→ 04/07/2009 @2:27

Do andar de baixo

De dia, fora do seu elemento, a minha vizinha do andar de baixo caminha pelas ruas cabisbaixa – faz lembrar um ponto de interrogação. À noite, depois de uns copos, arrebita: se está bem-disposta canta o fado e berra animadamente até às tantas da manhã; se o vinho azeda no percurso entre o estômago, o coração e o cérebro, discute com o namorado até às tantas. Nesses momentos os dedos devem transformar-se em pontos de exclamação.

A sua linguagem é a do Quim Barreiros. Bem, se calhar estou a ser demasiado benevolente porque acredito que o próprio se sentiria embaraçado por ouvir tantas ordinarices fora do contexto festivo do humor brejeiro.

Tornou-se rotina estar na sala a trabalhar ou a blogar e ser interrompido com os inúmeros insultos que lança ao namorado. De filho da puta para cima. Esses até nem são os piores ataques: de vez em quando as frases insultuosas dirigem-se para baixo e fixam-se na zona da braguilha.

A primeira vez que a ouvi questionar a virilidade do companheiro temi que acontecesse uma tragédia. Ferido de morte no seu orgulho, o homem responderia com violência. Cheguei a pensar em chamar a polícia. Engano meu. Ele nunca responde. Não reage. Talvez sinta que o seu silêncio gelado é uma forma de agressão mais violenta do que um grito ou uma bofetada.

Então o que passei a ouvir naquela torrente de insultos e injúrias deixou de ser anedótico: é a voz da mais terrível das solidões. Não é nada divertido, acreditem. As ofensas são declarações de amor que desabam sobre o outro como uma tempestade tropical e se evaporam sem lhe chegar a tocar. Em cada palavrão está subjacente uma única súplica: dá-me atenção. Qualquer tipo de atenção. Talvez ela chegue a pensar que um berro ou uma bofetada a fará sentir-se melhor. Mais mulher. Todas as noites luta pela sua sobrevivência emocional.

Ocasionalmente o triste homem dispõe-se a cumprir as suas obrigações. Oiço-a reagindo com o mesmo espalhafato. Até há pouco tempo não conseguia perceber se estavam a discutir ou a fazer amor. Os seus gritos são semelhantes.

Uma certa noite – eram quatro da manhã – ela já tinha bebido demasiado, mesmo para os seus padrões. Começou a discussão do costume.

Insultou-o vezes em conta e, cheia de raiva, levantou-se com a intenção, imaginei eu, de lhe bater. Em vez disso desequilibrou-se e caiu no chão com um grande estrondo. Então ouvi-a chorar porque magoara uma perna. Chorava como uma criancinha. Só lhe faltou dizer que tinha um dói-dói.

Pela primeira vez desde que nos mudámos para este apartamento ouvi aquele tipo a gritar. Parecia chateado por ser obrigado a lidar directamente com a fragilidade dela. Não sabia o que fazer e só conseguia berrar-lhe: «Acalma-te! Acalma-te!» Resolveu o assunto arrastando-a para a cama e esperando que o vinho tratasse do resto.

E assim, quase todas as noites, oiço a história de um homem e de uma mulher: duas pessoas inseparáveis que nunca souberam o que fazer um com o outro – excepto despedaçar-se.

22 comentários

  • 1
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    4 de Julho de 2009 - 03:15 | Link permamente

    Estou capaz de te fazer um convite, Marco.

    Preferiria forma mais directa de falar contigo, mas pode ser assim sem rede?

    Gostaria de, enquanto Convidado Especial do meu Blog – que faz o making off do meu próximo livro sobre Violência Doméstica – publicasses lá este texto estupendo que acabaste de postar.
    Seria uma honra para mim!
    Gosto muito da maneira como escreves e conduzes o teu espaço.

    Um abraço,
    Ana Martins

  • 2
    Rui
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    4 de Julho de 2009 - 09:06 | Link permamente

    Excelente texto Marco, parabéns, muito bem escrito

  • 3
    Rui
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    4 de Julho de 2009 - 09:52 | Link permamente

    Dos melhores textos li no Bitaites.

  • 4
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    4 de Julho de 2009 - 09:53 | Link permamente

    Excelente! Obrigado por nos oferecer, gratuitamente, crónicas de tão alta qualidade.

  • 5
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    4 de Julho de 2009 - 09:56 | Link permamente

    tens um “2º andar direito” como o Sérgio Godinho? :)

  • 6
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    4 de Julho de 2009 - 11:08 | Link permamente

    Grandioso meu caro parabéns.
    Assim como o Gil também eu me lembrei do Sérgio Godinho.

  • 7
    Mestre Slip
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    4 de Julho de 2009 - 13:11 | Link permamente

    Ao contrário do texto, a Vida desse casal é uma real merda…

    E aturas isso todos os dias? És um Santo :mrgreen:

  • 8
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    4 de Julho de 2009 - 14:03 | Link permamente

    Parabéns Marco. Deu um nó no estômago…
    Contudente, por saber não ficção…

  • 9
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    4 de Julho de 2009 - 14:05 | Link permamente

    .. e ela não escorregou: ele empurrou-a…

  • 10
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    4 de Julho de 2009 - 14:11 | Link permamente

    … e ela ficou feliz com um empurrão que derrubou a apatia do silêncio. E ela chorou, porque depois dessa voz houve luz. E com a luz, a esperança.

    (detesto realidades infelizes)

  • 11
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    4 de Julho de 2009 - 14:12 | Link permamente

    Como é sectária a imaginação feminina … :roll:

  • 12
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    4 de Julho de 2009 - 18:17 | Link permamente

    Ana, muito obrigado. A honra é minha. Podes publicar à vontade.

    E obrigado a todos.

    Respondendo ao Mestre Slip: não sou nada Santo. Eu e a Susana vamos aguentando porque os miúdos dormem do outro lado da casa (relativamente grande) e não dão por nada.

  • 13
    Tijó
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    4 de Julho de 2009 - 19:46 | Link permamente

    Bom post,parabéns
    Gosto do modo quando “brincas” com as palavras,o texto fica mais agradável de se ler,o mesmo já não se pode dizer da situação….desagradável mesmo.

    Quando o alcool entra na equação do casal descrito(ou de qualquer um)ficarão a um passo do abismo.A “pinga” nunca foi, nem será a cura para os nossos problemas,só os agrava.

    E o tiste resultado é esse aí … :(

  • 14
    Kodiak
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    4 de Julho de 2009 - 23:42 | Link permamente

    Este é sem dúvida dos melhores, se não mesmo o melhor, blog que visito.
    Tanto falas de alhos como de bogalhos. O pior, é que “falas” bem de qualquer um deles.
    Bons posts.

    Kodiak

  • 15
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    5 de Julho de 2009 - 04:21 | Link permamente

    Obrigado, Kodiak. Conseguiste meter o plugin a funcionar? É só fazer copy paste de um código da caca para o ficheiro index.php e está feito…

  • 16
    Kodiak
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    5 de Julho de 2009 - 11:04 | Link permamente

    Olá Marco.
    Tudo a funcionar ok.
    Obrigado
    Kodiak

  • 17
    paols
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    5 de Julho de 2009 - 11:21 | Link permamente

    O amor tem curiosas formas de manifestação, existe casais assim, como esse que nos deste a conhecer e o engraçado é que são muito felizes(ou não).
    Ela com a cabeça cheia de vinho, berra e ofende o companheiro e ele não responde ? nem sequer uma violência domestica? onde é que isto vai parar , já não há machos como antigamente e hoje em dia são elas que fazem chichi de pé lá em casa.
    Será que os homens estão a virar papoilas? cá comigo não! comigo era logo uma cadeira pelos cornos abaixo e dois estalos no focinho. :mrgreen: :mrgreen: :mrgreen: :mrgreen: :mrgreen: :mrgreen: :mrgreen: :mrgreen:

  • 18
    com Firefox 3.5 Firefox 3.5 em Windows XP Windows XP
    5 de Julho de 2009 - 16:28 | Link permamente

    Marco,

    Aceite o desafio que te lancei, já está o teu excelente texto no meu Blog.
    (Não sei se existe algum protocolo entre Bloggers, por isso desconheço se estarei a falhar alguma norma… se o faço é por inexperiência, explica-me por favor)
    Espero que gostes – até da música que escolhi.

    Um abraço,
    Ana Martins

  • 19
    Nuno Lorga
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    5 de Julho de 2009 - 17:49 | Link permamente

    Este texto faz-me lembrar aqui a minha rua e as manifestações de amor do casal do prédio da frente…Tão grandes que até tem que vir para a rua atirar-se para o chão e ser pontapeada.

  • 20
    Treza
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    5 de Julho de 2009 - 18:15 | Link permamente

    Excelente capacidade de exposição de uma situação tão complexa, para quem vive e para assiste de camarote sem outra escolha.

    Passa-se no andar de baixo do local onde moro, a qualquer hora do dia ou da noite, com o namorado ou pelo telefone em guerra aberta com as eventuais potenciais rivais ou ex melhores amigas. Tendo ainda a cereja no topo que é a vizinha de cima e sobre a qual já consegui escrever, a de baixo, os da frente e os vultos nos telhados são ainda difíceis de entornar num texto…

    Esta crónica é incentivadora. Obrigada.

  • 21
    com Firefox 3.5 Firefox 3.5 em Windows XP Windows XP
    6 de Julho de 2009 - 02:55 | Link permamente

    Diz a leitora TREZA: “Excelente capacidade de exposição de uma situação tão complexa, para quem vive e para assiste de camarote sem outra escolha.”
    Sem outra escolha?
    Claro que há outra escolha, para além de despejar num texto – DENUNCIAR!!!
    Violência Doméstica é hoje Crime Público.
    Bem sei… estou há demasiado tempo a pesquisar e a escrever sobre este tema e sou muito contundente.
    A estória que o Marco nos conta chega a ter uma beleza quase poética. É preciso muita sensibilidade para conseguir entender em que casal não se mete a colher.
    Mas há situações – e todos nós temos vizinhos abusivos – que continuamos a proteger com o nosso silêncio, com uma chamada telefónica que não fazemos para a PSP ou GNR local. Sendo Crime Público e a sabermos, permitimos o epíteto de cúmplices (que coisa linda!) do senhor ou senhora que grita, que bate, que insulta ou até *só* dá uns empurrões!
    E, se esta crónica é incentivadora – porque é – fica apenas no nosso poder de perceber se é caso de interferir ou não e, principalmente, se o queremos fazer ou preferimos olhar para o outro lado, ignorar e pôr a música um pouco mais alta.

  • 22
    Treza
    com Firefox 3.0.11 Firefox 3.0.11 em Mac OS X 10.5 Mac OS X 10.5
    6 de Julho de 2009 - 09:56 | Link permamente

    Cara Ana Martins,

    Agradeço a atenção que dedicou ao meu comentário, apesar de não compreender o seu motivo.

    A história que o Marco nos conta é quase poética devido ao humanismo com que abordou a questão. Ter os filhos a dormir longe dos gritos ajuda. É preciso filtrar muitas coisas para poder escrever uma crónica destas. É precisamente por não ter conseguido esse filtro que não escrevi sobre “a história de amor” dos meus vizinhos de baixo e pelas brutais semelhanças, que fiz o comentário.

    A “violência doméstica” a que assisto são os gritos, o baixo nível, sempre da senhora, que o rapaz (também) nunca se ouve. Não há violência física e a outra não é fácil avaliar por quem está de fora. Sem outra escolha significa que não posso pegar num comando e baixar o volume para não ouvir quando quero dormir e ocorre na divisão mesmo por baixo do meu quarto. Seria diferente se conseguisse descrever a situação de forma poética? Será que a existência de condições de dormir todas as noites confere maior sensibilidade para avaliar as coisas? Seria justo eu permitir que o meu cansaço transformasse a situação em violência doméstica, ou não estaria, nesse caso, a intervir pelo meu próprio descanso em vez de o fazer pela segurança dos intervenientes?

    Compreendo a sua revolta para com a passividade de quem assiste em silêncio à violência doméstica, mas não compreendo, de todo, que esta tenha sido dirigida ao meu comentário. Espero ter sido esclarecedora. Obrigada.