→ 19/03/2005 @1:58

Dia do Pai

Gosto do Mister Incredible. E não é só por causa do filme. Para alguém como eu é bastante saudável a noção de que um tipo barrigudo e com olheiras pode ser um super-herói.
O Mister Incredible permitiu-me recuperar a confiança quando, num certo fim de tarde, estava com o meu filho Francisco a jogar à bola e ele me disse: “Pai, estás a ficar gordo!”
Se não tivesse visto o filme da Pixar não teria tempo sequer de encolher a barriga e desmentir – mas vi! Por isso respondi-lhe logo: “Já tenho barriga, claro – sou igual ao Mister Incredible!”
Pronto, safei-me. Afinal nem todos os papás se podem gabar disso! Acho que até o consegui impressionar. Quase que consigo ouvi-lo dizer: “Uau… O papá é barrigudo. Parece o Mister Incredible!”
Se naquele momento tivesse desfilado na rua um daqueles gajos todos estreitos e musculosos, teria logo comentado: “Estás a ver aquele ali? Pff. Não se parece nada com um super-herói, pois não, filho? Não é como o papá!”
Mas estávamos a jogar futebol e a conversa ficou por aí. E ainda bem. Mais tarde ao mais cedo ele vai chegar à conclusão que sim, realmente o pai tem uma barriga quase igual ao do Mister Incredible… mas sem os músculos e a força do Mister Incredible.

Dessa já não sei como me vou safar. Talvez faça umas sessões de musculação antes que o pivete dê por isso. Ou pelo menos um bocadinho de ginástica. Talvez a Susana se ria quando ler esta parte do texto.

Esta de ser pai tem muito que se lhe diga. Ou que se oiça! Está uma pessoa a distribuir mimos e leva logo com recriminações. Lembro-me quando a Diana resolveu embirrar com a minha barba. Beijinhos? Não, que horror, a barba pica! Abraços? Ai que horror, a barba pica! Comer a sopa toda? Ai, que horror, a barba pica! Não queres que eu veja os Morangos com Açúcar? Ai, que horror, a barba pica!
Ser pai é cansativo, mas proporciona momentos deliciosos. Por exemplo, não sei se conhecem o Pro Evolution Soccer. É um jogo de futebol fantástico e é o único na PlayStation que tenho pachorra de jogar. E, a partir de uma certa idade, chutar com o pé que está mais à mão começa realmente a fazer todo o sentido…
Claro que o meu pivete também joga para acompanhar o pai. E muitas vezes nem precisa de mim, desafia o computador. Ora bem, no jogo existem vários níveis de dificuldade: jogar com uma estrelinha é muito mais fácil que jogar com cinco, por exemplo. E ele, como está a aprender, joga sempre com uma estrelinha.
Num certo dia estava o Francisco na rua a jogar futebol a sério com rapazes mais velhos e maiores do que ele. Começou então a sentir dificuldades: não conseguia fintar, não tinha velocidade suficiente, não conseguia segurar a bola. Às tantas, parou o jogo e disse: “Assim é muito difícil! Vamos jogar só com uma estrelinha!”
Eu sei que o dia do Pai é hoje, mas chego inevitavelmente à conclusão de que o verdadeiro dia do Pai pode chegar num fim de tarde qualquer. Depois ficamos assim: embevecidos, orgulhosos, guardando esses momentos, que são prendas, para sempre.