Já repararam nas conversas das velhotas quando estão horas enfiadas na caixa à espera de consulta médica? Só falam de doenças. A impressão que eu tenho é que nem conhecem a companheira de consulta pelo nome próprio, mas pela doença que tem.
- Olhe, está a ver aquela senhora ali? Esteve cá na semana passada com uma crise de fígado terrível.
- Não me diga! E aquela ali sentada, a senhora conhece?
- Ah, sim, claro, sofre muito de reumático no joelho, está a ver, quando o tempo muda vem sempre a coxear…
As velhotas têm sempre um ritual: cinco segundos após as primeiras apresentações, tratam logo de avaliar a doença da outra.
- Ah, a senhora tem angina de peito? Pois, é muito chato…
- Então e a senhora?
- Eu? Ai, nem me fale, eu sofro muito dos ossos, a senhora não imagina…
Passam horas nisto.
- E angina de peito, a senhora já tem?
- Não, essa não. Mas costumo ter uns apertos no coração.
- E problemas com os ossos, a senhora tem?
- Não sei, em que zona do corpo se queixa mais?
- Eu é no joelho, sabe…
- No joelho? Ah, essa já tenho! A minha é no braço.
- No braço? Olhe, essa não tenho.
- E não tem aí nenhuma para a troca?
Parecem crianças a fazer troca de cromos.
Não quero parecer cruel com estas pessoas. Juro-vos que não é o caso. É simplesmente uma forma de evitar a depressão quando vejo tanta gente escrava do seu próprio corpo e sujeita a um novo tipo de escravidão: a espera sem revolta. Tantas horas a cheirar aquela atmosfera cheia de éter provoca-me logo o delírio. E se eu tivesse de ir à caixa todos os dias acabaria mesmo por ficar doente.
Subscrever o blogue
Mais vistos ultimamente






























4 comentários
Estás enganado. Elas adoram aquilo!!! Qual escravidão? E para quê revolta? Aquilo é um centro de dia grátis. Lá há melhor do que aquilo?!?
Se não fosse assim, horas e horas de espera, elas nem lá metiam os pés. Imagina: estar lá às seis da manhã, para ter uma consulta às 10… Uau! É festa da grossa!
A mim basta-me ir para a paragem do autocarro todas as manhãs para ouvir essas coisas. Chego a temer quando olho para a paragem e está lá uma senhora sozinha. Se estiver frio, mesmo que seja um frio razoavel, é meio caminho andado para comeaçr a contar-me a sua vida tendo cmo pontos de referencia suas doenças. Às vezes falam-me dos agasalhos, dos colans de lã que são quentinhos, dos falecidos maridos, da miséria que ganham todos os meses, daquela vez em que foram visitar a filha ao estrangeiro, do senhor que esteve na praça da alegria. Eu respondo com um aceno de cabeça e um sorriso umas vezes maior outras menor. Não consigo ignorar, mas para dentro peço baixinho, “por favor não sejas assim quando tiveres 80 anos!”
Isso passa-se por todo Portugal, existem milhares de pessoas que quando passo pelo posto de saúde de manhãzinha pra ir para a Fac tão lá à espera de uma vaga…mas como a Sara diz no autocarro/comboio também se houve cada disparate….
também vamos para lá….
Será que aqui no Brasil as pessoas que ficam ajeitadas nas calçadas , com jornais e cadeirinhas, cobertores e sanduíches e garrafas térmicas, e muitas vezes sem nada disso, esperando um posto ou hospital geral abrir às 8 horas, gente pobre, muito pobre na maior parte, haverá de ter este tipo de conversa na madrugada?… Eu acho que não. Só dá pra segurar uma revolta crescente no peito.
Este tipo de diálogo acontece sim mas nas salas de espera de consultórios…