
Ainda não pude ver «Moon», de Duncan Jones (o filho de David Bowie), mas já vi «District 9», do estreante Neill Blomkamp.
Eu gosto de ET’s e monstrinhos, de todo esse imaginário de FC e Fantasia, pelo que acima de tudo esperava que «District 9» fosse divertido – e foi.
A nave dos aliens aparece em Joanesburgo, na África do Sul, e não na América, evitando por isso ser descoberta por Steven Spielberg. Passada a euforia inicial do contacto, os ET’s acabam encerrados num campo de refugiados militarizado, tão miserável e sujo e abandonado como a miséria e a sujidade filmadas por Ettore Scola no filme «Feios, Porcos e Maus».
Foi disto que gostei mais no filme: a badalhoquice do campo de refugiados onde os ET’s foram «arrumados», em contraste com uma Joanesburgo repleta de arranha-céus e tecnologia e seres humanos «limpos», evitando assim o glamour místico e cintilante de Encontros Imediatos de Terceiro Grau.
O encontro entre duas espécies inteligentes – a história mais velha da FC – é contado a partir de uma premissa muito crua e sarcástica, reforçada pela opção de o filmar como se fosse um documentário – nos primeiros minutos, é realmente um documentário.
O paralelismo com o Apartheid é óbvio e dispensa tratados filosóficos: em vez de «pretos», temos «gafanhotos» camarões, o nome pelo qual são conhecidos os ET’s.
O filme acaba por sofrer uma metamorfose semelhante à do personagem principal: é dominado pela premissa surpreendente nos primeiros minutos, mas depois entra em piloto automático e desenvolve-se de forma previsível: a contaminação biológica do carrasco humano leva-o a sentir a segregação e exploração na própria pele, seguindo-se a cooperação e amizade com um dos ET’s, primeiro de forma interessada, depois de forma altruísta, levando à redenção final em que luta, lado a lado com o «camarão», contra os da sua própria espécie.
É verdade, a pronúncia afrikaner do actor é uma delícia e torna a experiência ainda mais divertida. As armas dos ET’s são fixes. Os próprios ET’s estão muito, muito bem feitos. A nave também.
«District 9» não consegue sustentar a originalidade que promete e por isso não o acho um grande filme, mas há ali qualquer coisa na pulsação louca da montagem que me faz lembrar o Terry Gilliam nos seus melhores momentos. E mesmo nas cenas de acção, quando o personagem principal usa uma arma do tipo Transformers e tudo é dominado pelos (excelentes) efeitos especiais, nunca deixei de me divertir.






























14 comentários
Partilho exactamente dessa opinião… Gostei muito do filme.
O meu comentário no meu blog é parecido – http://estacaoespacial.blogspot.com/2009/09/district-9.html
Gostei do filme, podemos ver os ETs como os “pretos” no apartheid, era parecido.
O Moon também está engraçado, é um filme diferente do normal.
Hum! Abriste-me o apetite.
“A ver vamos…”
Concordo em pleno.
Só uma nota, os ETs são “gambas” (“prawns”) e não “gafanhotos”.
BTW, vê o Moon, é muito bom, embora a curva de surpresa vs. previsibilidade seja semelhante à do District 9 (talvez um pouco menos).
@Pedro Couto e Santos
O tradutor, o autor das legendagens (DVD legítimo, não foi sacado da Net) escolheu “gafanhotos” e eu acreditei nele.
Camarões, serve?
achei o D9 uma divertida surpresa, quanto ao Moon achei um dos melhores filmes que vi no ano passado.
Também gostei bastante do District 9… Não esquecer que teve um orçamento muito baixo, comparado com os blockbusters de Hollywood…
Quanto ao Moon, achei-o simplesmente fantástico, mas reconheço que não é um filme para toda a gente… Marco, gostava de ver um post em relação a este filme
Hehe, Marco, ok. Eu sou um daqueles snobs que só vê filmes sem legendas, se conseguir compreender a língua original – ou seja, se for em inglês
No filme chamam-lhes prawns, portanto gambas, ou vá, camarões, se quiseres. Mas o tradutor deve ter olhado para os bichos e achado que se pareciam com gafanhotos, portanto toca de alterar a intenção do autor do filme. OK, parece ser um direito que assiste os tradutores e legendadores e é também uma das razões pelas quais evito legendas.
Pedro, Camarões é fixe. Fica assim!
Paulo, mal o consiga ver e se tiver alguma coisa para dizer faço um post com certeza.
Como Sci-Fi, considero o Moon bastante melhor. Porém, como disseram, não é para todos. District 9, com os seus traços de blockbuster sem o ser… acabar por ser viewer friendly.
Olá Marco
Leio o teu blog à algum tempo mas não tenho o hábito de participar nas discussões. Acho que é só por gostar do que escreves que me irrito (só um bocadinho
) quando falas de cinema. Mas o District 9 em detrimento do Spielberg? Não percebo essa tua nóia com o senhor… Com ele acho que existe exactamente o mesmo estigma que com o Tarantino junto da comunidade crítica: não gostam de ambos porque dele fazem cinema para o público, diga-se pop, se calhar comercial – nada disso é pejorativo no meu ver. Ora, para mim pior lugar-comum do que gostar de alguma coisa por ser popular é não gostar exactamente por o ser; tantos apaixonados por música que nunca tiveram o prazer de conhecer o White Album por causa desse preconceito. Não digo que seja o teu caso.
Já aqui li um texto sobre o Jurassic Park em que me lembro de referires o não gostares das bandas sonoras do John Williams que querem levar a emoção aos pícaros e planificação do Spielberg, ok tá certo, compreendo o ponto de vista… Mas o Encontros Imediatos de Terceiro Grau? O filme é uma obra prima… É uma masterclass de realização, tem a participação como actor e o aval de um dos melhores realizadores europeus do século XX, François Truffaut – razão pela qual até a crítica europeia mais perniciosa, pela via das dúvidas, se abstém de pôr o filme em questão, é um tratado sobre a alienação na vida familiar e sobre a fachada do sonho americano. E é só mais uma de muitas pérolas feitas pelo Spielberg: A Lista de Schindler, A Cor Púrpura, O Tubarão (…) são todos filmes com camadas e camadas de leituras… Aparentemente podem-no considerar um cineasta comercial, o mestre de cinema de entretenimento – em que é irreprensivelmente um dos melhores – mas vai bem além disso.
Só mais umas razão para reveres o Encontros Imediatos de Terceiro Grau e repensares a tua leitura: foi originalmente escrito pelo brilhante Paul Schradder (Taxi Driver, Raging Bull), o Spielberg acabou creditado pela escrita por discordia entre os dois.
Quanto ao District 9, é tão confuso narrativamente… Fica ali meio perdido entre o mockumentary e o filme de ficção científica sem delimitar onde é que começa um e acaba o outro e tem um terceiro acto que é como uma bota apanhada por uma cana de pesca. Estilisticamente safa-se…
Paul Greengrass e Tony Scott sim. Terry Gilliam não…
Abraço
Fernando
Fernando, eu só dei o exemplo dos Encontros Imediatos de 3º Grau (gostei do filme, embora hoje em dia já não tenha paciência para o rever) para reforçar o contraste entre a visão romântica de um e a visão mais crua e deslavada deste. Em Spielberg, existe um deslumbramento quase religioso, aqui, bem, é o contrário. Ao dizer que se safaram de ser descobertos por Spielberg, quero dizer que se procurou uma abordagem diferente, com menos lamechices intergalácticas
, e ainda bem.
Apesar das falhas do D9 que tu apontas e com as quais concordo, nesta altura da minha vida acho mais graça a estas abordagens menos românticas, falta-me um bocadinho a pachorra para os deslumbramentos cintilantes.
E como já disse (noutro post), incomoda-me imenso que o personagem principal nos Encontros Imediatos do 3º Grau se enfie na nave para partir do planeta e o faça em estado de êxtase supremo enquanto deixa dois filhos para trás. Chama-me picuinhas, mas chega-se a uma altura em que certas magias do Spielberg deixam de fazer efeito.
O primeiro, Paul Greengrass, acho que não conheço. O Tony Scott só se for por causa da poeirada que se levanta lá no D9
Ah, é verdade! Eu adoro o Tarantino!
O Paul Greengrass fez os três Bourne e o United 93. O Greengrass por causa das sequências de acção com mais do que três ou quatro câmaras a filmar, o Scott por causa da câmara ao ombro propositadamente confusa para criar um crescendo dramático (como no Déja Vu ou no Man on Fire) – que só existe na cabeça dele e dos jovens-eu-gosto-de-videoclips-rápidos-da-MTV. Ambos por causa da montagem rápida.
Já percebo o teu ponto de vista… Se se procura entretenimento o D9 vem mais facilmente ao de cima, se se procura verdade acho que só há espaço para o Encontros Imediatos. Embora o primeiro também tenha ali uns bons momentos com a analogia ao Aphartheid, como fazes referência.
Compreendo que ao vê-lo como pai não gostes do final do Encontros Imediatos. Mas aqui acho que isso faz parte da questão também. Porque o Spielberg faz questão de nos avisar: há uma sequência no filme que, no meu ver, mostra mais uma vez a mestria do dele enquanto realizador de actores e criador de ambientes; quando o protagonista está em casa com a mulher e os dois filhos e é só composta por não mais do que cinco planos. Um deles ocupa a maior parte da sequência, um plano geral em que temos o protagonista em primeiro plano parado e o resto da família a interagir – acho que essa sequência é singular e mostra com um simplicidade e minimalismo surpreendentes a alienação e desposamento do protagonista de tudo o que o rodeia. Com uma verdade e angústia que no meu ver são tocantes. A personagem é assim – se calhar casou-se com a mulher por conveniência e não por paixão, se calhar casou demasiado novo, se calhar detestava-se a si próprio e tudo o que queria era fugir.
Ao sermos confrontados com alguém assim podes sentir-te identificado, indiferente ou por oposição. Mas reconheces-lhe a vida e a humanidade por se sentir assim.
Eu emocionei-me com o final e até senti alguma identificação. Se calhar daqui a uns anos a identificação vai desaparecer e só vai restar a emoção. Provavelmente se as coisas tivessem sido diferentes para ti provavelmente também te metias naquela nave, já te vi aqui tantas vezes deslumbrado com o infinito e o universo. Fazer-te lembrar de tudo o que tens e que não trocavas isso nem pelo êxtase do infinito, isso sim é uma dádiva…
Sim, eu sei do Tarantino
. Já te vi a louvá-lo algumas vezes aqui, mas é um caso clássico e só serviu para a analogia.
Um abraço e continuação de bons posts. Volto à minha condição de anónimo e volto a chatear-te quando vir alguma coisa de cinema que me “irrite”