Toda a desilusão é para mim uma doença que certas circunstâncias podem tornar inevitável, é verdade, mas que, quando se produz, nem por isso deve deixar de ser tratada o mais rapidamente possível, em vez de ser olhada como uma forma superior de sabedoria. Um homem, suponhamos, gosta de morangos e um outro não gosta; em que é que o último é superior ao primeiro? Não há nenhuma prova impessoal e abstracta de que os morangos sejam bons ou maus. Para quem gosta são bons, para quem não gosta são maus. Mas o homem que gosta tem um prazer que o outro não conhece; sobre este ponto, a sua vida é mais agradável e está melhor adaptado ao mundo onde ambos têm de viver.
O que é verdadeiro neste exemplo trivial é igualmente verdade nas questões mais importantes. O homem que gosta de assistir a desafios de futebol é sob esse aspecto superior ao homem que não gosta. O que aprecia a leitura é ainda mais superior do que aquele que não a aprecia, pois as oportunidade de ler são mais frequentes do que as de ver desafios de futebol. Quanto mais objectos de interesse um homem tem, mais ocasiões tem também de ser feliz e menos está à mercê do destino, pois se perder um pode recorrer a outro. A vida é demasiado curta para nos permitir interessar por todas as coisas, mas é bom que nos interessemos por tantas quantas forem necessárias para preencher os nossos dias. Somos todos propensos à doença do introvertido que, perante o multiforme espectáculo que o mundo lhe oferece, desvia a vista para contemplar apenas o vazio dentro de si.
Bertrand Russell, A Conquista da Felicidade
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Toda a desilusão é para mim uma doença que certas circunstâncias podem tornar inevitável, é verdade, mas que, quando se produz, nem por isso deve deixar de ser tratada o mais rapidamente possível, em vez de ser olhada como uma forma superior de sabedoria. Um homem, suponhamos, gosta de morangos e um outro não gosta; em que é que o último é superior ao primeiro? Não há nenhuma prova impessoal e abstracta de que os morangos sejam bons ou maus. Para quem gosta são bons, para quem não gosta são maus. Mas o homem que gosta tem um prazer que o outro não conhece; sobre este ponto, a sua vida é mais agradável e está melhor adaptado ao mundo onde ambos têm de viver.





























3 comentários
Tenho uma iniciativa a propor: sempre que os jeovas nos venham chatear, entregar-lhes uma cópia do Porque não sou cristão, do Bertrand Russell.
Frase perfeita.
Uma boa leitura faz sempre bem, mas esta entrada só me vem lembrar a inutilidade das péssimas leituras que tenho feito nos últimos tempos.
De facto isto de não se saber quem irá necessitar da minha ajuda (pai, mãe, irmãs mais velha e mais nova doentes) leva a que a atenção e cuidado na leitura (ou outra tarefa não trivial) sejam baixas.
Mas a leitura (mesmo que má), o comer algo que nos seja agradável realmente melhoram um dia dum gajo.
PS: não sei como é que tens tempo de escrever tanto e tão bem.