→ 14/06/2005 @12:44

É o modelo, estúpido!

Um estratega da campanha de Bill Clinton em 1992 pendurou no seu gabinete a frase: “É a economia, estúpido!”. A ideia era mostrar aos outros colaboradores da campanha que tudo se relacionava com a economia: desemprego, inovação, indústria ou segurança social.
Esta semana lembrei-me desta história devido a um artigo colocado num fórum dos utilizadores da Caixa Mágica pelo André – aluno do ensino secundário que estava a fazer um trabalho sobre o Linux. A pergunta do André foi qualquer coisa como: “Porquê o Linux é melhor que o Windows?”.
A sequência de respostas tendeu para a indicação das vantagens e desvantagens do Linux e do Windows – o que não tem nada a ver com a pergunta original. Reparem na construção da frase. Não é perguntado “Quais as vantagens do Linux?” mas sim “Porquê o Linux é melhor do Windows?”
A razão para o Linux ser diferente tem a ver com o seu modelo de licenciamento. Apesar do modelo de licenciamento ser da esfera legal influencia a área técnica. E influencia os modelos de negócio. E influencia toda a envolvente. O modelo legal do Linux é baseado na licença GPL, criada por Richard Stallman, e defende: pode ser utilizado, modificado e distribuído sem autorização do autor, sem restrições quanto ao fim e sem ter de se pagar por isso. Este modelo é suficientemente confortável para que bons programadores dediquem tempo a melhorá-lo e suficientemente confortável para que empresas como a IBM ou Novell invistam no seu desenvolvimento. Sem colisões entre os dois mundos. É confortável ao ponto de haver migrações de milhares de postos de trabalho em cidades europeias ou dos POS numa rede de lojas com 200 postos de trabalho.
Para o André, a pergunta que conta talvez não seja o “Porquê?” mas “Quais as vantagens?”.
O Linux tem vantagens e o Windows também. O que se passa é que nós contabilizamos umas e outras e acabamos por escolher aquele que nos dá mais vantagens. A contabilização é feita de ano a ano quando fazemos uma actualização do computador ou adquirimos um novo. Para mim, o Linux desde 1996 que tem mais vantagens do que o Windows. Reconheço, porém, que pela dificuldade técnica nessa altura só 0,1% dos utilizadores contabilizavam da mesma forma que eu. Passados quase 10 anos, o panorama é muito diferente. Para além dos servidores em que o Linux se impõe com muita facilidade – veja-se o Apache -, o Desktop está a conquistar os utilizadores do Windows.
Imagino que, chegados a este ponto, o André se questionaria: “Se o Linux é tão bom porquê, apesar do seu crescimento, o Windows ainda é maioritário no mercado?”. Se eu estiver numa ilha deserta, sem conhecimentos de Linux, sem Internet, com 1000 pessoas e todas elas só souberem Windows, é viável utilizar Linux? Claro que não. Mas hoje já não existem “ilhas”. Com a Internet, as comunidades virtuais, as empresas que dão suporte ao Linux, cada vez mais as vantagens e desvantagens são objectivamente avaliadas.

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