→ 05/04/2006 @15:27

Barcelona – 2, Benfica – 0

Tanta generosidade pode dar maus resultados. Foi precisamente isso que aconteceu no jogo da 2ª mão dos quartos-de-final da Liga dos Campeões entre o Benfica e o Barcelona.

Consciente do poderio encarnado, a equipa espanhola entrou no jogo cheia de cautelas – uma táctica defensiva que tinha por objectivo conduzir o jogo ao prolongamento e, depois, à marcação das grandes penalidades.

O Benfica – pressionando sempre muito o adversário e nunca dando quaisquer hipóteses ao Barcelona – acabou por acusar o nervosismo dos espanhóis. Sendo bastante conhecida a personalidade generosa de muitos jogadores encarnados, a equipa foi recuando no terreno, numa tentativa de permitir, pelo menos, algumas hipóteses ao Barcelona. Se vamos chegar às finais, ao menos que não seja a bater em muertos, afirmou Ronald Koeman ao intervalo. Foi por esse motivo que coloquei o pequenino Miccoli sozinho lá à frente ao pé daquele bisonte, o Puyol.

A generosidade do Benfica não foi bem aproveitada pelo Barcelona. Em vez de partir para cima do adversário, os espanhóis, liderados pelo tuga Deco e um medroso Ronaldinho, limitaram-se a trocar a bola no próprio meio-campo, como se quisessem apenas queimar tempo. A gente queria atacar, mas estava com medo que o Beto cortasse a bola, o Benfica contra-atacasse com perigo e marcasse um golo, explicaria um exausto Deco no final da emocionante e equilibrada partida.

Beto

Beto – cobiçado pelos grandes clubes europeus – é um dos mais influentes da equipa. A polivalência permite-lhe ocupar todas as posições dentro de campo: tanto joga de cócoras como a fazer o pino. A sua presença preenche todo o campo, assustando não só adversários como a própria equipa. É o rei das assistências, tanto no Benfica como em quase todos os clubes que defronta. A preciosa assistência que permitiu o primeiro golo do Barcelona teve a sua indiscutível marca.

O Benfica acabou por mudar o rumo do jogo. Como o adversário tinha medo de atacar, pensámos que seria melhor dar-lhes uma ajuda. Dei ordens a todos os jogadores do Benfica para que, em vez de iniciarem lances de contra-ataque, se limitassem a chutar a bola para a frente. A opção, explicou Koeman, teria como objectivo libertar o Barcelona das amarras psicológicas e obter uma vitória digna do clube das águias.

Não dá gozo nenhum ganhar um jogo contra uns mariquinhas, explicou o capitão Simão, que reconheceu ter incentivado o guarda-redes do Barcelona com um Anima-te, pá, não chores, eu falhei de propósito. Vê lá se espevitas e mandas a tua equipa para a frente.

Eventualmente a estratégia acabou por dar resultados. Beto – jogador raçudo e disciplinado tacticamente – acabou por fazer uma assistência primorosa a um dos vários cepos da equipa adversária, permitindo que Ronaldinho – com alguma sorte, diga-se – inaugurasse o marcador para o Barcelona. Foi um bom incentivo para a gente. Assim já teve mais ânimo para tentar chegar ao empate, afirmou o craque brasileiro no final do jogo.

Quando finalmente o Benfica assumiu a sua superioridade, encostando o Barcelona ao seu meio-campo e massacrando a baliza adversária, veio o balde de água fria: um contra-ataque espanhol – contra a corrente do jogo – acabou por dar o segundo golo aos barcelonistas e arrumar a questão da eliminatória. Fomos demasiado generosos. Já no jogo da primeira mão deixámos o Barcelona atacar durante toda a primeira parte para lhes dar hipóteses. A ideia era chegar ao intervalo a perder 0-3 e depois virar para 4-3. Infelizmente as coisas não nos correram bien, afirmou um resignado Koeman, que reconheceu ter feito entrar Laurent Robert na esperança de que o francês pudesse espevitar o jogo. É preciso ver que estamos a falar de um jogador que tem, pelo menos, o dobro da disponibilidade física de um Zahovic.

Não é fácil ser o Benfica – principalmente para o Benfica, reconheceu Ronaldinho, que confessou ter ficado muito satisfeito com as palavras do central Ricardo Rocha, que o considerou um atacante promissor e leal. Ser elogiado pelo melhor defesa de marcação do mundo não é para qualquer um. E agora, Ronaldinho, como vai ser? Agora vamos assumir nosso papel de tomba-gigantes da Liga e provocar novas surpresas, quem sabe até chegar à final, adiantou, satisfeito e aliviado.