Frequentei a Escola Salesiana da primeira classe ao 7º ano. Depois fui convidado a sair por sistematicamente me baldar às aulas de Religião e Moral e por preferir passar as minhas manhãs a observar o mar de Inverno na praia do Estoril do que gramar as sessões de tortura psicológica infligidas aos alunos que não tinham jeito nenhum para Desenho, como era o meu caso.
Durante o tempo em que lá estive a minha mãe foi chamada por duas vezes à presença do conselho directivo: a primeira para lhe dizerem que algo de errado se passaria comigo (mal sabiam eles no blogue em que haveria de me tornar), pois era tão bom a Português como era péssimo a Matemática. A segunda foi devido às tais baldas, que não eram senão pequenas revoluções libertárias que operavam na minha mente e que acabaram por me ajudar a compreender o significado da revolução que ocorreria em Portugal poucos anos depois. E sim, também eram fugas.
Nesta segunda reunião, um padre gordo como um porco e com os mesmos hábitos de higiene, pois tresandava a incenso e suor, ameaçou dar-me uma galheta ali mesmo se persistisse naquele comportamento indigno. Fê-lo diante da minha mãe, incapaz de reagir por se sentir fragilizada por um divórcio recente e, como tantos outros portugueses antes do 25 de Abril, por ter sido educada a baixar a bolinha quando a autoridade não só era autoritária como tinha toda a moral para ser violenta. Foi a primeira vez na vida em que me senti humilhado. A segunda foi quando o Benfica perdeu 7-1 com o Sporting.
A minha experiência diz-me que os professores mais cruéis eram sempre padres, mas havia um professor de Português «civil» cujas façanhas o tornavam ainda mais conhecido. Como naqueles tempos qualquer um podia malhar num aluno de sete ou oito anos sem grandes maçadas, a diferença que estabelecíamos entre uns e outros na nossa escala do terror infantil era determinada pela sua boa forma física.
Havia padres que também acreditavam piamente no enfardamento como importante ferramenta pedagógica, mas eram tão pateticamente velhos e frágeis que se desequilibravam quando erguiam as manápulas peludas para dar mais embalagem à estalada. Era como se a consciência cristã lhes tivesse escorregado do cérebro para as mãos ao longo de tantos anos de serviço. Outros eram tão magros e ressequidos que durante muito tempo julgámos que a única refeição decente que desfrutavam era quando trincavam uma hóstia durante a Eucaristia.
Alguns enfiavam-na de uma só vez na bocarra e ficavam com as bochechas inchadas como se tivessem engolido um prato de tremoços. Aquilo parecia-nos de certa forma obsceno porque, como de resto nos tinham ensinado, a hóstia simbolizava o corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo e não nos parecia bem que um padre lhe comesse as imaculadas carnes com tanta gula. Só faltava que bebessem uma cervejinha para «aquilo» escorregar melhor.
O professor de Português que mencionei anteriormente era uma coisa de fato e gravata, muito alta e forte. O homem não tinha manápulas a seguir aos braços, como os padres e os restantes seres humanos adultos, mas blocos de granito que desabavam sobre o nosso couro cabeludo. Sorria com uma calma pré-fabricada. Chamava-se Sales Gomes e, dado que era grande e nocivo para a saúde, recebeu a alcunha de SG Gigante.
O SG Gigante tinha um enorme carinho pela alcunha. Creio que a sua auto-estima se alimentava muito da forma como se via a exercer a sua autoridade e poder sobre os alunos, pelo que fez questão de ser o próprio a informar-nos na primeira aula que Muito bom dia, sou o professor Sales Gomes, mais conhecido por SG Gigante. A maioria de nós interpretou a apresentação como uma forma de quebrar o gelo e riu-se, contente por haver um professor com sentido de humor e fair-play. Não fazíamos ideia de que aquilo era já um aviso.
Nunca mais soube dele. O último episódio em que foi protagonista ocorreu já depois do 25 de Abril: conta-se que um pai terá irrompido pela sala de aula, pegou no SG Gigante pelos colarinhos, encostou-lhe a testa ao nariz de Júlio César e afirmou Se voltas a bater no meu filho rebento-te a tromba meu cabrão do caralho. Se esta é uma história verídica ou apenas a manifestação de um desejo recalcado da nossa infância, é algo que nunca virei a saber.
Quando vi o vídeo da professora, da aluna e do seu telemóvel lembrei-me desses tempos e perguntei a mim próprio como foi possível viajar-se de um extremo para o outro sem ninguém se aperceber da confusão em que alunos e professores se estavam a meter.
Não quero dizer com isto que dantes os alunos eram uns anjinhos e os professores uns demónios, e agora é o contrário. Quase 34 anos sobre o 25 de Abril, ainda não encontrámos um equilíbrio entre liberdade e autoridade – é como se uma estivesse destinada a anular a outra, e não me parece que tal seja possível desde que estejamos sempre prontos a reivindicar o direito de estarmos atentos. De professores que podiam exercer o seu poder de forma quase impune, passámos para uma situação em que se tornaram vítimas da imatura crueldade dos alunos mais problemáticos.
O que se passou naquele liceu foi apenas circo. Não foi bom para as duas protagonistas: a aluna passou por palhaça criminosa, a professora por palhaça incompetente. O vídeo no YouTube não serviu para pensar um bocado no buraco em que professores e alunos estão enfiados, serviu apenas para mascarar estes desequilíbrios. Em vez de tratar o problema como um caso de indisciplina, tratou-se aquilo como se fosse um caso de polícia. Dado que o escândalo tinha já rebentado, era preciso mostrar ao país que havia resposta – o facto de ter sido uma resposta errada é irrelevante. Adeus e até ao próximo vídeo.






























16 comentários
Opá, o típico português gosta de assistir a uma boa confusão. Se houver porrada à mistura, então atinge o sétimo céu. O resto, todas as implicações morais, sociais, etc, são fait divers…
Grande post, e não me refiro ao comprimento.
Deverei portanto riscar os Salesianos do Estoril da minha lista de possíveis escolas para o meu filho, daqui a 2 anos?
Ora, já estava a ver que o assunto te escapava!
Mas não, e o timing até é o certo e que permitem cvhegar as conclusões que apresentas.
Por outro lado ficamos a saber ao que se devem certos “devaneios” que nós fazem esperar o próximo post abitaitado.
Cumptos.
Tens toda a razão Marco (excepto relativo aos 7-1, aí desculpa lá mas não há razão para sentir humilhação, é a ordem natural das coisas
).
Não se podem tomar decisões genéricas sobre um caso particular excepto se se demonstrar que esse caso resulta directamente do próprio sistema … e mesmo nesse caso a história também nos demonstra que convém raciocinar ” a frio”. Transformou-se um caso de indisciplina solúvel pelas regras já existentes numa coisa que … enfim …
Um post interessante e actual…tal como tu marco, eu(e tantos outros)tivemos de sentir na pele a autoridade quase sempre autoritaria de muitos professores(afinal de contas nem todos pertencemos a “geraçao playstation”)…
…situaçoes como as do colegio citado, nao sao casos isoladas, é algo que acontece sistematicamente nas nossas escolas, e ninguem ve,ou fingimos nao ver…mas como este caso foi tao mediatizado, todos quiseram assumir protagonismo: tornou-se um caso nacional, estava a imagem da educaçao e do pais acima de tudo em jogo…era preciso agir(agir a portuguesa, para o ingles ver), criminalizar os culpados(embora se trara-se de um caso de indisciplina escolar, cabendo ao colegio pedagogico agir em conformidade…), o ministerio publico deu a cara(embora nao se trata-se de um “crime” ou atentado a sociedade)…enfim, todos queria agir mostrar a sociedade e ao mundo que a justiça em portugal nao anda de “canadianas”! o resultado desta algazarra? foi a confusao gerada,com o ministerio publico a criar um clima de quase “totalitarismo” e atear mais fogo a fogueira(o senhor filipe monteiro fala bonito, mas so as vezes…); o ministerio da educaçao procurando amenizar uma situaçao grave e real com falinhas mansas e paninhos quentes…enfim, foi uma autentica salada russa…ou um cozido a portuguesa?
Do extremo ao outro passou-se porque os pais das crianças mimadas de hoje foram, também eles, crianças mimadas, e não souberam incutir qualquer sentido de responsabilidade e de respeito na sua prole.
Mas neste país de opereta (como costumo dizer), anda tudo “em banho maria” até que alguma coisa se queime! Então é vê-los em grandes correrias à “cozinha”, uns com baldes de água, outros com extintores nunca anteriormente usados, outros à janela grintando o acontecido…!
É claro que mestas circunstâncias a solução encontrada dificilmente será a mais acertada. Mas vão ver que depois de tudo acalmar a “coisa” voltará ao “banho maria” até que alguém novamente se queime.
Um abraço!
Se eu começo a contar a colecção de professores que batiam ui…
A primeira foi logo a professora do primeiro ciclo, apanhei-a do 1º ao 3º ano. Primeiro ela passava (e não estou de maneira nenhuma a exagerar) coisa de 90 % do horário de todas as aulas a fazer coisas pessoais, como andar de volta da filhinha.
Todos os dias chegava a escola distribuia folhas e ia embora. Por isso é que não me lembro grande coisa desses anos, não fazíamos nada
. Bem mas quando ela ficava um dia inteiro lá, então é que era mau, pois nesses dias andava enervada e bruta, chegou uma vez a bater na turma toda.
A sacana tirava os anéis para não deixar marca e depois dizia que os meninos estavam a mentir, se eu a apanho… Desta sacana apanhei tantas, eu nunca fiz os trabalhos de casa, ou seja, quase todos os dias apanhava.
Nunca percebi porque sou o único que nunca gostou dela, pois ela chegava a roupa ao pelo a tudo e todos, por exemplo tinha um colega que era muito tímido e quando queria urinar chorava, com ela ganhava razão para chorar…
O “next one” que me dei ao luxo de apanhar pela frente foi no 5º, esse dizia que nos ia
Só levei uma vez, por isso não quis repetir a dose… Outros, então saiam de lá com a cabeça feita num oito…
Agora vê-se um vídeo em que é a aluna que dá uma “porrada terapêutica” a senhora professora. Só gostava de dizer uma coisa:
Nesse vídeo há duas coisas que estão mal. A professora não consegue incutir respeito nenhum e a falta do mesmo por parte dos alunos. As duas partes estão em falta….
E foi assim que me tornei pistoleiro…
É como aqui. Liberdade para comentar e autoridade para censurar…
PS: Vou ao Bessa ver o benfa apanhar no pelo, e mais uma humilhação, penso eu de que…
Academia de Música de Santa Cecília, antes do 25 de Abril, professores podiam, se fosse necessário, dar o correctivo aos alunos, o director era uma besta armada em Major na reserva.
O que eu mais recordo é dos caldos, dados com a mão fechada e o nó de um dos dedos mais saliente. O movimento era de cima para baixo, mas havia quem desse de lado em movimento circular. Acredita, doi e não é pouco.
As réguadas era um uso habitual, réguas de madeira rija, mãos extendidas, ficávamos com as mãos vermelhas o resto do dia.
…e de um tempo de professores que batiam nos alunos, passamos para outro tempo, em que os alunos batem nos professores. Foi precisa uma revolução de flores mas pelo menos isso conquistámos. A sociedade começa a queixar-se e a despertar, mas já é demasiado tarde.
Os excessos de outrora (e eu estava lá)são os execssos de agora, mas invertidos ou mesmo subvertidos. Não nos podemos queixar. Era isto que pretendíamos.
Eu sou um bocado mais novo… nasci no ano a seguir ao da revolução e por esse motivo não apanhei esse tipo de professores. Mas de uma coisa tenho a certeza, se algum professor me tratasse assim na escola, ainda hoje se me cruzasse com ele lhe aviaria um belo par de murros.
É possível que seja defeito de família mas tenho um tio que fez isto mesmo. Já perto dos seus 50 anos cruzou-se na rua com um professor (também padre) que deveria andar nos 60 e tais e acabou mesmo por não resistir a lhe dar umas cacetadas.
@ FNP.PT: Não te queixes, pá. Fazes por isso.
De vez em quando deves acordar um bocadinho desnorteado (deve ser por estares sempre a pensar nos «mouros» do Benfica) e escreves comentários totalmente incompreensíveis. A sério. Leio e releio, e não consigo perceber de que raio estás tu a falar. De vez em quando acordo mal disposto e quando vejo comentários totalmente incompreensíveis apago-os. Quando o teu desnorte e a minha má disposição coincidem, és riscado pelo meu lápis azul. Bem, no teu caso é lápis vermelho. Lápis de benfiquista. Só para te chatear.
Marco muito bom post
Qual o modelo educativo que cada pai deve de adoptar em relação aos seus filhos?
é que existem alguns, eu é que ainda não consegui perceber qual o melhor deles.
Será aquele em que o filhote leva uma palmadita para lhe incutir disciplina, ou aquele em que o o filho se vira aos pontapés aos pais ?ou será que o primeiro factor leva ao segundo?
Para mim é uma incógnita qual a melhor educação , mas vejo aqui comentários de pessoas como o FNP.PT , que exemplificam o modelo falhado e no entanto eles pensam que são um caso de sucesso.Curioso.