreira" que passa de manhã e duas a três vezes ao dia torna-se complicado não ter um. Lembro-me de ter que me levantar as seis e meia para poder apanhar uma dessas e assim ir pro secundário. Chegou universidade e nem sequer transporte públicos eram precisos até que para continuar a jogar futebol lá tive eu (o meu pai diga-se de justiça) tive que comprar um pra poder estourar os míseros tostões que recebia ao fim do mês em gasóleo. Decisão continuar a estudar no estrangeiro e carro parado, meio ano e vendido pra comprar portátil que o velhinho avariou, agora cá fora e na cidade já posso usar transportes públicos.
Mas o ponto que queria chegar mesmo é que como a cidade é uma coisa que espero ser temporária, e a casinha no campo terá que ser obrigatória, carro indispensável. Já ando a treinar com trenós, daqui a uns tempos passo a rebocar carros que ao preço que a mama anda vai ser mesmo preciso, ou isso ou é eléctrico que comas guerras que andam para ai não tarde o gás vai pelo mesmo caminho.
Apesar de tudo, graças a vós que tornam os carros indispensáveis, mais assim venham!