→ 10/05/2010 @14:59

Detrito 9

District 9

Ainda não pude ver «Moon», de Duncan Jones (o filho de David Bowie), mas já vi «District 9», do estreante Neill Blomkamp.

Eu gosto de ET’s e monstrinhos, de todo esse imaginário de FC e Fantasia, pelo que acima de tudo esperava que «District 9» fosse divertido – e foi.

A nave dos aliens aparece em Joanesburgo, na África do Sul, e não na América, evitando por isso ser descoberta por Steven Spielberg. Passada a euforia inicial do contacto, os ET’s acabam encerrados num campo de refugiados militarizado, tão miserável e sujo e abandonado como a miséria e a sujidade filmadas por Ettore Scola no filme «Feios, Porcos e Maus».

Foi disto que gostei mais no filme: a badalhoquice do campo de refugiados onde os ET’s foram «arrumados», em contraste com uma Joanesburgo repleta de arranha-céus e tecnologia e seres humanos «limpos», evitando assim o glamour místico e cintilante de Encontros Imediatos de Terceiro Grau.

O encontro entre duas espécies inteligentes – a história mais velha da FC – é contado a partir de uma premissa muito crua e sarcástica, reforçada pela opção de o filmar como se fosse um documentário – nos primeiros minutos, é realmente um documentário.

O paralelismo com o Apartheid é óbvio e dispensa tratados filosóficos: em vez de «pretos», temos «gafanhotos» camarões, o nome pelo qual são conhecidos os ET’s.

O filme acaba por sofrer uma metamorfose semelhante à do personagem principal: é dominado pela premissa surpreendente nos primeiros minutos, mas depois entra em piloto automático e desenvolve-se de forma previsível: a contaminação biológica do carrasco humano leva-o a sentir a segregação e exploração na própria pele, seguindo-se a cooperação e amizade com um dos ET’s, primeiro de forma interessada, depois de forma altruísta, levando à redenção final em que luta, lado a lado com o «camarão», contra os da sua própria espécie.

É verdade, a pronúncia afrikaner do actor é uma delícia e torna a experiência ainda mais divertida. As armas dos ET’s são fixes. Os próprios ET’s estão muito, muito bem feitos. A nave também.

«District 9» não consegue sustentar a originalidade que promete e por isso não o acho um grande filme, mas há ali qualquer coisa na pulsação louca da montagem que me faz lembrar o Terry Gilliam nos seus melhores momentos. E mesmo nas cenas de acção, quando o personagem principal usa uma arma do tipo Transformers e tudo é dominado pelos (excelentes) efeitos especiais, nunca deixei de me divertir.

14 comentários

  • 1
    com Google Chrome 5.0.375.29 Google Chrome 5.0.375.29 em Windows XP Windows XP
    10 de Maio de 2010 - 17:21 | Link permamente

    Partilho exactamente dessa opinião… Gostei muito do filme.

    O meu comentário no meu blog é parecido – http://estacaoespacial.blogspot.com/2009/09/district-9.html

  • 2
    Fábio Domingues
    com Opera 10.53 Opera 10.53 em Windows 7 Windows 7
    10 de Maio de 2010 - 17:44 | Link permamente

    Gostei do filme, podemos ver os ETs como os “pretos” no apartheid, era parecido.

    O Moon também está engraçado, é um filme diferente do normal.

  • 3
    com Firefox 3.6.3 Firefox 3.6.3 em Windows 7 Windows 7
    10 de Maio de 2010 - 18:25 | Link permamente

    Hum! Abriste-me o apetite.
    :idea: “A ver vamos…”

  • 4
    com Firefox 3.6.3 Firefox 3.6.3 em Mac OS X 10.6 Mac OS X 10.6
    10 de Maio de 2010 - 19:44 | Link permamente

    Concordo em pleno.

    Só uma nota, os ETs são “gambas” (“prawns”) e não “gafanhotos”.

  • 5
    com Firefox 3.6.3 Firefox 3.6.3 em Mac OS X 10.6 Mac OS X 10.6
    10 de Maio de 2010 - 19:45 | Link permamente

    BTW, vê o Moon, é muito bom, embora a curva de surpresa vs. previsibilidade seja semelhante à do District 9 (talvez um pouco menos).

  • 6
    com Namoroka 3.6.5pre Namoroka 3.6.5pre em Windows XP Windows XP
    10 de Maio de 2010 - 19:56 | Link permamente

    @Pedro Couto e Santos
    O tradutor, o autor das legendagens (DVD legítimo, não foi sacado da Net) escolheu “gafanhotos” e eu acreditei nele.

    Camarões, serve?

  • 7
    José
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows 7 Windows 7
    10 de Maio de 2010 - 21:27 | Link permamente

    achei o D9 uma divertida surpresa, quanto ao Moon achei um dos melhores filmes que vi no ano passado.

  • 8
    Paulo
    com Firefox 3.6.3 Firefox 3.6.3 em Windows XP Windows XP
    10 de Maio de 2010 - 22:46 | Link permamente

    Também gostei bastante do District 9… Não esquecer que teve um orçamento muito baixo, comparado com os blockbusters de Hollywood…

    Quanto ao Moon, achei-o simplesmente fantástico, mas reconheço que não é um filme para toda a gente… Marco, gostava de ver um post em relação a este filme :)

  • 9
    com Google Chrome 5.0.375.29 Google Chrome 5.0.375.29 em Windows XP Windows XP
    10 de Maio de 2010 - 23:04 | Link permamente

    Hehe, Marco, ok. Eu sou um daqueles snobs que só vê filmes sem legendas, se conseguir compreender a língua original – ou seja, se for em inglês :-)

    No filme chamam-lhes prawns, portanto gambas, ou vá, camarões, se quiseres. Mas o tradutor deve ter olhado para os bichos e achado que se pareciam com gafanhotos, portanto toca de alterar a intenção do autor do filme. OK, parece ser um direito que assiste os tradutores e legendadores e é também uma das razões pelas quais evito legendas.

    • 10
      com Firefox 3.6.3 Firefox 3.6.3 em Windows 7 Windows 7
      10 de Maio de 2010 - 23:08 | Link permamente

      Pedro, Camarões é fixe. Fica assim!

      Paulo, mal o consiga ver e se tiver alguma coisa para dizer faço um post com certeza.

  • 11
    com Google Chrome 5.0.356.2 Google Chrome 5.0.356.2 em Windows 7 Windows 7
    10 de Maio de 2010 - 23:55 | Link permamente

    Como Sci-Fi, considero o Moon bastante melhor. Porém, como disseram, não é para todos. District 9, com os seus traços de blockbuster sem o ser… acabar por ser viewer friendly.

  • 12
    Fernando Lino
    com Firefox 3.5.9 Firefox 3.5.9 em Mac OS X 10.4 Mac OS X 10.4
    12 de Maio de 2010 - 03:05 | Link permamente

    Olá Marco

    Leio o teu blog à algum tempo mas não tenho o hábito de participar nas discussões. Acho que é só por gostar do que escreves que me irrito (só um bocadinho :-) ) quando falas de cinema. Mas o District 9 em detrimento do Spielberg? Não percebo essa tua nóia com o senhor… Com ele acho que existe exactamente o mesmo estigma que com o Tarantino junto da comunidade crítica: não gostam de ambos porque dele fazem cinema para o público, diga-se pop, se calhar comercial – nada disso é pejorativo no meu ver. Ora, para mim pior lugar-comum do que gostar de alguma coisa por ser popular é não gostar exactamente por o ser; tantos apaixonados por música que nunca tiveram o prazer de conhecer o White Album por causa desse preconceito. Não digo que seja o teu caso.

    Já aqui li um texto sobre o Jurassic Park em que me lembro de referires o não gostares das bandas sonoras do John Williams que querem levar a emoção aos pícaros e planificação do Spielberg, ok tá certo, compreendo o ponto de vista… Mas o Encontros Imediatos de Terceiro Grau? O filme é uma obra prima… É uma masterclass de realização, tem a participação como actor e o aval de um dos melhores realizadores europeus do século XX, François Truffaut – razão pela qual até a crítica europeia mais perniciosa, pela via das dúvidas, se abstém de pôr o filme em questão, é um tratado sobre a alienação na vida familiar e sobre a fachada do sonho americano. E é só mais uma de muitas pérolas feitas pelo Spielberg: A Lista de Schindler, A Cor Púrpura, O Tubarão (…) são todos filmes com camadas e camadas de leituras… Aparentemente podem-no considerar um cineasta comercial, o mestre de cinema de entretenimento – em que é irreprensivelmente um dos melhores – mas vai bem além disso.

    Só mais umas razão para reveres o Encontros Imediatos de Terceiro Grau e repensares a tua leitura: foi originalmente escrito pelo brilhante Paul Schradder (Taxi Driver, Raging Bull), o Spielberg acabou creditado pela escrita por discordia entre os dois.

    Quanto ao District 9, é tão confuso narrativamente… Fica ali meio perdido entre o mockumentary e o filme de ficção científica sem delimitar onde é que começa um e acaba o outro e tem um terceiro acto que é como uma bota apanhada por uma cana de pesca. Estilisticamente safa-se…
    Paul Greengrass e Tony Scott sim. Terry Gilliam não…

    Abraço
    Fernando

    • 13
      com Firefox 3.6.3 Firefox 3.6.3 em Windows 7 Windows 7
      12 de Maio de 2010 - 09:49 | Link permamente

      Fernando, eu só dei o exemplo dos Encontros Imediatos de 3º Grau (gostei do filme, embora hoje em dia já não tenha paciência para o rever) para reforçar o contraste entre a visão romântica de um e a visão mais crua e deslavada deste. Em Spielberg, existe um deslumbramento quase religioso, aqui, bem, é o contrário. Ao dizer que se safaram de ser descobertos por Spielberg, quero dizer que se procurou uma abordagem diferente, com menos lamechices intergalácticas :P , e ainda bem.
      Apesar das falhas do D9 que tu apontas e com as quais concordo, nesta altura da minha vida acho mais graça a estas abordagens menos românticas, falta-me um bocadinho a pachorra para os deslumbramentos cintilantes.
      E como já disse (noutro post), incomoda-me imenso que o personagem principal nos Encontros Imediatos do 3º Grau se enfie na nave para partir do planeta e o faça em estado de êxtase supremo enquanto deixa dois filhos para trás. Chama-me picuinhas, mas chega-se a uma altura em que certas magias do Spielberg deixam de fazer efeito.
      O primeiro, Paul Greengrass, acho que não conheço. O Tony Scott só se for por causa da poeirada que se levanta lá no D9 ;)

      Ah, é verdade! Eu adoro o Tarantino!

  • 14
    Fernando Lino
    com Firefox 3.5.9 Firefox 3.5.9 em Mac OS X 10.4 Mac OS X 10.4
    12 de Maio de 2010 - 15:13 | Link permamente

    O Paul Greengrass fez os três Bourne e o United 93. O Greengrass por causa das sequências de acção com mais do que três ou quatro câmaras a filmar, o Scott por causa da câmara ao ombro propositadamente confusa para criar um crescendo dramático (como no Déja Vu ou no Man on Fire) – que só existe na cabeça dele e dos jovens-eu-gosto-de-videoclips-rápidos-da-MTV. Ambos por causa da montagem rápida.

    Já percebo o teu ponto de vista… Se se procura entretenimento o D9 vem mais facilmente ao de cima, se se procura verdade acho que só há espaço para o Encontros Imediatos. Embora o primeiro também tenha ali uns bons momentos com a analogia ao Aphartheid, como fazes referência.
    Compreendo que ao vê-lo como pai não gostes do final do Encontros Imediatos. Mas aqui acho que isso faz parte da questão também. Porque o Spielberg faz questão de nos avisar: há uma sequência no filme que, no meu ver, mostra mais uma vez a mestria do dele enquanto realizador de actores e criador de ambientes; quando o protagonista está em casa com a mulher e os dois filhos e é só composta por não mais do que cinco planos. Um deles ocupa a maior parte da sequência, um plano geral em que temos o protagonista em primeiro plano parado e o resto da família a interagir – acho que essa sequência é singular e mostra com um simplicidade e minimalismo surpreendentes a alienação e desposamento do protagonista de tudo o que o rodeia. Com uma verdade e angústia que no meu ver são tocantes. A personagem é assim – se calhar casou-se com a mulher por conveniência e não por paixão, se calhar casou demasiado novo, se calhar detestava-se a si próprio e tudo o que queria era fugir.
    Ao sermos confrontados com alguém assim podes sentir-te identificado, indiferente ou por oposição. Mas reconheces-lhe a vida e a humanidade por se sentir assim.
    Eu emocionei-me com o final e até senti alguma identificação. Se calhar daqui a uns anos a identificação vai desaparecer e só vai restar a emoção. Provavelmente se as coisas tivessem sido diferentes para ti provavelmente também te metias naquela nave, já te vi aqui tantas vezes deslumbrado com o infinito e o universo. Fazer-te lembrar de tudo o que tens e que não trocavas isso nem pelo êxtase do infinito, isso sim é uma dádiva…

    Sim, eu sei do Tarantino :-) . Já te vi a louvá-lo algumas vezes aqui, mas é um caso clássico e só serviu para a analogia.

    Um abraço e continuação de bons posts. Volto à minha condição de anónimo e volto a chatear-te quando vir alguma coisa de cinema que me “irrite” :mrgreen: