Ao longo dos próximos dias, irei colocando aqui o texto que resultou de uma conferência dada a 23 de Janeiro de 2002 pelo escritor israelita Amos Oz. Quando terminar, criarei uma página onde poderão lê-lo todo de seguida, se preferirem.<
Vou citar a primeira página e meia de Uma Pantera na Cave, porque julgo que é a melhor forma de exprimir aquilo que eu penso em matéria de fanatismo. É o primeiro capítulo de Uma Pantera na Cave:
Fui apelidado de traidor muitas vezes durante a minha vida. Da primeira, tinha eu doze anos e três meses e vivia num bairro de um dos extremos de Jerusalém. Foi nas férias grandes, a menos de um ano de os Ingleses deixarem o país e de o Estado de Israel nascer no meio da guerra.
Certa manhã apareceu uma inscrição a grossos traços negros na parede da nossa casa, por baixo da janela da cozinha: PROFI BOGUED SHAFEL – «Prodi é um reles traidor». A palavra shafel, reles, levantou uma questão que ainda hoje, ao escrever esta história, me intriga: poderá um traidor deixar de ser reles? Se a resposta for não, por que motivo é que o Tchita Reznik (conheci-lhe logo a letra) se teria dado ao trabalho de acrescentar a palavra «reles»? Se for sim, em que circunstâncias é que a traição não é um acto reles?
Foi a partir dessa altura que me colocaram a alcunha de «Profi», abreviatura de «Professor», resultante da minha obsessão em examinar as palavras. Ainda hoje gosto imenso de palavras, de as reunir, ordenar, misturar, inverter, combinar – um pouco ao jeito dos avarentos, obcecados por moedas e notas, ou dos jogadores por cartas de jogar.
O meu pai tinha saído às seis e meia da manhã para ir buscar o jornal e deparara-se com a inscrição logo por baixo da janela da cozinha. Ao pequeno-almoço, enquanto barrava uma fatia de pão integral com compota de framboesa, cravou a faca no boião, quase até ao cabo, e exclamou com o seu tom pausado:
«Mas que surpresa! Que patifaria cometeu Vossa Excelência para merecermos tamanha honra?!»
«Não o aflijas logo pela manhã!» – atalhou a minha mãe. – «Já lhe basta aturar os outros rapazes.»
Nessa altura o meu pai vestia roupa de caqui, como a maioria dos homens do nosso bairro, e tinha os modos e a voz de uma pessoa cheia de carradas de razão. Ergueu a faca e retirou do fundo do frasco um pedaço viscoso de doce de framboesa; espalhou-o por igual sobre as metades da fatia e replicou:
«É verdade que hoje em dia quase toda a gente usa a palavra traidor com demasiada leviandade. Mas o que vem a ser um traidor? Sim, o que é, com efeito? É um homem sem honra, um sujeito que, às escondidas, por detrás das costas, por um qualquer benefício insuspeito, ajuda o inimigo contra o seu povo, chegando mesmo a desgraçar a sua família e amigos. É mais infame do que um assassino. E tu, faz-me o favor de acabar de comer esse ovo! Na Ásia há quem morra de fome, está aqui escarrapachado no jornal.»
A minha mãe puxou o meu prato para si e acabou de comer os restos do meu ovo e pão com doce – não por força do apetite, mas por amor à paz – e rematou:
«Quem ama não atraiçoa.»
Mais à frente no romance, o leitor pode descobrir que a mãe estava completamente enganada. Só quem ama se pode converter num traidor. A traição não é o reverso do amor: é uma das suas opções. Traidor, julgo, é quem muda aos olhos daqueles que não podem mudar e não mudarão, daqueles que detestam mudar e não podem conceber a mudança, apesar de quererem sempre mudar os outros. Por outras palavras, traidor, aos olhos de um fanático, é qualquer um que muda. E é difícil a escolha entre converter-se num fanático ou converter-se num traidor. Não converter-se num fanático significa ser, até certo ponto e de alguma forma, um traidor aos olhos do fanático. Eu fiz a minha escolha e esse romance é disso a prova fiel.
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