→ 20/01/2010 @9:20

Capuchinho Vermelho em versão Millôr

«Era uma vez (admitindo-se aqui o tempo como uma realidade palpável, estranho, portanto, à fantasia da história) uma menina, linda e um pouco tola, que se chamava Chapeuzinho Vermelho (esses nomes que se usam em substituição do nome próprio chamam-se alcunha ou vulgo).

Chapeuzinho Vermelho costumava passear no bosque, colhendo Sinantias, monstruosidade botânica que consiste na soldadura anomala de duas flores vizinhas pelos invólucros ou pelos pecíolos, Mucambés ou Muçambas, planta medicinal da família das Caparidáceas, e brincando aqui e ali com uma Jurueba, da família dos Psitacídeos, que vivem em regiões justafluviais, ou seja, à margem dos rios.

Chapeuzinho Vermelho andava pois, na floresta, quando lhe aparece um Lobo, animal selvagem carnívoro do género cão e … (Um parêntesis para os nossos pequenos leitores – o Lobo era, presumivelmente, uma figura inexistente criada pelo cérebro superexcitado de Chapeuzinho Vermelho. Tendo de andar na floresta sozinha, natural seria que, volta e meia, sentindo-se indefesa, tivesse alucinações semelhantes).

Chapeuzinho Vermelho foi detida pelo lobo que lhe disse: (Outro parêntesis: os animais jamais falaram. Fica explicado aqui que isso é um recurso de fantasia do autor e que Lobo encarna os sentimentos cruéis do Homem. Esse princípio animista é ancestralíssimo e está em todo o folclore universal).

Disse o Lobo: «Onde vais, linda menina?». Respondeu Chapeuzinho Vermelho: «Vou levar estes doces à minha avozinha que está doente. Atravessarei dunas, montes, cabos, istmos e outros acidentes geográficos e deverei chegar lá às treze e trinta e cinco, ou seja, à uma hora e trinta e cinco minutos da tarde.».

Ouvindo isso o Lobo saíu correndo, estimulado por desejos reprimidos (Freud: “Psychopathology of Everyday Life”, The Modern Library Inc., N.Y.).

Chegando a casa da avozinha, ele engoliu-a de uma vez - o que, segundo o conceito materialista de Marx, indica uma intenção crítica do autor, estando oculta aí a ideia do capitalismo devorando o proletariado – e ficou esperando deitado na cama, fantasiando com a roupa da avó.

Passaram-se quinze minutos (diagrama explicando o funcionamento do relógio e seu processo evolutivo através da História). Chapeuzinho Vermelho chegou e não percebeu que o Lobo não era a sua Avó, porque sofria de astigmatismo convergente, que é uma perturbação visual oriunda da curvatura da córnea.

Nem percebeu que a voz não era a da Avó, porque sofria de otite, inflamação do ouvido, nem reconheceu nas suas palavras, palavras cheias de má-fé masculina, porque afinal, eis o que ela era mesmo: esquizofrénica, débil mental e paranóica, pequenas doenças que dão no cérebro, parte súpero-anterior do encéfalo. (A tentativa muito comum da mulher ignorar a transformação do Homem é profusamente estudada por Kinsey em «Sexual Behaviour in the Human Female», W.B. Saunders Company, Publishers).

Mas para salvação de Chapeuzinho apareceram os lenhadores, mataram cuidadosamente o Lobo, depois de verificar a localização da Avó através de Roentgenfotografia. E Chapeuzinho Vermelho viveu tranquila 57 anos, que é a média de vida humana segundo Maltus, Thomas Robert, economista inglês nascido em 1766, em Rookew, pequena propriedade de seu pai, que foi grande amigo de Rousseau.»

- Millôr Fernandes, Lições de um Ignorante, publicado em 1967

3 comentários

  • 1
    com Firefox 3.5.7 Firefox 3.5.7 em Windows XP Windows XP
    20 de Janeiro de 2010 - 12:42 | Link permamente

    Ohh, como pode??
    Estragou as fantasias contidas nos contos de fadas 8O
    Imagina se o Millôr Fernandes fizesse uma versão de Alice no País das Maravilhas =P

  • 2
    O Povo É Sereno
    com Firefox 3.5.7 Firefox 3.5.7 em Windows 7 Windows 7
    20 de Janeiro de 2010 - 23:43 | Link permamente

    @: Laize

    Numa encruzilhada de muitos caminhos Alice pergunta ao Gato Cheshire:
    “- Poderias dizer-me, por favor, que caminho hei-de tomar para sair daqui?
    - Isso depende do sítio onde queres chegar! – Disse o Gato.
    - Não interessa muito para onde vou… – retorquiu Alice.
    - Nesse caso, pouco importa o caminho que tomes – interpôs o Gato.”

    Não ia dar. Alice no País das Maravilhas já foi escrito por um sósia de Millôr Fernandes :D Vê se esta não é uma frase do País das Maravilhas : “Toda regra tem exceção. E se toda regra tem exceção, então,esta regra também tem exceção e deve haver, perdida por aí, uma regra absolutamente sem exceção”.

  • 3
    com Opera 10.10 Opera 10.10 em Windows XP Windows XP
    22 de Janeiro de 2010 - 17:11 | Link permamente

    É estranho não haver um livro do Millor editado em Portugal, o ultimo e único, que me lembro de ser editado juntamente com o jornal independente que ja fechou!

    Uma das perolas do livro

    “O amor é cego. Mas casar é a
    operaçao que lhe devolve a visão”

    :lol: