Amos Oz é um escritor israelita e um co-fundador do movimento pacifista israelita Peace Now. O que se segue é um excerto de um ensaio chamado «Da natureza do fanatismo», publicado a 23 de Janeiro de 2003. Este ensaio foi uma leitura muito importante para mim, tão importante para entender a mentalidade do fanático como fora, há uns anos, a leitura de Bertrand Russell para desmistificar a natureza da religião.
Vou contar uma história em jeito de divagação: eu sou um reconhecido divagador, estou sempre a divagar. Um querido amigo e colega meu, o admirável romancista israelita Sammy Michael, passou uma vez pela experiência, por que todos nós passamos de vez em quando, de andar de táxi durante um bom tempo com um condutor que lhe ia dando a típica palestra sobre como é importante para nós, judeus, matar todos os Árabes.
Sammy ouvia-o e, em vez de lhe gritar ‘Que homem horrível que você é! É nazi ou fascista?’, decidiu ir por outro caminho e perguntou-lhe: «E quem acha que deveria matar todos os Árabes?» O taxista disse: «O que quer dizer com isso? Nós! Os Judeus Israelitas! Temos de o fazer! Não há escolha. Veja só o que nos fazem todos os dias!»
«Mas quem, especificamente, é que deveria fazer o trabalho? A polícia? Ou o Exército, talvez? O corpo dos bombeiros ou as equipas médicas? Quem deveria fazer o trabalho?»
O taxista coçou a cabeça e disse: «Penso que deveríamos dividi-lo em partes iguais entre cada um de nós, cada um de nós devia matar alguns.»
E Sammy Michael, ainda no mesmo jogo, disse: «Pois bem, suponha que a si lhe toca um determinado bloco residencial da sua cidade natal, Haifa, e que bate às portas ou toca às campainhas, e pergunta: ‘Desculpe, senhor, ou desculpe, senhora. Por acaso é Árabe?’ E se a resposta for afirmativa, você dispara. Quando acaba o seu bloco, dispõe-se a regressar a casa mas, ao fazê-lo», continuou Sammy, «ouve, algures no quarto andar do seu bloco, o choro de um bebé. Voltaria para matar o bebé? Sim ou não?»
Houve um momento de silêncio e, então, o taxista disse a Sammy: «Sabe, o senhor é um homem muito cruel.»
Esta é uma história significativa, porque há algo na natureza do fanático que, essencialmente, é muito sentimental e, ao mesmo tempo, carece de imaginação. E isto, às vezes, dá-me esperança – naturalmente, muito limitada – de que injectando alguma imaginação nas pessoas, talvez as ajudemos a reduzir o fanático que trazem dentro de si e a sentirem-se incomodados. Não é um remédio rápido, não é uma cura rápida, mas pode ajudar.






























6 comentários
O autor é optimista: tem esperança, apesar de muito limitada, de reduzir o fanatismo.
Deduzi do texto o seguinte: Ser muito sentimental é não ter imaginação. Imaginar implica o acto de pensar lógicamente. Se o pensamento lógico existe, os sentimentos excessivos (ódios, ciúmes ou invejas, por exemplo) perdem força ou não existem.
Portanto, o fanático é um imbecil que se deixa manipular como uma marionete pelos que detêm e desejam manter o Poder.
…
Será que não se pode aplicar isto não apenas a etnias e religiões, mas também às massas apoiantes de um Partido político ou associativas de um Clube desportivo, qualquer que seja?!
Ainda bem que por aqui passam Iluminados **
** Será ofensa?
Olá, bom dia,
Então o taxista matava a torto e a direito e o escritor é que é um homem cruel ?
Essa foi das melhores piadas que já ouvi hehehehe
Sinceramente,
Está na hora de deixar o jogo do mata mata.
Cumprimentos
Cesar Oliveira
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Bom texto.
Como diría o velho grego Sócrates, “Conhece-te a ti mesmo!”. Mas infelizmente tanto no ocidente como no oriente não é por aqui que começa a formação dos indivíduos!
Escritor cruel.