Na minha empresa foram despedidos todos os elementos do sector informático de help-desk, os que dão assistência às máquinas clientes XP que usamos. Os que se ocupam da rede, sustentada num servidor Windows Server 2003 a correr uma base de dados Oracle que com frequência dá o berro, mantém os seus postos de trabalho.
A administração concluiu que era mais viável – leia-se: mais barato – usar o outsourcing para acorrer às nossas necessidades. A experiência acumulada de vários anos de trabalho e a própria qualidade das pessoas não têm qualquer valor, sobretudo quando o bicho papão da crise nos faz uma visita.
Sempre gostava de saber quanto é que vão poupar por mandar esta malta para o desemprego, até porque há muitos meses que sugiro substituir-se o Microsoft Office pelo OpenOffice (em nome da poupança, justamente) e ninguém me liga nenhuma. O que a malta aqui faz com o Office pode fazê-lo no OpenOffice, incluindo abrir ficheiros PowerPoint idiotas repletos de mamalhudas plastificadas e textos medíocres. E nem sequer precisamos do Outlook para nos ligarmos ao Exchange, pois o Evolution (cliente de email Open Source com versão para Windows) é capaz de o fazer sem problemas – eu experimentei-o aqui.
Diz-se agora que os técnicos dessa nova empresa – que pouco sabem sobre as manhas e os vícios desta rede e que terão pouco tempo para as conhecer – procurarão resolver os problemas por telefone ou usando um software de controlo remoto. Deverão manter um ou dois técnicos em permanência, mas nada disto está confirmado. Sempre quero ver se uma solução deste tipo é viável num parque com mais de 500 estações de trabalho Windows.
Não sei quem terá inventado a expressão o barato sai caro, mas aposto que deve ter sido depois de presenciar o resultado destas decisões. Cá estarei para ver o que se vai passar quando o servidor ou a base de dados forem à vida numa daquelas horas críticas.


Pois, mas é a crise, crise crise crise, repetem-me até à exaustão amigos e conhecidos, jornalistas e políticos. Mentira! Crise não é apenas a crise real, é uma estrada que atravessa a nossa consciência: onde muitos vêem uma paisagem árida e triste, outros vislumbram uma terra de oportunidades onde tudo se pode fazer em benefício próprio. A crise é uma autorização social de carácter mais ou menos temporário que permite a burocratas e contabilistas ver o ser humano como uma mera abstracção matemática sem quaisquer problemas de consciência. A tomada de decisões é por causa da crise, não é por causa de quem decide. Há crise a mais? Lançamos o excedente sobre quem não tem meios para a enfrentar. A crise não dá outra alternativa, estão a ver? É o salve-se quem puder e geralmente os que de facto podem salvar-se pouco fazem para o merecer.






























12 comentários
Se serve de algum consolo, podes sempre pensar que a malta que vai dar apoio não está na Roménia – como aconteceu na 1ª empresa onde trabalhei – ou na Índia – como aconteceu na 2ª empresa onde trabalhei. Porque aí sim… aí estarias perante o CAOS.
Essa guerra, a de tentar convencer alguém que é mais barato manter os técnicos de informática, manda-los para formação, e começar a utilizar software livre é uma guerra que, infelizmente, parece perdida à partida. Só quem utiliza software livre é que consegue perceber a lógica da coisa, e parece que chefes nunca usam software livre. Parece que gajo que é gajo usa software caro. Afinal apenas o que é caro é que é bom. Mesmo que depois utilizem versões piratas.
Mas isto devagarinho vai lá. Não sei se alguma vez o Linux conseguirá ocupar o segundo lugar no ranking dos OS, mas acredito que não há volta a dar em relação ao software livre: mais tarde ou mais cedo este irá “dominar” o mercado, mesmo que esteja a funcionar em plataformas Windows ou MacOS.
Ora, para além dos que foram postos na rua, acrescente-se as precárias condições de empregabilidade oferecidas aos que agora substituem os primeiros, vindo daí um desempenho medíocre no serviço, balanceando com o que lhes é oferecido profissionalmente. Porque quem paga em amendoins, tem macacos a trabalhar.
A crise existe. É real. Não é uma ficção inventada por políticos ou jornalistas. Aliás, era esperada e não deverá ser breve. No entanto, não é menos verdade que o efeito psicológico acentua o clima negativo e que muitos administradores e gerentes de muitas empresas, das grandes às pequenas, passando pelas média, vêm aqui uma oportunidade para ‘reduzir custos’. Muitas vezes à custa de empregos.
Uma situação que vai contribuir para o efeito ‘bola de neve’. Todos ficamos com medo, demasiado cautelosos no acto de consumir, o dinheiro gira menos, fazendo que o comércio venda menos e compre menos à indústria, que vai adquirir menos serviços. E por ai a fora. A ‘bola de neve’ está já a circular. Mas há uma pergunta que me apoquenta. Se as notas e moedas não foram incineradas, onde raio pára o dinheiro?
@josefreitas: Segundo um estudo publicado recentemente pela ONU, 75% (setenta e cinco por cento) do dinheiro em circulação pela face desta Terra, é dinheiro não produtivo. Leia-se (ainda segundo a ONU) dinheiro proveniente de especulação bolsista, tráfico de drogas, de armas, de seres humanos, respectivos órgão, dinheiro lavado que vai para as off-shores, dinheiro das velhas e das novas máfias. Enfim… a lista nunca mais acaba.
Lamentável, mas infelizmente são os gestores que temos.
Boa sorte para as horas de crise.
Amigo Marco,
Antes do mais, muitos parabéns pelo blog, descobri-o numa “navegadela” pela “web” e ficou logo com lugar na “TAB” Blog´s do meu iGoogle.
Passando ao comentário propriamente dito, eu sou chefe de um ServiceDesk, como dizem as ultimas teorias de ITIL, de uma “empresa” com apenas, no local que faço gerência, mais de mil e cem máquinas. A certa altura começaram a falar em OutSourcing, eu só disse para analisarem os pedidos de “ajuda” que eram feitos e o que as pessoas diziam:
“Olhe que é urgente”, “Tem de vir já”, “Olhe isto não dá e eu tenho de ir a despacho”, etc.
Agora vão dizer a esses senhores que só pensam em euros, que a disponibilidade também se paga, porque acudir com a maior rapidez e sapiência, custa dinheiro. Essas empresas de acesso remoto é giro e tal, agora vão lá mudar um toner, vão lá explicar por acesso remoto o porque de o papel estar a sair com manchas brancas, troquem lá um disco avariado, coloquem lá uma imagem num PC não perdendo nada do utilizador. É giro, mas só nos números.
No meu caso, era uma má aposta, porque, depois de analisarem viram que afinal a coisa é mais complexa do que apenas mudar o staff por um mais barato.
Em linhas gerais, nem com uma “knowledge base”, bem recheada, se resolve os problemas da disponibilidade.
Caro PF, é tal e qual como diz. Quero vê-los a resolver problemas de hardware por telefone.
Entretanto, pessoas com muita experiência, eficientes, e que já sabiam lidar com as situações específicas desta empresa, vão para o desemprego.
@Marco:
“Sempre quero ver se uma solução deste tipo é viável num parque com mais de 500 estações de trabalho Windows.”
Dois técnicos em permanência (se isso significar 24/7) no local e se forem *mesmo bons*, conseguem perfeitamente gerir 500 desktops seja qual seja o SO.
Mas só dois em 24/7 e para 500 máquinas, inevitavelmente vão arrear de exaustão ao fim de uma semana ou duas.
Se ainda houvesse uma coisa chamada “Operações”… mas penso que isso já seria pedir muito.
É só tristezas. E como sempre, quando o mar bate na rocha, quem se f* é o mexilhão.
Mundo FDP o de hoje. Começo agora a compreender melhor as pessoas que dizem não querer ter filhos, para não os sujeitarem ao esgoto que ele é
Lastimo imenso que tenhas que passar por uma situação destas.
Não sei se já resolveste o que fazer a partir desta etapa mas podes contar com o meu apoio para o teu projecto.
@braço.
Caro JocaFerro, obrigado.
Não quero ser mal interpretado. Eu estou a relatar situações passadas com alguns colegas. Pessoalmente sou um privilegiado, pois não perdi emprego nenhum nem estou em vias disso. Simplesmente terei de fazer coisas que poderão colidir com alguns princípios, foi disso que falei (desabafei) num post anterior. E daí estar a pensar em projectos que me façam sentir que a minha vida profissional tem mais sentido.
Estou a ser muito vago, eu sei, mas tenho um dever de sigilo em relação à empresa onde trabalho e não sou eu que lhes vou dar motivos seja para o que for.
oooppppss
Desculpa, interpretei mesmo mal. Fico com tanta raiva com o que está a acontecer por todo esse mundo fora, principalmente quando penso que as maiores vítimas não tem qualquer culpa no cartório, que me dá para a cegueira (desta vez não é literalmente). É pena mas todos sabemos que é sempre o trabalhador quem arca com as consequências e que esse trabalhador apenas pensará em arranjar novo trabalho para honrar os seus compromissos. É assim com a esmagadora maioria e exactamente o oposto do outro lado da barreira.
É pena esta “crise” não ser como o futebol – a culpa não é do dirigente-mor ou treinador mas são eles a irem para a rua.
@braço.
PS: Continuo a apoiar-te…