→ 25/07/2007 @4:05

Estranhos Fenómenos

Considerem este post como um blogue dentro de um blogue. Dada a sua possível extensão e a minha falta de tempo, vou escrevê-lo às mijinhas – e sempre aqui. Cada segmento que acrescentar será dividido em páginas (posts) pelo que os eventuais interessados em seguir esta bizarra história poderão fazê-lo sem problemas. Basta seguir para a página 2, e assim sucessivamente… Siga.

Os acontecimentos que desgraçaram a minha vida depararam-se-me quando abri o armário com a típica displicência das manhãs. Às sete horas, acabado de sair da cama, mal consigo distinguir se estou a bocejar ou já comecei a lavar os dentes. Acabei por me safar sem tropeçar ou praguejar e vesti-me normalmente. Quando já estava à procura das chaves de casa para sair, senti uma corrente de ar na minha nádega esquerda.
Aquilo era muito estranho. Mirei-me ao espelho como fazem as raparigas, isto é, virando-me de costas e olhando por cima do ombro com ar desconfiado, e descobri um rasgão no cu das minhas calças de ganga. O rasgão tinha, à vontade, uns bons três ou quatro dedos de largura.
Deu-me logo vontade de partir o armário a pontapé. Só não o fiz porque, no último momento, me lembrei que não convinha estragar também os sapatos, pois eram novos. Foi então que notei que os sapatos, engraxados e arrumados de véspera, estavam mais gastos que o sorriso da minha vizinha do andar de cima.
Sempre pensei que a graxa está para o tecido dos sapatos como as loções de beleza estão para a pele das pessoas, por isso senti-me aldrabado: parecia que, em vez de os rejuvenescer, lhes passara com uma lixa em cima e que essa lixa estava impregnada com porcarias que envelhecem as pessoas enquanto são jovens, como os sonhos não concretizados ou um primeiro amor não correspondido.
Depois ainda foi pior: uma exploração preliminar ao armário mostrou-me horríveis rasgões em toda a minha roupa. Dir-se-ia que um serial killer passara por ali sedento de sangue e, furioso por não descobrir nenhum corpo para mutilar, decidira vingar-se nas roupas. Estava tão furioso que nem notei que os cadáveres das camisas e dos casacos tinham caído dos cabides e se enrolavam ao meu pescoço como pálidas serpentinas. Descobri então, já com uma surpresa resignada, que a maior parte dos cabides estavam partidos ao meio.
Agora já não podia sair de casa. Iria faltar ao trabalho, suportaria uma reprimenda do patrão, talvez um desconto no ordenado ao fim do mês, mas não havia maneira de enfrentar as ruas da cidade. Se me tivesse decidido a sair à rua nu, sempre se podia dizer que estava a marcar uma posição qualquer, fosse ela qual fosse; podiam dizer que era um excêntrico protestando contra o aquecimento global, por exemplo. Sair naquele estado não era carne nem peixe, não era sóbrio nem doido da cabeça, apenas bizarro e incompleto como se tivesse saído de um filme a preto e branco com as bobinas todas gastas.
Além disso, disse um Sherlock Holmes dentro de mim, havia ali um mistério para resolver. Não era possível que todas as minhas roupas se tivessem estragado durante a noite. O mais certo era tratar-se de uma invasão, pensei eu, e agora já me sentia tão animado como um detective chinês à beira de descobrir a pólvora do crime.
Portanto o que se passa, meu caro Watson, é mais simples do que supõe: estranhas formas de vida, provavelmente viscosas e cheias de patinhas, indiferentes às conquistas da civilização, organizaram um piquenique no seu armário e fizeram um banquete com as suas roupas. Formigas ou bichos com a mania que são formigas.
Coisas destas acontecem e, se formos a ver bem, são elementares: o objectivo dessas malditas criaturas é competir com o Homem pelo domínio do planeta. Tão inúteis e incómodas são que provavelmente foram criadas pelo Diabo enquanto Deus esfregava um olho. O mais aconselhável, meu caro Watson, é organizar uma expedição militar aos quatro cantos da casa e cometer um genocídio à chinelada – partindo do princípio de que os chinelos ainda se encontram em bom estado.
Duas horas depois, o Sherlock Holmes dentro de mim já se tinha retirado para o quarto, limpando nervosamente o suor da testa e dizendo que precisava de dormir umas horas antes de pensar melhor sobre o assunto. Restava apenas eu, um corpo anafado de Doutor Watson perdido na sala, bufando e dizendo asneiras, incapaz de encontrar sequer uma sombra de bicho.
E foi assim que dei por concluída a minha exploração militar: desabando sobre as costas do sofá, derrotado e dorido.
Parecia um sofá de porcelana, pois partiu-se em dois assim que me sentei.

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9 comentários

  • 1
    jack
    com Firefox 2.0.0.1 Firefox 2.0.0.1 em Windows XP Windows XP
    25 de Julho de 2007 - 04:41 | Link permamente

    interessante..
    fiquei curioso pra saber o que há de vir

  • 2
    com Firefox 2.0.0.5 Firefox 2.0.0.5 em Windows XP Windows XP
    25 de Julho de 2007 - 11:25 | Link permamente

    foi a mulher dele que se chateou de ele passar tanto tempo em frente ao monitor e rasgou-lhe a roupa toda. ainda aproveitou e rachou o mobiliário a meio.
    ó marco, não era mais fácil pôr-te as malas à porta???

  • 3
    com Opera 9.10 Opera 9.10 em Windows XP Windows XP
    25 de Julho de 2007 - 17:29 | Link permamente

    Tá mesmo mau isso! :shock:
    Ratos talvez? mas ao que parece não encontras-t praga alguma… foi o demo! :evil:

  • 4
    com Firefox 2.0.0.5 Firefox 2.0.0.5 em Windows XP Windows XP
    25 de Julho de 2007 - 20:01 | Link permamente

    Espera umas horas até os anti-psicóticos começarem a fazer efeito :lol:

    Grande imaginação e criatividade que tens. Já pensaste em escrever alguma espécie de livro? :wink:

  • 5
    com Firefox 2.0.0.5 Firefox 2.0.0.5 em Windows XP Windows XP
    26 de Julho de 2007 - 00:45 | Link permamente

    não sei…cá para mim isto é de um livro qualquer…não me acredito muito que te aconteceu isto…não sei…logo veremos :roll:

  • 6
    Joao Rodrigues
    com Swiftfox Swiftfox em GNU/Linux GNU/Linux
    26 de Julho de 2007 - 16:41 | Link permamente

    muito bem escrito… a espera mata-me, despacha-te la ó Marco :razz:

  • 7
    com Firefox 2.0.0.6 Firefox 2.0.0.6 em Windows Vista Windows Vista
    18 de Agosto de 2007 - 09:48 | Link permamente

    A história vem ou não vem :mrgreen: