Quando vi o filme A Paixão de Cristo pela primeira vez chorei que nem uma Madalena. O meu choro até foi mais convincente do que o da própria Madalena do filme do Mel Gibson. Também não era difícil, pobre Bellucci, tão mal dirigida.
Se tivesse chorado por causa do filme as lágrimas eram mais fáceis de explicar: eram de desgosto.
Já o viram? Então estarão lembrados daquelas violentíssimas sequências da crucificação. Vejam bem a montagem do Mel Gibson: plano ensanguentado de Cristo sofrendo os horrores que se conhecem. Corte. Plano de um soldado romano a rir-se a bandeiras despregadas (passe o termo). Corte. Plano da mãe, Maria, de Maria Madalena ou do irmão de Jesus (não me lembro o nome deste, mas deve estar na Bíblia). Os planos são à vez: nuns entra a Maria, noutros a Madalena. Às vezes estão todos juntos e tão paradinhos como figuras num Presépio. Depois é corte. Mais Cristo a ser torturado. Corte. Mais romanos a rir. Corte. Maria Madalena a sofrer. Corte. Mais uma cena de faca e alguidar com o Salvador da Humanidade. Corte. Romanos a gozar o prato. Corte. Maria, a pobre mãe, a sofrer. Corte. Jesus… Sangue. Corte. Romanos… Risos. Corte. Estão a ver o filme? Corte e cola com saliva de Mel Gibson. Foda-se. É preciso mesmo ter um Braveheart.
Julgam que notei esta montagem insípida da primeira vez que vi o filme ou reparei na pobreza dos diálogos e no carácter decorativo de quase todos os personagens? Não. O filme bloqueou o meu pensamento e transformou-me, por alguns momentos, em emoção pura.
Quando vi Passion… pela segunda vez já não me deixei levar: entretive-me a adivinhar as vezes em que o Mel fazia um grande plano de uma personagem cabisbaixa para depois levantar a cabeça muito lentamente e olhar o passarinho. Começou com o Diabo – muito estiloso, por acaso, uma tipa com voz de bagaço a falar em aramaico dá um efeito bestial, não direi afrodisíaco (nada bate a Monica Bellucci mesmo quando faz de santinha) – mas pronto, calhou a vez a todos. Às tantas já tinha vontade de gritar sempre que o realizador filmava um personagem cabisbaixo para depois, inevitavelmente, o vermos a levantar ligeiramente o rosto.
Quase que apetece perguntar ao Gibson se ele se inspirou nos minutos finais dos Encontros Imediatos do 3º Grau do Spielberg para filmar os últimos momentos de Cristo na Terra.
Se eu não tivesse chorado que nem uma Madalena tinha reparado mais facilmente nestas coisas. Ainda por cima sou caixa de óculos e quando um caixa de óculos chora que nem uma Madalena embacia as lentes, o que torna o visionamento ainda mais difícil. Depois lá tem um gajo de limpar os óculos e pronto, quando volta a olhar já está o pobre Cristo a ser pregado à cruz e a violência e barbaridade de tudo aquilo volta a atingir-te como se Gibson quisesse confrontar-te com os teus pecados, ali e agora, não com falinhas mansas e sopinhas de massa como fazem os padres, mas às marteladas na tola. E ai de mim se tivesse sacado o filme do eMule! O sentimento de culpa ainda podia ter sido maior.
Se o filme é assim uma merda, então porque é que choraste, pá?
Uma pergunta legítima – e difícil de responder. Digamos que, por momentos, a dignidade, resistência e coragem de Cristo perante a tortura me comoveram. Acreditei nele – e não falo apenas na sua existência histórica. Ao primeiro visionamento, eu abandonei o filme como se fosse um monge levitador e antevi naquela reacção à tortura uma manifestação de carácter divino. Depois despoletou-se-me o velho conflito entre a minha fé na Ciência e a sensação subjectiva de que um Universo sem Deus não pode fazer sentido.
Vivo este conflito há anos. Por vezes observamos as crianças e dizemos que elas estão na idade dos porquês. Sei muito bem o que isso é. A idade dos porquês acompanha-nos durante toda a nossa vida. Um cientista tenta reduzir o campo de acção desses porquês de forma a que a resposta possa ser demonstrada – dá um passo de cada vez, procurando com que a especulação em demasia não o faça tropeçar nos degraus que conduzem ao conhecimento. Mas, porra, e o Álvaro de Campos quando diz que somos do tamanho do nosso olhar? Isto não é uma verdade? Até onde nos pode conduzir esse olhar? Ao Big Bang? E antes disso, ainda temos ciência? Se não temos, o que poderemos ter?
E nós, oscilando entre o mistério do Tempo e da Inteligência como se fossemos pêndulos do relógio de Deus, que haveremos de fazer? Chorar que nem umas Madalenas de vez em quando? Olhem, que se foda. Chorar às vezes não revela fraqueza, revela bom senso.





























